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21 de out. de 2012

O teclado


Estou diante do monitor. Olho para o teclado e vejo nele um monte de símbolos e me faltam palavras. A impressora espera alguma folha, “doida” para imprimir. Procuro palavras no meio de tantas, e não as acho. Se for buscá-las em dicionário, não servirão para um idílio ou dor. A minha carne  cansou-se de tudo, até de mim. Vozes vibram no ar. Palavras se entrelaçam no abraço da comunicação. Algo pousou em mim. O que é, não sei. O mundo gira em torno deste teclado. O mundo parado, inerte, que não quer morrer. Apenas está num estado de movimento, mexendo nas teclas sem saber para onde ir.

 Cadernos, 08 junho 2001
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20 de jul. de 2012

A alma e as ruas

Ontem o meu coração estava nas minhas tripas e uma sensação ruim me acompanhou. As luzes dos postes não me traziam nenhuma novidade. Em mim, várias faces que não me definia. Vi-me perdido nas ruas e o tédio me afagava. Estava só, num estado de graça e angústia. 

No bar, o copo de cerveja na minha frente, gelado, suando, não me desmanchava. O queixo tremeu, a pele tornou-se diferente. As vozes iam, viam e não me interessavam.
Levantei-me e sem rumo e sem leme fui andando no meio das intempéries, levado pelas havaianas. Senti uma vontade de nascer de novo. Perguntava aos céus o que eu estava fazendo ali. Como resposta nenhuma veio, senti-me solto, jogado no mundo como se estivesse pagando uma pena.

Dentro de mim vozes entravam de formas diferentes, formavam fatos e atos. Para quem ou para o quê, não sabia. Sei que aquele dia não me foi diferente, pois sentia a sequência de anteriores que se repetiam com dramas e sustos repentinos. Ia, ia sem perder a direção. 

As ruas nem largas, nem estreitas me espreitavam sem vaivém, sozinhas no meio do caos. Uma sombra deslocada da minha carne rugiu forte e as meninas massificadas passaram alegres, sorridentes.   
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1 de jul. de 2012

Historinha

O menino pedia para a mãe por uma historinha. Impaciente, olhando de um lado para o outro como se um mico pagasse, disse a alguém que a acompanhava:

— Todo dia é isso: este menino inventa alguma coisa. Agora quer uma historinha. (Meneando a cabeça).

A reclamação dela não conseguiu vencer a curiosidade dele. Dirigiu-se a um revisteiro e decepcionou-se, pois, as historinhas que ele queria não estavam ali. A mãe, aborrecida, pegou-lhe pelo braço, dirigiu-se ao caixa de atendimento, pagou a conta e se foi.

E aquele pequeno leitor será  interrompido por quem historinhas deveria lhe dar. 
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12 de mai. de 2012

O pescado



Estávamos na lancha. Ao meu lado, Mário pescava. Eu topei em seu ombro direito. Então, ele abriu os olhos esbugalhados para mim. Perguntei-lhe:

 Quanto custa o quilo do peixe? Sem compreender, respondeu:

 Qual? A tilápia, o tambaqui, o piau...?

Norma, que diante de mim se encontrava, caiu; mas de gargalhada. Eu ri também junto com ela. Mário ficou meio constrangido, percebeu o gracejo e disse:

 Você e suas frases tiradas do baú!

Ainda rindo, retomei o diálogo, dizendo-lhe:

— Se fosse do baú, ela não estaria impregnada em nosso corpo. Mário, quando o cesto estiver cheio, você me diz quanto custa o pescado da sua pescaria.
E atravessávamos o rio na trepidez da lancha e das gargalhadas.



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22 de abr. de 2012

Com os covos na mão


Marulhava as águas sobre as pedras. Nelas, um hóspede inesperado ancorou o barco. Espreitou de um lado, do outro para ter certeza que estava a sós. Ele e os covos, ele e o marulhar das águas numa noite densa e fria.
As pupilas se dilataram, o coração pulsou com mais força, a pressa apareceu e na ânsia, via tudo a sua volta com desconfiança. Dentro da madruga só os olhos brilhavam atentos, espreitando e estreitando os intentos que emergiam dos circuitos elétricos vindos do cérebro.
Avistou de longe um tronco de uma árvore rio abaixo, assustou-se pensando que era uma canoa. O susto passou, mas ele ficou com a desconfiança no peito e os covos na mão.
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20 de jan. de 2012

Eu não fiz com o dedo

— Amiga, não sei o que fazer. Tô grávida, meus pais não sabem e tô desesperada. Me der uma luz!
— Não sei como dar luz a uma grávida. A única coisa que sei é que ela brilhará daqui a nove meses. (risos)
— Deixe de brincadeira. Tô falando sério! Não sei o que fazer.
— Já falou para ele?
— Ainda não! Tô com medo dele me rejeitar e eu ser mais uma mãe solteira.
— Amiga, se ligue! Essa criança não é só sua. Se ele não quiser assumir, você vai e denuncia na Justiça e Pronto. Vai deixar de graça, é?
— Não amiga! Tôu tão confusa e com medo. Os homens são estranhos. Diz que gosta, quer ficar com a gente e quando acontece isso, eles fogem como diabo da cruz. Ainda dizem que a gente é complicada.
— Amiga, deixe de bobagem. Você fez com o dedo, por acaso?
— Não!
— Então! Tente conversar com ele. Ele não diz que gosta de você. Que sempre estar com você em tudo que é festa?
— É!
— Então! Vou telefonar para ele agora.
— Não sei.
— Ligo ou não ligo. Dicida logo isso e acabe com essa agonia.
— Ligue.
Paulinha discou o número e disse-lhe que Martinha o aguardava na lanchonete do Bira. Antes de ele chegar, Martinha estava apreensiva, ansiosa. Dentro de sua cabeça os fatos já estavam concretizados: ele ficaria desesperado, alegando que era jovem demais para assumir tal responsabilidade, que ela teria que abortar; custe o que custar. E se ela não fizesse isso, ele a deixaria. Enquanto ele não chegava, esse era o seu espinho na carne.
Quando Barnabé chegou, beijou a face de Paulinha e em seguida deu uma bituca em Martinha. Nervosa e motivada pela amiga, não fez arrodeio. Foi direto ao ponto:
— Estou grávida!
Ficou sério por alguns instantes. Depois riu, deu-lhe um beijo cálido, riram e comemoram por ali.


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23 de dez. de 2011

Galrão

Eram sete horas da manhã. Desci a rampa do porto, entrei na lancha e sentei. De onde estava, via o céu nublado e nele um arco-íris enfeitando a manhã.

Enquanto folheava a Gramática, uma mulher conversava o tempo todo como se tivesse necessidade de fazer aquilo durante toda a viagem. Com o cigarro entre os dedos e os lábios, chamava a minha atenção. Olhei algumas vezes para ela, para a pose que só os fumantes têm, dei uns sorrisos contidos e retornei para a Gramática, deliciando-me com os verbos de ligação.

E porali fiquei alternando de um estado para outro, sem me incomodar com a trepidez da lancha, nem com a tagarelice dela.
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7 de nov. de 2011

A pressa e a prece

Olhou para o relógio azul de ponteiros vermelhos e números pretos que estava na parede branca da casa. Quando se deu conta, as horasões contínuas estreitaram seu tempo, fazendo-a apressar o coração, os passos e a ansiedade.
— Já vai mulé? Tá cedo!
— Tenho que ir. Tenho umas coisas para cuidar.
— Obrigado pela visita. Quando vem passar um final de semana com a gente?
— Qualquer dia desses. Quando sobrar um tempinho eu apareço.
— Minha amiga, não se torne uma xepa. Para que tanta correria. A vida estar passando e é tão curta. Sua correria vale a pena? Pense um pouco nisso.
— Não se preocupe. Próximo ano estarei mais aliviada. Se Deus permitir, a gente ainda vai se ver muitas vezes, colocar os assuntos em dia e relembrar as nossas andanças de solteirice. 
 — Tchau!
 — Tchau!
E  o relógio simplesmente continuou com o seu tique-taque e Maria fechou a porta pela última vez para a amiga, lembrando-se da pessoa alegre que era, mas sempre apressada, tomando aquele café ligeiro.

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20 de out. de 2011

Dualismo entre as vassouras

Esses dias, por meio das redes sociais, parte da sociedade se mobilizou para protestar contra a corrupção. Essa mobilização ficou conhecida como a manifestação anticorrupção. Toda e qualquer tipo de manifestação dessa natureza é válida, mas imatura porque vivemos um dualismo eleitoral.

Não se pode fazer reivindicações de valores e de direitos quando no seio delas há contradições. Explico: recentemente a pesquisa da Fecomércio – RJ revelou que as classes que mais consomem produtos piratas são as A e B. Ao invés dessa sociedade se organizar e exigir que os impostos dos produtos originais sejam diminuídos, prefere praticar conscientemente o ilícito. Essas mesmas pessoas enchem a boca para criticarem com veemência os atos de corrupção.

Tanto a pirataria como o comércio eleitoral é uma prática visível e presente em todas as classes sociais deste país. Se formos fazer uma lista do dualismo eleitoral praticado pelos eleitores, principalmente no período eleitoral e pós, não caberia nesta página. Entendo que antes de os cartazes serem expostos, pintarem as caras, porem narizes nos narizes, apregar vassouras nas praias, enfrente ao Congresso, se organizarem através das redes; é necessário que se faça uma reflexão profunda dos valores e das práticas políticas de cada um.

A sociedade deveria se organizar não somente para combater a corrupção vista de cima, mas a que é praticada por baixo e que não é mencionada pela mídia, nem por essas manifestações.

Antes de alguém pegar uma pedra, saibam que não sou a favor da corrupção porque ela é uma prática mesquinha e criminosa; mas não dar para viver de hipocrisia. A barganha é um fato, assim como é fato a candidatura de candidatos com vida pregressa maculada que se elegem e reelegem.

Não se faz política neste país. Faz-se negócio. Por isso há muita gente no Congresso, nas Câmaras municipais e estaduais desinteressada em legislar. Gente que percebeu que a politica é um grande negócio. Aquilo que muitos chamam de corrupção não é vista como crime por eles, apenas o resultado de investimentos em campanhas eleitorais, cabos eleitorais, eleitores e outras coisitas.

A partir de 2012 haverá eleições para prefeitos e vereadores em todo o país. Muitas caras se repetirão e outras serão substituídas, mas a conversa é unânime: quem dar mais ou o menos pior serão eleitos. Poucos são os homens de vida pregressa imaculada que irão disputar um pleito. Se forem eleitos sem a mercantilização do voto honrarão os seus mandatos, mas se eleitos forem com a maldita compra de voto saibam que os vícios irão minar os seus valores e ideais.
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17 de set. de 2011

Na boquinha da garrafa

Eram três os que na lancha entraram. O primeiro carregava bolsas plásticas contendo quinquilharias, o segundo trazia na mão esquerda uma garrafa de pinga e o último trazia moedas em uma das mãos. Sentaram-se no banco de madeira.

Conversavam algumas coisas, balbuciavam outras, entre risos e irritação. O homem que segurava as moedas se dirigiu para o mais jovem do grupo. Alterado, disse-lhe:

—O que você tá dizendo, seu porra? Caralho!

— Nada não. Tá doido é?

Aquele que segurava a garrafa interferiu, dizendo:

— Vamo pará com essa arenga besta. Seus dois bestas! Vamo toma é mé.

Pegou a garrafa, tomou um gole, passando-a de mão em mão; retornando as suas conversas com frases e gestos curtos. Somente a garrafa, com sua boca circular e áspera, aceitava aqueles beijos bacanais.

O restante dos passageiros deixou as estripulias deles prá lá, voltando-se cada um para seus estados de espírito.

Os rostos eram tão diferentes, as histórias psicossociais, os sofrimentos escondidos no mais secreto do coração, no mais profundo miolo do pote onde ninguém consegue penetrar.

E eu estava incluído neles também. Os via, não com os olhos que lacrimejam, mas com aqueles que não se veem.
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24 de ago. de 2011

As casas se tornaram éclogas

Estava no quintal observando a vida e a sua variada existência. Observava também as coisas inanimadas corroídas pelo tempo que tudo envelhece, que a todos conduz a morte.


As nuvens se tornaram plúmbeas, tirando-me de Sofia. Entrei em casa, olhei de soslaio para mamãe que consertava uma toalha de redendê; dirigindo-se à sala de visitas.

O céu estremeceu espalhando o medo nas ruas, as pessoas se recolheram para as suas casas, Mimi correu para debaixo da cama, mamãe foi às pressas tirar as roupas do varal, faltou energia e eu fiquei vendo o mundo da janela.

Depois de alguns minutos a energia voltou somente em uma das fases. Na quadra em que morava só um poste estava acesso parecendo palco de teatro em meia-luz. Envolto dela, as gotas, os besouros rodopiavam.

Estiou.

Fui à porta, pus a mão na maçaneta e um vento frio possuiu a minha pele. Pouco a pouco as coisas normalizaram: os narizes apontaram nas soleiras, os assentos nas praças tinham novidades de uma árvore que fora partida por um relâmpago, que há muito não se via um toró assim, que algumas ruas ficaram alagadas...

Da porta disse:

— Mãe, vou ali!

— Ali aonde, meu filho? Mal acabou de chover e você vai sair?

— Vou Ali!

E saí sem hora certa para voltar.
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6 de ago. de 2011

Deseducação política

Recebi um e-mail de uma amiga. O título que o encabeça é este: A carta, publicada em O Globo. O texto é válido, mas expõe um grito de revolta e de um desespero inútil.


O texto aborda o novo referendo pelo desarmamento, acompanhado da opinião do autor pelo não. Para justificá-la, ele opina que os Governos revoguem as leis atuais; seguidas de sugestões como estas: voto facultativo, dois senadores por Estado, redução pela metade dos deputados federais, estaduais e vereadores; férias de apenas 30 dias para todos os políticos, juízes etc.

Tudo o que estar escrito nesse texto é possível se houvesse uma reeducação política e os eleitores votassem em propostas. É mais fácil criticar os atos dos profissionais da política que enfrentá-los na prática. E a prática é cruel, mesquinha, vil, hipócrita.

Esses textos que só veem a política de cima para baixo deseduca. Ninguém pode criticar, analisar o comportamento do político brasileiro sem antes compreender a forma como ele se elege. Neste país voto é mercadoria. Sendo uma mercadoria sempre iremos ter irresponsáveis no poder, gente desinteressada em legislar. Textos como os que eu recebi e recebo não serve para mim, não vai servir para ninguém.

Esses cronistas deveriam deixar de escrever textos que não servem para nada. Deveriam escrever textos de estímulos a sociedade para que esta se organizasse, compreendesse com profundidade a política para que o comércio eleitoral fosse combatido, derrotado.

Esses textos me cansam. Se eles não servissem para as minhas análises, os apagaria; pois, neles não há nenhuma novidade.

Por isso defendo a ideia de uma sociedade organizada em núcleos de reeducação política para resgatar as pessoas das palafitas, das favelas, do seu estado de miséria e torná-las cidadãs capazes de mudar a sua história pessoal e da comunidade em que vivem; porque a acidez das palavras não constrói e constrói uma sociedade mais alheia as práticas políticas.
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7 de jul. de 2011

O sorriso de Nizinho

O pré-púbere o acompanhava. Ao perceber, adiantou o par de tênis e a ansiedade acelerou no peito. Olhava de um lado e de outro, tendo a impressão que aquela criança se aproximava. A criança insistia em persegui-lo, dizendo:

— Por que o senhor tá em silêncio e tão apressado? Eu preciso falar com o senhor. De hoje que chamo você. Ah! O senhor não quer falar com eu, né ? Então, pare agora; se não eu atiro!

O homem parou ofegante, as pernas tremiam, o suor e a palidez apoderou-se de sua face. Volveu-se para a criança e foi recebido com um riso. Sem pestanejar, disse-lhe:

— Quando o senhor saiu da padaria deixou cair isso. Aí eu vim as pressas para devolver ao senhor.
O homem ficou pasmo, permanecendo em silêncio.
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5 de jul. de 2011

Largue o meu pé

Érico não costumava ouvir a mãe. Preferia a língua dos assentos das praças. Só que aquele jeito levado dele irritava a sua mãe que todos os dias chamava-o para ir à escola. Era assim:

— Ô Érico, meu filho, não vai hoje prá escola não? Só que tá nais bancada. Vá tomá banho, vá. Já tá na hora de ir prá escola, menino!

Ele deixou os colegas no assento, entrou irritado, volveu-se ela e disse::

— Como é que a senhora fala desse jeito comigo, na frente de meus amigos. Ficaram tudo mangando de mim.Tá bom deu não ir prá escola nenhuma.

Ela o olhou cuidadosamente e disse:

— Se você não tem o que querer. Enquanto você viver debaixo da minha vista, terá que me obedecer. Se não, arrume as suas coisas e vá embora. Você já tá bem crescidinho. A vida é quem ensina.

E deu-lhe as costas, indo à cozinha.Ele nada disse. Pegou a bolsa e foi à escola, não por vontade livre, mas pela imposição da mãe.

As ruas, naquele dia, estavam pálidas e tudo o que nelas haviam. Somente a revolta, o tédio, as frustrações o acompanhava. Para ele a escola nada significava. No trajeto se encontrou com Mota, seu vizinho, que também não era muito de estudar. Aproximou-se do amigo, pôs o braço em seu ombro e com um riso libidinoso, iniciou este diálogo:

— Érico, nóis vai hoje [1]gaziar. Vamo procurá as meninas e namorá com elas. Vamo?

— É Mota, vamo mermo! Depois a gente toma uma. Já tôu mesmo com raiva.

— Vamo lá. Fernanda tá com uma blusinha! Só você vendo.

E se foram corando as ruas e esbanjando a libido.

[1] Matar aula.
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3 de jul. de 2011

Os prefeitos, a folha paralela e os cognatas

Nas cidadezinhas, os prefeitos quando estão em apuro financeiro (nunca deixam de estar) costumam dizer que “não tem dinheiro”, que “os repasses diminuíram” e vão empurrando a administração com a barriga, digo: com a língua e remendos.
E assim vivem eles: um tapinha nas costas num dia, óculos escuro noutro, notas frias ali, vereadores passando no bolso por aqui. Mas as cidadezinhas continuam as mesmas: prestando serviços públicos devagar, faltando-lhes as bananeiras e os burros de Drummond.

Essa falta de dinheiro que a maioria dos prefeitos dizem que “não tem” é justificada por vários motivos. Um deles é tão comum, tão familiarizado que todos praticam-no: é a folha paralela.

A folha paralela é uma folha política, a parte; ajeitada por causa dos compromissos eleitorais. Para mantê-la, eles negam reajustes salariais a servidores e prestam serviços públicos sem qualidade. Assim estar distribuída: para os cabos eleitorais, polícia, parentes, amigos, financiadores de campanha (agiotas, comerciantes etc), o bolsa semanal, os contratados, servidores públicos apadrinhados e há situações em que membros do Judiciário fazem parte dela. A folha paralela é um problema político longe de ser resolvido, graças a mercantilização do voto.

Além dessas coisas aborrecentes, há os infelizes cognatas. O cognata é o papagaio do político. Ele repete aquilo que ouve dos prefeitos, deles adquirem alguns hábitos, acham graça em tudo o que dizem e sempre procuram, de uma forma ou outra, justificar as falhas administrativas e pessoais deles. Estão em todas as partes, em todas as classes e deles não se exige escolaridade. É apenas um animalzinho, nada mais.
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18 de jun. de 2011

A serva


Quando percorreu as linhas horizontais do bilhete, notou a deficiência da grafia, da ortografia, do ensino fundamental. Eram dizeres rústicos, pueris, seguidos de entusiasmo e contentamento. Tratava-se de mais uma na infinita lista da libido.

Nele estava pedidos de desculpas, lamentações de um encontro realizado amargo; simplicidade amarela. A esperança não adornou mais o eu, murchou, caiu. Sentimento de culpa, pedido de entendimento. As palavras não explicavam o código. Uma saudação carinhosa.

Ela dizia: “ (...) eu gostaria...o que eu...eu jamais vou esquecer...quando eu chegar (...)”. Estas eram as palavras de quem desconhecia seus próprios sentimentos, utilizando de vocábulos espontâneos; emergido do íntimo.

Apesar de as palavras serem escritas com tinta azul, eram tortas, tontas, avermelhadas que expunha o ser vestido de carne no papel, vindo com ímpeto de dentro para dentro... Uma pintura na íris.

— Você está partida em pedaços. Tenho nas mãos os sentimentos e a linha para coser a roupa das lágrimas. Um hálito suave ameniza a perda. As cicatrizes trarão aos olhos as lembranças.

Mas o insistia: “(...) te adoro...muito bom...encontra com você... o que cinto... não...escrever...gosto de você...demais...tchau...beijo....abraço....ass...” esqueceste do “S” e fizeste cinto, que te aperta de uma só vez, várias... o teu nome é um sigilo cardíaco nas asas do pássaro e na liberdade do vento.

Guardarei com afeto natural o teu estado de emoção. Olharei as linhas verde das folhas e verei escrito nada a teu respeito. Este é o meu sigilo verde, mudo.
Outubro de 1997.
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8 de jun. de 2011

Creditados

O povo estar desacreditado, por isso, barganha o voto.

O desacreditado é a pessoa que perdeu a confiança. No contexto político diria que o eleitor desacreditado perdeu primeiramente a confiança em si, substituindo-a pelo desânimo, pela passividade ante os acontecimentos e, ao invés de reagir, preferem a “cultura” da impiedade, do jeitinho, da facilidade. Falta na maioria do eleitor brasileiro o interesse pela política. E o seu desinteresse é daninho para todos.

A população de desacreditados não tem face, nem classe social, nem escolaridade. Exterioriza a sua insatisfação pessoal e coletiva quando lê ou assiste ao estardalhaço midiático desse ou daquele gatuno. Como não vê os políticos irem para a cadeia ou devolverem aos cofres públicos o dinheiro desviado para outros fins, reclamam deles, do Judiciário. Criticam-nos e a maioria ainda dorme sem ser a Adormecida.

Como essas práticas são contínuas e a impunidade é o mel da mancebia política, o eleitor brasileiro apenas se sente um elemento dessa população, vencido, desgarrado; pois, associa as práticas de corrupção e abuso de poder somente como práticas ilícitas sem perceber que elas estão entrelaçadas ao comércio eleitoral tão comum nas cidadezinhas e bairros dos grandes centros.

E se convenceram que devem barganhar porque não mais acreditam naqueles que se candidatam, pois, todos que ocupam cargos eletivos se corrompem ou irão se corromper. O problema é que o eleitor, assim pensando, estimula não só a prática da corrupção; mas abre a porta para que todo tipo de pessoa se candidate, compre “[1] (...) o poder que emana do povo (...)”.

Por isso digo: a maioria não vota pela análise. Vota pelo impulso, pela corrupção (a maldita compra de voto), vota sem compreender o sistema político, aceitando-o como se um hábito fosse. Para quê? Para reclamar.

[1] CF. Art. 1º, parágrafo único.
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19 de mai. de 2011

Cãomício

Ele reuniu o povo como numa procissão. Ao invés de imagens, carregavam bandeiras, bandeirolas e adesivos estampados nos peitos. O povo assim estava distribuído: aqueles que recebiam uma “ajuda” semanal, os comissionados, os mensaleiros, os que financiaram a campanha e financiam, os covardes e os que são comprados para acompanhar o grupo político.

Eles acenavam para aqueles que nas portas ficaram, simpatizantes ou não, daquela euforia, daquele calor apimentado de fofoca, intriga, hipocrisia, interesses comerciais e pessoais.

Inesperadamente uma senhora deixou o bordado na cadeira, correu na direção do candidato, querendo apenas pegar em sua mão e lhe desejar toda a sorte do mundo. Acontece que um dos cabos eleitorais atravessou na frente dela, um cãomício embaraçou-a; mas ela insistiu, furou a barreira e o abraçou, dizendo:

— Meu filho, com a graça de Deus e Nossa Senhora; o senhor vai ganhar!

Surpreso, embaraçado, riu; mas o riso veio pálido, estranho. Sua face pedia que alguém a afastasse. Imediatamente um cãomício pegou-a pelo braço e a retirou. Da porta as poucas amigas riam da sua façanha, enquanto outros riam com desdém.

A turba seguiu seu destino. No palanque, eles esbravejavam, mentiam, caluniavam e os projetos ficavam nas intenções do ilícito. Ao pé do palanque os devotos erguiam bandeiras, bandeirolas, aplaudiam, gritavam; mas outros ficavam soltos, procurando alguma coisa para se entreterem.
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15 de abr. de 2011

Lamentações sem Jeremias


Reclamam deles. Apontam com os dedos das mãos seus defeitos e falhas, mas aceitam o comércio eleitoral como elemento “cultural” da sociedade brasileira.
Reclamam das Leis, da violência, do Judiciário (instituição dual), do setor público, mas elegem larápios e gatunos.
Reclamam em casa, nos assentos, nas escolas, nas repartições e onde houver aglomerado humano.
E estas miseráveis picuinhas se repetem todos os dias, a cada ano, a cada pleito e nada se conserta (Só a decisão do STF que tornou a ficha embranquecida).
E continua essa incrível contradição das reclamações e do escambo eleitoral.

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3 de abr. de 2011

A espectadora


            Carregava no corpo o cansaço que se acumulou durante seus setenta e cinco anos. Anos estes nada fáceis: sofreu passivamente com os insultos das raparigas, dos bafos incontáveis de cachaça e com os partos complicados.

O corpo, acomodado, não recepcionava as novas tecnologias como muitos da sua idade. Feito uma gata, esparramava-se no sofá, cochilava; depois vai para a cama, fica por lá algum tempo e senta-se numa confortável cadeira. De lá ocupavam os dedos com as bolinhas do terço, mas os olhos estavam voltados para os movimentos da rua.
A reza acabou. Os olhos deixaram à rua e os filhos apareceram em sua mente; um por um. Eles eram a sua mais séria preocupação.  Intrigas, fofocas, ciúmes, calúnias. Mesmo assim conviviam indiferentes e hipócritas. Esses fatos a entristeciam a ponto de suplicar no silêncio a morte. Uma lágrima envelhecida umedecia os sulcos da face.
Ela pensava: Eu os pari. Cuidei deles com amor, carinho. Fiz de tudo para eles estudarem, arranjar emprego. Quando o pai era vivo, todos vinham para as festas que ele fazia. Hoje, sumiram. Às vezes é que aparecem. E quando aparecem é para mim fazer raiva. Eu deveria na minha velhice ter era paz, sossego e não tanto sofrimento.
Esses eram os pensamentos que lhe causavam angústia, pois, via-os tomar cada um o rumo de sua natureza. Lamentava o seu estado deplorável. Faltava-lhe vigor para interferir como dantes, deixando o simples lugar de espectadora e interferindo em suas vidas, seus destinos. Hoje, ela não passava de uma simples espectadora das preocupações que seus filhos lhe causavam.
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