18 de jul. de 2022

Cleno Vieira - Chico, o Velho

Cleno Viera, poeta, estudante do curso de Letras Vernáculas. UFS/SE.
Livro Chico, o Velho. 1 ed. -- Porto Real do Colégio, AL. Plima Edições - Novela – Literatura Brasileira.

Foi com imensa alegria que recebi pelos Correios o presente livro do escritor, professor e amigo Ronaldo Pereira de Lima, carinhosamente chamado de Ron Perlim. A temática central, o sofrimento do rio São Francisco, o querido Velho Chico, mas também a simplicidade com que vive os ribeirinhos de Porto Real do Colégio, nas Alagoas, um verdadeiro manifesto em prol destes que são por demais desvalorizados, marginalizados e até mesmo, excluídos do debate político lá na capital federal, Brasília.

Hoje, não se vê, diante de tantas urgências que o Brasil protagoniza, uma discussão que trate a problemática desde seu princípio ao mais complexo detalhe. Passamos por contratempos, onde, sob o controle da nação, são propagados e instrumentalizados uma forma odienta no Estado brasileiro, o nosso Velho Chico, mais uma vez, infelizmente ficará para trás.

Tendo em vista todos os problemas supramencionados, faz-se necessário, além de sua leitura, uma ampla divulgação deste livro e de outros manifestos em prol do São Francisco (e de seu povo), principalmente nos meios mais populares de comunicação, nas instituições de ensino, sejam elas públicas ou privadas e se ainda possível for um maior acolhimento da obra por parte dos centros e academias literárias da região, e assim promover o desejo de Germano e seus amigos pescadores, “Apenas estou pensando no povo simples que vive do Velho e depende dele para sobreviver.”

Além da discussão central, chamou-me atenção a descrição que o autor faz do porto de Propriá, cidade que também é margeada pelo Rio. Ron não se esquivou em descrevê-lo como realmente é na realidade, pode até não ser no período festivo do Bom Jesus, mas que certamente na maior parte do ano é assim que recebe seus visitantes e acolhe o Velho: “Sem o que dizer, foram cabisbaixos até a cidade de Propriá. Ela os recepcionou com um bueiro, bolsas plásticas, orelhas-de-burro, um cavalo morto, latas de refrigerantes, cervejas, roupas, sandálias e um cheiro insuportável de fezes ao pé do cais.”

Claro, que o bueiro depende de outros esforços para ser bloqueada sua atividade, ou ao menos “amenizada”, o cavalo, sua presença pode até ser rara, mas o restante dos obstáculos podem e devem ser evitado e/ou enfrentados diariamente pelos milhares de propriaenses, que não sabem, ou fazem pouco caso da mais legítima verdade, não haverá: não haverá Propriá, muito menos Colégio, sem a presença do querido e amado Velho Chico, nosso irmão.

Aracaju, 15 de julho de 2022.


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13 de jun. de 2022

Antônio FJ Saracura - Chico, o Velho

Antônio FJ Saracura

CHICO, O VELHO, Ronaldo Pereira Lima, digo, Ron Pelim, por volta de 60 páginas, Edições Plima, 2022, romance ambientalista, isbn.

Meses atrás, Ron me enviou o manuscrito (modo de chamar) de pequeno romance e me pedia para ler e dizer o que achava. Eu faço isso com meus livros antes de publicar e Ron tem sido um parceiro e tanto, oferecendo sugestões valiosas. Abracei o pedido, e nem pensei em mudar o rumo do trem, que não era o caso, apenas botei gotas de azeite nas conexões dos trilhos, que secariam com um sopro, se assim quisesse o autor.

Estou orgulhoso de ter participado um pouquinho desse bom trabalho do Ron, um ganhador de prêmios literários. Fui seu companheiro em um deles, o Secult de Literatura de 2010, último infelizmente, promovido pela Secretaria de Cultura do Estado de Sergipe. Ele, com o livro infantil “Laura” e eu com “Minha Querida Aracaju Aflita”, que ainda vive e goza de boa saúde.

Chico, o Velho” fala dos pescadores e de suas famílias ancoradas na beira do Rio São Francisco, ali em Porto Real do Colégio nas Alagoas... Tentando pegar o peixe do dia, prosando embaixo dos pés de benjamim, sugando o mel da cana chamador de sonhos. O livro é um álbum de fotos vivas e revela o dia a dia desse povo, o jeito de pensar e de agir: remendando redes, espalhando armadilhas e sempre a cultivar os laços da camaradagem. E usa as técnicas naturais para corrigir os desvios de comportamento, descartar a maçã podre e preservar a harmonia.

A prosa é leve e reveladora. Mesmo que o leitor espere o fato acontecer, ele é mostrado com uma beleza natural que encanta.

Ele se calou. Não tendo o que responder, voltou o rosto para o teto e observava a teia de aranha. Nisso, sua mulher punha a mesa. Nela, estavam dispostos feijão, farinha e três postas de tilápias sendo que, a maior estava destinada para ele. A mesa estava composta por quatro crianças, uma mulher pálida e um homem revoltado. Joaquim, o filho mais velho, o espiava. Atreveu-se com uma pergunta simples e breve, mas sem resposta. Por cima do prato uma mosca voava. Com uma das pernas sobre a cadeira estirou a mão oleosa, pegou o peixe e mordia-o com veemência”.

Após o leitor assimilar a alma do meio, desfilam capítulos de antológicos. Ron Pelim preocupa-se em revelar paisagens e almas em ação em seu mundo decadente. Os detalhes literários pouco importam. E assim, “Chico o Velho” é do tamanho desse povo que vive do rio e se queixa de que o amigo está escondendo o peixe farto.

Seria uma denúncia?

Seria um pedido de socorro?

Quem está destruindo o rio, fazendo com que os peixes se escondam nas profundezas onde moram os duendes marinhos também assustados?

Quem pode socorrer os pescadores do São Francisco se os eleitos para cuidar dessa parte nem ligam para seu povo e nem para o rio. Que morram! Certamente outros aparecerão na seção eleitoral.

Aracaju, 09 de junho de 2022, por Antônio FJ Saracura.

 

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27 de mai. de 2022

Macaco Velho

 

No sentido de pessoa experiente, vem do ditado popular “Macaco velho não mete a mão em cumbuca”. Existe no Brasil uma conhecida árvore chamada sapucaia, cujo fruto é uma cumbuca, dentro do qual encontram-se pencas de castanhas. Quando o fruto amadurece, as castanhas vão caindo com o balançar dos galhos, por uma estreita abertura na parte inferior da cumbuca. Os macacos apreciam muito essas castanhas, e costumam enfiar a mão pela abertura para pegá-las. A mão, fechada e cheia de castanhas, aumenta de volume e o macaco não pode retirá-la, ficando preso. A liberdade só é recuperada quando o macaco, exausto, abre a mão e solta as castanhas. Essa tragédia, porém, só acontece com macacos novos, sem experiência da vida… Pois, macaco velho não mete a mão em cumbuca!…

Fonte: https://historiadoriso.com.br/ditados-girias/macaco-velho.html. Acesso em 26.05.2022.

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10 de mai. de 2022

Café Cultural - Cedro de São João - SE



O escritor Ron Perlim foi convidado para o I Café Cultural. O evento aconteceu no Centro Cultural Maria da Conceição Nunes, Cedro de São João, Sergipe.

Além dele, outros artistas de linguagens diferentes estiveram presentes.

Teve gente que cantou, outros recitaram poemas e outros só ouviram.

Teve aboio e toadas.

Teve a presença de ançiões do pé de serra.

Na ocasião, Ron apresentou uma nota biográfica de quem era, dos livros publicados e de textos espalhados pela net, alguns tornando-se atividade escolar.

Em seguida, de forma suscinta, expôs o conceito de cultura, a importância de praticá-la mirando especificamente crianças e adolescentes, vítimas das novas tecnologias que tiram deles o interesse e afeto por manifestações que dizem o que somos.

Falou que estão banalizando o conceito de cultura quando dão ênfase a bandas, muitas delas de má qualidade, em detrimento das outras vertentes artísticas.

Encerrou dizendo: “Não é preciso somente fazer cultura, mas fazer com que as crianças, adolescentes, jovens compreendam a importância que ela tem para a vida pessoal e profissional”.

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19 de abr. de 2022

A merenda que não estar nas escolas


Quando não há merenda nas escolas ou são oferecidos biscoitos com suco artificial, as tribunas se calam.

Quando este comportamento passivo chega às ruas e algum cidadão reclama, indigna-se; há quem costuma dizer:
— O que você tem com isso? A gente tem que arrumar um jeito de comer também!
Indignar é o verbo ignorado pelos vendidos, pelos que comem. Dessa forma a prática da corrupção recebe apoio de parte da população eleitoral. E pasme! Ela é dita “culta”, “esclarecida” e alegram-se com as artimanhas políticas.
Por isso a maioria dos vereadores e gestores não cumpre com os seus deveres. Estes tem a obrigação de fiscalizar, mas colocam o rabo no ventre, no egoísmo, na facilidade, na “naturalidade da corrupção” entregando-se ao regozijo da impiedade e aqueles a de fazer, mas omitem-se, violentando todo tipo de Lei.
E o dinheiro da merenda, que deveria ser escolar, vai para as bebidas, as farras, os conchavos políticos, as construções e reformas de casas, descem pela garganta e terminam no bolso; alegrando os corações desses larápios.
E os olhos das nossas crianças são ignorados pelos que presenciam e se calam. Pelo convencimento vil e mesquinho sem que nada se faça.
E os olhos desfalecidos das crianças vão até as cantinas e de lá retornam com as forma geométricas na face que só a fome sabe aplicar.
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17 de abr. de 2022

O Jesuíta de Possível Origem Negra Que Defendia a Escravidão Africana

Pe. Antônio Vieira

(…) Vieira chegou ao Brasil em 1614, aos 6 anos. Seu pai conseguira um emprego como escrivão na capital da Colônia, Salvador. Ao lado de Pernambuco, a capitania onde o menino cresceu era a mais rica (em 1612, havia cinquenta engenhos de cana-de-açúcar). Para manter essa economia funcionando, Portugal escravizava mão de obra africana. De acordo com o historiador Stuart Schwartz, entre 1595 e 1840, 147 mil negros africanos foram trazidos ao Brasil para trabalhar na lavoura. Só na Bahia, na década de 1620, entravam cerca de 2.500 a 3 mil escravos por ano.

Durante a infância e adolescência de Vieira, a escravidão africana serviu para Portugal manter o desenvolvimento econômico e explorar novas terras. Foi também um período em que a igreja se banhava em filosofias medievais para defender que, do ponto de vista de Deus, não havia pecado algum na escravização; pelo contrário, a prática era necessária para os negros encontrarem o caminho dos céus.

Para a igreja, o regime escravocrata era fundamental à manutenção da ordem do mundo. São Tomás de Aquino, inspirado em Aristóteles, resumiu tudo na máxima de que uns nascem para mandar e outros para obedecer. Era com base nessa filosofia que a Companhia de Jesus justificava a prática. Para os negros, a situação piorou quando, no século XVI, difundiu-se a tese de que os africanos eram descendentes de Cam, o filho amaldiçoado de Noé, e que estavam condenados ao cativeiro. A escravidão, portanto, era o caminho para suas almas serem perdoados.

Educado conforme os preceitos dessa época, padre Antônio Vieira acabou incorporando esse pensamento em sua fala e textos literários. Em 1633, o religioso recebeu o bizarro convite para pregar um sermão para os negros. Sua missão era convencê-los, em uma espécie de catequese, da importância de eles serem escravizados e de como essa condição os ajudaria na salvação de suas almas. Vieira, que estudara os textos da Companhia de Jesus de ponta a ponta, escreveu os sermões para os africanos baseados na ideia da suposta ascendência maldita. Disse-lhes que, para se livrarem do pecado de serem da estirpe de Cam e alcançarem a redenção, deveriam aceitar a cruz cristã, trabalhar na senzala e não se rebelar. Vainfas explica que pouco se sabe sobre as circunstâncias do episódio, embora afirme que a prática foi apoiada pelo Estado e pela Igreja e, provavelmente, dirigida a africanos que já entendiam o português.

Consciente ou não, Vieira passava adiante não apenas um texto religioso e literário, mas um discurso político favorável à manutenção das estruturas sociais da época. Ao fazer isso, o jesuíta demonstrava conivência com a exploração dos negros. E parecia se esquecer de condenava justamente aqueles que saíram do mesmo continente de onde, talvez, tenham vindo seus antepassados; de que o sangue que corria nas veias daqueles negros talvez fosse o mesmo que corria nas suas; de que, no topo de sua árvore genealógica, também poderia estar Cam, o filho amaldiçoado de Noé.


VERRUMO, Marcel. História Bizarra da Literatura Brasileira. São Paulo: Planeta, 2017. pp. 51 a 53.

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