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Mostrando postagens com o rótulo Jovem Autor

O espaço do texto

Jorge de Sá A construção de um texto equivale à construção de uma casa: cada frase, cada silêncio onde reside a significação a ser descoberta pelo leitor é uma espécie de quarto onde o cronista guarda os seus segredos e a sua solidão. Além disso, ao construir cada texto (considerado, aqui, como sinônimo de peça autônoma, relato que vai do título à última linha), o Autor está construindo a sua casa interna, procurando discriminar cada aposento e estabelecendo as leis que governarão o seu universo. Essa construção conduz a um texto maior – e que se faz sem palavras, pelo silêncio do discurso -, que nada mais é do que a compreensão do que somos, para melhor prosseguirmos em nossa viagem existencial. Assim, em “Manifesto”, Rubem Braga se dirige aos operários da construção civil, afirmando: “ Nossos ofícios são bem diversos. Há homens que são escritorese fazem livros que são verdadeiras casas, e ficam. Mas o cronista de jornal é como o cigano que toda noite arma sua tenda e pela manhã a

Machado de Assis ao leitor

Machado de Assis AO LEITOR Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem   leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem   provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem   leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte e, quando muito,   dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um   Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de   pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da   galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá   sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas   aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará   nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e   do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.   Mas eu ainda espero angariar as   simpatias da opinião, e o primeiro   rem

Como escreve Ron Perlim

Entrevista concedida para o site Como Eu Escrevo. 1 de agosto de 2018 by José Nunes Ron Perlim é escritor, especializado em Educação Matemática, colaborador da Revista Obvious .   Como você começa o seu dia? Você tem uma rotina matinal? Eu me acordo às seis. Tomo suco de um limão com água morna. Depois, vou ler. Feita a leitura, tomo café e em seguida vou trabalhar. Em que hora do dia você sente que trabalha melhor? Você tem algum ritual de preparação para a escrita? Não precisarei qual é a melhor hora para mim. A escrita em mim pode vir a qualquer hora. É espontânea. Se necessário, paro o que estou fazendo para anotar o que me vem à cabeça. Você escreve um pouco todos os dias ou em períodos concentrados? Você tem uma meta de escrita diária? Quando jovem na escrita, eu escrevia todos os dias. Isso acumulou muita matéria bruta. Então, eu tenho muita matéria bruta para ser trabalhada. Quase todos os dias eu reviso esse material, mas isso não me impede de escreve

O que é um bom livro?

Mário Sérgio Cortella Mas, o que é um bom livro? A subjetividade da resposta é evidente. No entanto, é possível estabelecer um critério: um bom livro é aquele que te emociona, isto é, aquele que produz em ti sentimentos vitais, que gera perturbações, que comove, abala ou impressiona. Em outras palavras, um bom livro é aquele que, de alguma maneira, te afeta e impede que passa adiante incólume. A emoção do bom livro é tão imensa que se torna, lamentavelmente, irrepetível. Álvaro Lins, crítico literário pernambucano (...) fez uma reflexão no Notas de um diário de crítica que expressa uma parte dessa contraditória agonia: "Ah, a tristeza de saber, no fim da leitura de certos livros, que nunca mais os leremos pela primeira vez, que não se repetirá jamais a sensação da primeira leitura, que não teremos renovada a felicidade de ignorá-los num dia e conhecê-los no dia seguinte". CORTELLA, Mário Sérgio . Não nascemos prontos!: provocações filosóficas . Petrópolis, RJ

Isso não é um filme americano

Nesta entrevista, que se encontra no final do livro Isso não é um filme americano , Lourenço Cazarré aborda males da sociedade brasileira que estão bem enraizados e que veio com toda a força nestes últimos dias. Males como a cultura da violência, desemprego, interferência da mídia na vida dos cidadãos e o desejo de vingança. O autor fala um pouco desses temas na entrevista que segue:  A violência, tema do livro, está no centro das discussões sobre o Brasil de hoje. O que você quer dizer com a expressão "cultura da violência"? Numa sociedade em que impera a cultura da violência, as pessoas resolvem seus conflitos aos murros, na facada, à bala. É isso que se vê em muitos filmes norte-americanos. A cultura da violência impera, por exemplo, nos desenhos animados que nossas crianças assistem. Neles, as agressões são ininterruptas e gratuitas; a morte é banalizada, vulgarizada. No Brasil, a violência se expande porque - entre várias outras causas - não temos um bom s

Em que classe de autor você se enquadra?

Também se pode dizer que há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros. . SCHONPENHAUER, Artur. A Arte de Escrever. Porto Alegre: L&PM, 2009. p. 57

O que é preciso para ser um bom poeta?

HenriquetaLisboa Vou resumir o que disse no capítulo “Formação do Poeta”, inserido em Vigília Poética : O poeta nasce com uma especial intuição; alimenta-se de sensibilidade; caminha pela imaginação; domina o sentimento; aperfeiçoa-se com o artesanato; joga com a inteligência; enriquece com a cultura; e atinge a maturidade através de uma peculiar concepção de vida. Assim, é de supor-se que, na formação do poeta, possuidor de graça intuitiva, se equilibram sensibilidade, imaginação e sentimento, a influxos de artesanato (consciência técnica profissional), inteligência, cultura e personalidade. STEEN, Edla Van. Viver e escrever: volume 3 . 2 ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2008. p.195.

O escritor e a sua participação política e social de seu país

Osman Lins Você acredita que o escritor deve participar da realidade política e social de seu país? E essa participação não criaria uma espécie de conflito para o escritor de ficção?  Na Idade Média, a arte estava estreitamente ligada a religião, porque a vida era essencialmente religiosa. Hoje vivemos uma época essencialmente política. Sempre digo que até o gesto de se colocar um selo num envelope é um gesto político. Logo, a arte, seja qual for, não pode se distanciar desse universo. Tem que estar impregnada dele e de suas preocupações. Para escrever, o escritor reflete sobre a realidade do mundo onde vive. Refletindo é compelido a lutar de algum modo. Creio que o conflito se estabelece quando esse modo deixa de ser uma escolha para se tornar uma ordem. STEEN, Edla Van. Viver e escrever: volume 3 . 2 ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2008. p.158.

Que é um conto? Um romance? Uma novela?

Marcos Rey Que é um conto? Um romance? Uma novela? Começarei pela novela, que é um conto grande e não um romance pequeno. Deixe-me falar aqui que é um dos meus gêneros prediletos e um dos menos exercidos não só no Brasil como no mundo. Há poucas obras-primas, como Morte em Veneza , nesse tipo de literatura. Comecei pela novela, ao publicar Um Gato no Triângulo , em 1953, e há mais novelas que contos em o Pêndulo da noite. No livro Soy Loco por ti, América , há uma novela, “A Enguia”, que considero um dos meus trabalhos de maior embalo. Mas a pergunta é o que é um conto, uma novela, um romance? Ora, o conto é um samba, rock, tango, fado ou bolero. A novela é um prelúdio ou rapsódia . O romance é um concerto ou sinfonia. Como o conto, a novela tem um único tema, a mesma linha melódica, e prende-se à descrição de fatos. O romance pode conter vários temas, em contraponto, e o autor dele participa livremente, comentando, discutindo o comportamento dos personagens e expondo suas

De pais e professores todas as crianças estão cheias

Orígenes Lessa Você tem alguma receita de escrever para jovens? Acredita que um autor precisa ser dotado de um talento específico para produzir bons textos infanto-juvenis? Acredito que sim, mas não sei qual será. Tenho impressão de que a primeira coisa deve ser o cara tirar a máscara professoral e paternalista. De pais e professores todas as crianças estão cheias, por mais que amem uns e outros. Sobretudo, não deve bancar “o mais velho”, sabedor e ensinador de coisas. Dos mais velhos geralmente os mais novos andam cheios também. Os mais velhos, mesmo ainda jovens, sempre se deram o luxo de desprezar as gerações que os precederam. Bobagem, é claro. Todos se esquecem de que infância e mocidade são acidentes passageiros, que o tempo rapidamente apaga. E que a vantagem não está em ser jovem (fenômeno comum a 80% da população mundial), mas em sobreviver e, consequentemente, envelhecer. (Você já viu que eu procuro puxar a sardinha para o meu lado...) Mas por essa fase e esse p

O poeta é relações íntimas

Mário Quintana Você se lembra de como ou quando descobriu que podia ou queria fazer versos?   Ser poeta não é uma maneira de escrever. É maneira de ser. O leitor de poesia é também um poeta. Para mim o poeta não é essa espécie saltitante que chamam de Relações Públicas. O poeta é Relações íntimas . Dele com o leitor. E não é o leitor que descobre o poeta, mas o poeta é que descobre o leitor, que o revela a si mesmo. STEEN, Edla Van. Viver & Escrever: volume 1 - 2 ed. Porto Alegre, RS: L&PM, 2008.

Uma pedra no meio do caminho

Muitos dos nossos melhores escritores, desde o início do século XX, passaram a empregar ter com esse sentido em várias de obras. O exemplo mais conhecido, pela polêmica que causou, foi a publicação, em 1930, do poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade (no livro Alguma poesia ), em que se repete diversas vezes as palavras “No meio do caminho tinha uma pedra” em diferentes ordens. Foi o suficiente, na época, para os defensores do purismo linguístico babarem de ódio e bombardearem o poeta com todo tipo de acusação grosseira. Em 1967, para marcar os quarenta anos da escrita do poema, o próprio Drummond reuniu o material publicado sobre ele no volume Uma pedra no meio do caminho – biografia de um poema . O gramático Napoleão Mendes de Almeida, por exemplo, se recusou, até morrer (em 1988), a dar o título de poeta a Drummond por causa desse imperdoável “pecado”. Hoje, Carlos Drummond de Andrade é reconhecido, internacionalmente, como um dos maiores poetas do século X

Poesia: crianças, conceitos, tendências e práticas

Léo Cunha Trata-se do fato de que a grande maioria dos livros de poesia premiados, tanto na FNLIJ quanto no Jabuti, apresentam, para além de suas qualidades literárias, ilustrações bem elaboradas e um acabamento sofisticado. Tal constatação tem um lado muito positivo, que é a consolidação de uma produção editorial cuidadosa. Mas há também um lado negativo, ou pelo menos preocupante: ao praticamente exigirem dos livros o acabamento impecável, as premiações sugerem a possibilidade de que muita poesia de qualidade esteja sendo desconsiderada. Afinal, os júris que premiam, as comissões que selecionam obras para programas governamentais, mas também professores, bibliotecários, pais, crianças, enfim qualquer um que se (dis)ponha a escolher um livro de poesia corre o risco de deixar de lado uma obra poética de qualidade, caso a produção editorial do livro não acompanhe essa mesma qualidade. Trata-se de mais um desafio a ser enfrentado pela literatura, e principalmente a poesia, infa

A simplicidade de um texto

Marcos Bagno      A simplicidade de um texto é fruto, sempre  — por mais paradoxal que isso possa parecer  —,   de um árduo trabalho de escrita, reescrita e re-escrita, e de muitos cortes e supressões de penduricalhos e coisas supostamente sofisticadas. Escrever é limpar o jardim, arrancar ervas daninhas, tirar pedregulhos do caminho, podar os arbustos e as moitas  —   só assim as flores podem se destacar e mostrar a beleza simples de que são feitas. BAGNO, Marcos. Não é errado falar assim! Em defesa do português brasileiro. São Paulo: Parábola Editorial, 2009. p. 87.

Procure motivar as palavras

À medida que avançamos na aprendizagem da escrita, é nosso dever procurar aperfeiçoá-la sempre, acrescentando aqui, cortando ali, até chegar ao texto, se não perfeito, pelo menos satisfatório aos nossos objetivos. Tudo começa com uma frase bem-feita, um parágrafo bem estruturado, que depois de escrito precisa de uma boa revisão para corrigir faltas ou excessos. Sem esse rigor, é impossível escrever bem. E uma das provas dos noves da escrita é ver se tudo o que escrevemos está bem amarrado (a coesão) e se as ideias se somam e nunca se contradizem (a coerência). Como saber que estamos no caminho certo? Para que seu texto seja bem construído, saiba que nenhuma palavra pode surgir do nada. Tudo o que escrevemos deve ser motivado por algo que foi enunciado antes. Uma palavra motiva outra, ou outras. É daí que nasce o bom encadeamento das frases e das ideias. Para isso, nossa atenção deve ser constante e redobrada. Uma palavra usada de forma gratuita pode fazer ruir todo o nosso

Carta para Marili

 Este texto de Graciliano não poderia ficar fora do marcador Jovem Autor , deste blog. Por isso, eu reproduzo aqui: Carta de Graciliano Ramos para a irmã Marili: duro e valioso conselho a quem escrever. Written by fluxoeditora Rio, 23 de novembro de 1949. Marili: mando-lhe alguns números do jornal que publicou o seu conto. Retardei a publicação: andei muito ocupado estive alguns dias de cama, a cabeça rebentada, sem poder ler. Quando me levantei, pedi a Ricardo que datilografasse a Mariana e dei-a ao Álvaro Lins. Não quis metê-la numa revista: essas revistinhas vagabundas inutilizam um principiante. Mariana saiu num suplemento que a recomenda. Veja a companhia. Há uns cretinos, mas há sujeitos importantes. Adiante. Aqui em casa gostaram muito do conto, foram excessivos. Não vou tão longe. Achei-o apresentável, mas, em vez de elogiá-lo, acho melhor exibir os defeitos dele. Julgo que você entrou num mau caminho. Expôs uma criatura simples, que lava roupa e faz rend