22 de abr de 2017

Qualquer um aprende a escrever


Eu me recordo das primeiras percepções que tive da vida e tentava pô-las para fora, fosse na oralidade ou na escrita. Mas a minha pobreza vocabular me impedia de colocar as palavras nos lugares certos.
Isso me incomodava, me constrangia. Me vi tateando no mundo das letras, das leituras da vida, que muitas vezes não foram fáceis.
O escritor nascia dentro de mim e eu nem me dava conta disso. Então, me veio às primeiras tentativas, pobres, mas veio e eu as consegui materializá-las. Muitas delas estão registradas em cadernos escolares.
Aquele menino que não sabia reescrever as suas sensações foi-se pouco a pouco se libertando nos cadernos, onde é possível observar a quantidade de matéria bruta neles contida esperando ser lapidada. Aí, quando me deparo com pessoas que ainda acredita e teima que escrever “é um dom”, percebo quanto é inútil essa espiritualização da escrita. São pessoas que não leram a epístola de Paulo aos Romanos, nem compreenderam a própria motivação da escrita, nem a função social que ela exerce sobre as pessoas.
Só os imaturos insistem nessa ideia e isso pode ser facilmente desmistificada por simples observações daquilo que se passa em nossas cabeças e fora dela. Você já parou para vigiar a si próprio? Já percebeu que a nossa cabeça estar sempre produzindo personagens e enredos, os mais variados possíveis?
Pois é!
As pessoas inventam os mais diversos enredos que a mente é capaz de produzir, que gostaríamos que se tornassem reais ou não, através dos sentidos e da percepção. O que falta em muita é a riqueza vocabular, a prática da leitura, a prática da escrita e a capacidade de expressar com precisão aquilo que se quer dizer.
Com esses elementos, criam-se as mais diversas personagens e determinadas situações possíveis. Sabemos que somos assim e o nosso mundo e o de fora nos povoa. Eu saio do mundo externo e fico comigo, eu e os personagens que às vezes não quero. Depois, saio de mim materializando enredos.
Na verdade, o que falta na maioria das pessoas é o domínio das palavras, a compreensão delas e a função social que exercem. Escrever é prática, é se reconhecer no outro e nos vários aspectos da vida. Qualquer um aprende a escrever. Agora, se terá vocação para ser escritor, é outra história. E nunca confundir vocação com graça divina.


© obvious: http://obviousmag.org/ronperlim/2017/qualquer-um-aprende-a-escrever.html#ixzz4ek2JprDf 
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18 de abr de 2017

Nunca deixer de ler

Gabriel Perissé e a cura da Literatura para tudo. Uma belíssima reflexão que você poderá assiste no vídeo que segue. Arrume um tempinho para ele. Aprender, como se diz, nunca é tarde.


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11 de abr de 2017

Como é feito um livro

Mirna Pinsky, neste vídeo, faz a seguinte pergunta: onde começa um livro?  Para saber qual é a resposta que ela tem para nos dar, assista ao vídeo. Você terá uma clareza maior de como se produz um livro nos nossos tempos e como eles surgiram. A narração de Mirna não é qualquer uma, pois, as ilustrações nela inseridas enriquecem e dar vida a história desse amigo inseparável de muitos, mas que deveriam ser de todos.

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31 de mar de 2017

Descortinado Luar

Jane Guimarães



Exuberante luar de mistérios,
encanto prateado, rainha da noite.
Senhora dos sonhos descortinados
germina poesia.


Lua desnuda reflete a beleza,
fulgurante brilho celestial incandescente.
Ressoam eternos murmúrios dos amantes.


Vale teu sono a noite inteira
e retorno de um amanhecer.
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23 de mar de 2017

O autor fala de sua obra: A menina das queimadas


Como nasceu A menina das queimadas

O livro A menina das queimadas nasceu das memórias de dona Zélia, minha sogra, recolhidas das muitas conversas que tive com ela. Apesar dos 80 anos, ela contava com extrema lucidez coisas da sua infância, adolescência e juventude. De tanto ouvir ela falar das coisas que marcaram a sua vida, resolvi recriar parte de suas memórias literariamente para elas sejam úteis para aqueles que abrem a cabeça e o coração. As histórias contadas no livro A menina das queimadas se passavam durante os anos 30 a 50. A época é distinta dos dias atuais, mas as histórias servem de reflexão para aqueles que queiram pousar nelas.

Do que falam essas histórias? 

As histórias falam do sistema precário de educação, de brincadeiras, sofrimento, do amor, desgraça, crenças, costumes, trabalho infantil e as dificuldades, os tabus que eram impostos na época. Elas não têm somente valor pessoal, mas sociológico e antropológico por se tratar de um retalho do país.

Até mais!
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11 de mar de 2017

A traíra grande

Antônio FJ Saracura


Era dia de pescaria na lagoa Saracura, da Terra Vermelha. As águas, finalmente, abaixaram, depois de três invernos fortes, chegando ao nível certo para uma pescaria de mão. A Saracura tinha suas águas cobertas de junco e por uma floresta de pés de cortiça. Qualquer pescaria dava muito trabalho, pois demandava a limpeza de trechos, sob pena de ninguém encontrar peixe nenhum, escondido nas raízes, troncos e ramagens, na água lamacenta. Mas numa situação como essa, de longa espera, com a perspectiva de muito peixe, sempre havia gente disposta a fazer a limpeza. Se bem que, nas pescarias, apenas a família tinha acesso à lagoa. Se fosse aberta, apareceria até gente das Candeias, da Onça e do Gado Bravo, povoados que nem eram mais de Itabaiana.
Os filhos do diabo ruivo, tio Ulisses, e de tia Iaiazinha, que morrera de parto há bem pouco tempo, ficaram a manhã inteira dentro da água, arrancando trechos de junco, matas de cortiça, preparando as cacimbas para a pescaria. E, enquanto limpavam, iam já pescando também.
A lagoa Saracura, quando estava cheia, ocupava áreas em três propriedades: em nosso sítio (chamado sítio Saracura), no sítio de Fausto de Seulia e no sítio de tio Ulisses, que depois foi vendido ao caraibeiro Manezinho de Rita, e hoje nem sei a quem pertence. Quando as águas abaixavam, a lagoa encolhia e se restringia apenas ao sítio Saracura, por ser uma depressão geográfica acentuada. As grandes traíras, os brilhantes jundiás e os encouraçados caborjes, todos estavam, agora, no nosso lado da lagoa. Os outros lados já haviam secado há dias. A colheita estava sendo no sítio Saracura, mas os peixes haviam sido criados também nos demais... nunca soube que os vizinhos tivessem exigido suas partes. Até esnobavam dizendo que nem gostavam de peixe.
Manoel, filho de Fausto de Seulia, era um caboclinho miúdo, feio que dava dó. Burlou a vigilância do pai, inimigo de papai a vida toda, e veio para o nosso lado. Era muito estranho ele estar ali naquele momento! Para ter benzido as cercas (eram duas cercas paralelas e juntas, uma feita por Fausto e outra por papai, em pirraça mútua), deveria ter um motivo forte, como a grande pescaria. E só se dispusera a vir porque talvez achasse, lá no seu íntimo, que os peixes da lagoa pertenciam também a seu pai, o que era verdade, pelo que eu disse acima.
E ele, Manoel, dentro da sua insignificância, assistia incógnito à azáfama dos pescadores — meus primos brancos — trazendo peixes pelas guelras e colocando-os em sacos e latas vazias de querosene Jacaré na beirada da lagoa. E depois, correndo de novo para água e retornando com mais e mais. Peixes eram zunidos da água e caiam na cama de junco seco, de onde alguém os recolhia e os guardava nas latas e nos sacos.
Manoel estava à margem, pertinho da água, observando a tudo, como hipnotizado. Ele queria uma traíra daquelas... Não por que achasse que tinha direito, mas porque gostaria de mostrá-la à mãe, dizendo que a pescara. Sentia, entretanto, que a lagoa era funda demais para ele. Poderia afogar-se. E permaneceu ali, ignorado por todos, vendo os pescadores encherem as vasilhas de peixes.
Algumas mulheres, meninos e pessoas de mais idade, à sombra de juremeiras, esperavam a vez de tratarem os peixes ou que se acabasse a lida, como se fossem a plateia da festa.
Uma traíra, a maior traíra da lagoa, de beiço virado, lombo preto de crocodilo, acossada talvez pelo entra e sai dos pescadores, voou para fora da água, ficando a se debater no junco seco, aos pés de Manoel. Surpreso, ele abriu a boca, sorriu, pisou com jeito no lombo grosso e abaixou-se. Desejava o peixe desde que iniciou a viagem solitária até a margem inimiga da lagoa, onde nunca estivera antes. Segurou-a firmemente pelas guelras e a levantou com suas mãozinhas, como se empunhando um troféu. Sentia-se premiado! Levaria para sua mãe, que certamente faria um pirão, e todos em casa comeriam fartamente.
Uma sombra densa cresceu atrás dele. Era Tino, o filho mais velho de tia Iaiazinha, que juntava os peixes que eram zunidos da água, querendo a traíra:
— Essa vai para a lata de Tio Zé! É a maior da lagoa. O dono do sítio tem todo o direito!
Manoel viu que perderia o que já tinha como seu. E começou a choramingar. Não iria mais para casa levando o troféu. O dono do sítio e da lagoa deveria realmente ter direitos especiais. Sentiu que não poderia evitar que Tino, um homem feito, sobrinho do dono da lagoa, lhe tomasse o peixe. Então chorou alto, gritando que o peixe era seu, pois pulara aos seus pés e fora ele quem o pegara.
Tino esticou o braço para tomar o peixe. E Manoel, mesmo o querendo muito para si, levantou suas mãozinhas para entregá-lo.
Papai, que estava perto e ouviu tudo, aproximou-se, demonstrando espanto:
— Quem pegou esse peixe tão grande?
E pousando a mão no ombrinho de Manoel, perguntou outra vez:
— Foi você, meu filho?
Tino tentava explicar que o peixe pulara da água, tangido talvez por algum dos pescadores. O moleque apenas se antecipara no trabalho de resgatá-lo.
Papai mandou Tino se calar e olhou para o pequeno Manoel, que continuava choramingando, ainda segurando (mas quase soltando) o grande peixe, e disse:
— O peixe é seu, Manoel. Eu vi tudo desde o começo. Pode levar para casa e dizer a sua mãe que foi você quem pegou.
Manoel olhou agradecido para papai e saiu correndo, com os passinhos miúdos, prejudicados por ter as mãos ocupadas, fazendo o mesmo caminho da vinda, contornando as águas da lagoa, que continuaram sendo coadas, na maior algazarra.
XXX
Sessenta anos depois, eu ia passando pelo mercado Thales Ferraz, em Aracaju, como faço quase toda semana. Ia comprar um quilo de castanha na banca de meu primo Narciso, filho de uma tia de mamãe, chamada Lozinha, do outro ramo da família, os Ferreiros da Matapoã. E, passando pela grade de farinha de Manoel de Fausto, hoje um homem idoso como eu, vi-o cochilando sobre a sacaria, escornado, roncando. Ainda bem que era uma hora morta, perto das duas da tarde, e sem fregueses.
Nunca tive muita ligação com os filhos de Fausto de Seulia (o inimigo de meu pai no povoado), mas Manoel sempre me tratou bem, sempre retribuiu minha frieza com uma incoerente alegria.
Fiquei olhando-o um tempo, assim dormindo, e fui tentado a mexer com esse simpático semidesconhecido. Joguei-lhe, compassadamente, de seus próprios sacos, caroços de milho, que o atingiram no peito desnudo, ricocheteando e escorregando para o seu colo. Daí a pouco, ele acordou e, ao me ver ali parado, abriu um largo sorriso. Levantou-se do leito improvisado e veio apertar minha mão, que nem lhe havia estendido ainda. Resolvi, então, fazer-lhe a pergunta que, secretamente, carreguei sempre comigo:
— Manoel, por que você demonstra tanta alegria quando me encontra? Eu mereço? Agora mesmo, em vez de um esbregue, recebo um cumprimento afetuoso!
Ao que ele respondeu contando a história da traíra, a que narrei acima. E acrescentou:
— Nunca esqueci o gesto de seu pai naquele dia, ou melhor, tenho seu pai e os Saracuras no meu coração. Nada marcou tanto a minha vida como aquela traíra, que é o peixe que mais gosto. No coco me dá mais prazer do que quebrar caranguejo na Atalaia ou chupar picolé de mangaba da Cinelândia... E continuou:
— Sempre tive vontade de contar a um de vocês essa história, mas nunca me deram oportunidade. Foi a primeira vez que um Saracura jogou-me carocinhos de milho...
Xxx
Os outros vendedores de cereais do grande mercado olhavam intrigados aqueles dois sexagenários abraçados ao pé de uma fileira de sacos abertos.

Sobre o autor
Nasceu no povoado Terra Vermelha, Itabaiana, em 06.07.1945, filho dos agricultores José Francisco de Jesus e Josefa Oliveira de Jesus. Começou os estudos nas escolas de dona Zinha (Terra Vermelha) e de Bernardete de Dona (Cajueiro). Concluiu o primário e fez o ginasial no Seminário e Colégio Diocesano de Aracaju. Fez o Científico no Atheneu Sergipense. Fez o curso superior na faculdade de Economia da UFS, Ciências Econômicas, formado em 1971.



Tem cursos de especialização na IBM, Abc-bull e várias entidades de ensino do País. Tem Pós graduação na Universidade do Distrito Federal, na Cândido Mendes, na UNIT, em Sistema de informação e Gestão de Imóveis.



Além de agricultor (na infância) e Analista de Sistemas (Petrobrás, Rhodia Química e Telergipe), exerceu outras atividades em sua vida profissional, que ainda continua efervescente: Repórter, Redator e Apresentador (jornal “A Cruzada” e Rádio Cultura de Sergipe), Serviços Gerais (Paes Mendonça), Auxiliar de Escritório, Programador de Computador, Analista de suporte técnico, Gerente de Informática, Corretor de Imóveis, Gestor de Imóveis e, atualmente, escritor e jornalista.



Publicou o livro “Os Tabaréus do Sítio Saracura”, em 2008, agora na quarta edição, restabelecendo os vínculos partidos com a atividade literária e com o sítio rústico onde nasceu.
Publicou depois: “Meninos que não Queriam ser Padres”, (em 20111, romance, na segunda edição), “Minha Querida Aracaju Aflita” (2011, crônicas premiado pela Secretaria de Cultura de Sergipe), “Tambores da Terra Vermelha” (contos,2013), “Os Ferreiros” (contos, 2015), além de uma dezena de cordéis. 
É membro da Academia Itabaianense de Letras (vice-presidente), do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, da Associação Sergipana de Imprensa, e da Academia Sergipana de Letras (Cadeira número 10),



É casado com Josefa Iracilda Pinheiro de Jesus, tem três filhos e três netos.




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