29 de mar de 2015

Para que tantos filhos?

Os filhos, os muitos que tivera e criara não lhe fazia uma visita, não davam um telefonema, nem um cartão para o vizinho ler para ele. Isso dilacerava o peito dele, largando-o ao abandono e a depressão. Sentado à mesa com a face entre as mãos, sentia as lágrimas rolaram; seguidas de um único soluço.
Muitos eram os pensamentos. Bastante as angústias. Turbado, indagava a si: “Onde foi, meu Deus, que errei? Que pecados cometi para ser castigado desse jeito? Se não fosse o meu vizinho, o que seria de mim? Para que tantos filhos?”
Essas indagações rondavam a cabeça dele e elas mexiam, remexiam o desgosto no mais profundo do peito. Para ele, não havia sentido algum viver.
No outro dia, o vizinho não o viu na cadeira, como era de costume. Mas achou que ele poderia estar dentro de casa, fazendo alguma coisa. A mesma cena se repetiu no dia seguinte. Desconfiado, chamou o filho e pediu que fosse ver se estava tudo bem com Pedro.
Sem retrucar, atendeu num instante o pedido do pai. Ao adentrou na casa de Pedro, não o viu na sala. Foi à cozinha e ele não estava. Ao ir ao escritório, avistou o corpo dele tombado.
Tirou o celular do bolso às pressas, discou 192. Enquanto a ambulância não vinha, percebeu que havia uma carta em uma das mãos. Nela, estava escrito: “Aquele que me encontrar, entregue esta carta a um dos meus filhos. Obrigado”.
Os filhos, quando souberam de sua morte, pediram que o vizinho tomasse conta do defunto. Dos seis, somente a mais velha apareceu. Em nome dos demais, agradeceu, pegou a carta deixada pelo defunto e nem deu importância ao que estava escrito. Estava de olho era nos bens do finado.
Só que ela foi surpreendida. O finado só havia deixado metade do que lhe pertencia e de menor valor. A outra foi destinada para instituições e o vizinho que cuidara dele, sem nunca o explorar, sem nunca pensar em seus bens.

Não demorou muito para ela riscar o carro na porta de Fernando, fez aquele escarcéu e saiu queimando pneu, dizendo impropérios, maldizendo céus e terra; jurando que iria metê-lo na cadeia por se aproveitar de um idoso.
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13 de mar de 2015

Pra que serve trabalhar tanto nesta vida


A cadeira rangia. Ela reclamava por conserto, deixando ele incomodado e mal-humorado. Dela, ouvia-se o último coaxar dos sapos vindos do quintal que dava numa lagoa.
Nisso, lembrou-se daquela criança que viveu vida dura nos canteiros, nos lotes de arroz e na pescaria. Percebeu que a sua migração para a cidade frustrou suas pespectivas de uma vida melhor.
Com a cabeça cheia, precisar sair. Ficar em casa só seria receber cobranças da mulher e dos fiadores. E para isso, ele não estava pronto.
Na rua, andava sem rumo; até se debruçar no cais de arrimo e dele observar um pé-de-matafome cheio de vagens verdes e avermelhadas pronto para pardais vindos de todas as partes.
Mas foi uma criança, às margens do rio, descalça, de short azul e sem camisa que chamou a sua atenção. Ela levava no ombro um jereré para pescar saburica em meio ao lodo, dejetos humanos, bolsas plásticas, garrafas descartáveis presas às orelhas-de-burro e caramujos em abundância nas partes rasas do Rio.
Aquela criança o fez lembrar de muitas coisas e pensar em outras que ele não desejaria. Saiu revoltado, foi ao bar de Lió, arrumou confusão por lá e voltou para casa, deitand-se no sofá.
No outro dia se levantou cedinho para pescar.
Ao retornar da pescaria, encontrou Alberto de cócoras jogando pedrinhas às margens do rio. Ancorou a canoa, aproximou-se dele, tocou-lhe o ombro e disse.
Algum problema, meu amigo? Tá todo desconsolado. O que foi?
Meu pai morreu!
Ô rapaz, que coisa. Meus sentimentos!
Essas foram as únicas palavras proferidas entre eles. E logo percebeu que o amigo precisava ficar só. Deu até logo e se foi carregando seus objetos de pesca. Na ida, enquanto subia os degraus do cais de arrimo, pensava na morte. Pensava porque sentia cansaço no corpo e na alma.
Ao chegou na porta de casa. Barão o recebeu com alegria pulando sobre ele. Artur simplesmente passou a mão sobre a cabeça dele e o acariciou. Entrou em casa.
No sofá, o filho do meio, pálido, não atentou para a chegada do pai. Estava entretido com uma revista. Não era só a revista que o entretinha; era a indiferença. Artur pôs o leme no quintal, jogou o saco que estava dentro do balaio no canto da parede e foi direto ao banheiro.
Enquanto a água fria tomava a forma do seu corpo, ele pensava na face de Alberto. Nunca vira o amigo tão abatido. A única coisa que podia fazer naquele momento era apoiá-lo. Vestiu-se, penteou o cabelo. Quando colocou os pés fora do batente, sua mulher o interpelou:
Já vai sair? Mal chegou da pescaria e já vai pra rua?
O pai de Alberto faleceu. Você não sabia?
Não, não tava sabendo, respondeu ela descabriada.
Ele tá lá na beira do Rio todo desconsolado. Vou lá dar uma mãozinha pra ele. Não sei que horas voltarei. E pare com essa mania de me censurar.
Ela calada estava, calada permaneceu; voltando-se para seus afazeres.
Alberto, com os olhos lagrimejantes, notou Artur se aproximar. Depois, lhe disse:
Prá que serve trabalhar tanto nesta vida. T’aí, meu pai; morreu e a gente nem o caixão tem pra enterrar ele. Eu e meus irmãos temos que pedir prós políticos, ficar devendo favor prá esse povo que só faz isso atrás do voto.
Sem ter o que dizer, Artur permaneceu ao lado do amigo silente, contemplando as águas serenas do Chico enquanto este se esvaziava. Ao perceber a fragilidade dele, pensava na maldade do mundo, sem compreender como alguém é capaz de se aproveitar de uma situação dolorosa como essa.
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26 de fev de 2015

Dicas de conteúdo para seu site

 Sidney Guerra trabalha com livros faz anos. Tem experiência na área e as dicas deixada por ele neste vídeo são úteis. Assista ao vídeo e veja o quanto é importante manter um website sobre o livro ou livros que você pretende publicar.


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9 de jan de 2015

Pra você

 
Eu poderia dizer todas as coisas do mundo, vasculhar os dicionários e neles selecionar todos os vocábulos para expressar os meus sentimentos.
Eu poderia materializar a minha alma, o que ela viu vê e pensa a seu respeito.
Ah, quantas coisas eu não poderia te dizer!
Falando ou calado, beijando ou sorrindo, caminhando ou parado.
Se eu pudesse pegaria um raio do sol todas as manhãs e te daria de presente para ele brilhar na sua presença e expandir a sua beleza. Gosto de você e não me escondo. Vejo-a com bons olhos e a respeito. Sua simplicidade toca o meu peito como címbalo.
Não me calo para você, não me revolto e nem a desprezo porque não a tenho...
Ontem a lua estava folclórica e sob os seus raios estava a minha compreensão (uma fase do amor).
Não sei o que pensará a esse respeito. Se a flecha grega trespassou o coração para outra face, é uma pena! É um lamento nos ossos.
Quando alguém me pergunta se eu ando apaixonado, eu rio no canto da boca, proíbo a minha alma com psiu e me calo para o amor. Faço isso porque não sei como anda a minha esperança, pois, ela depende de você.
Por tudo isso não me negue o riso, o diálogo, a mão macia.
Não me prive de olhar de perto o teu rosto branco, belo nas veias da bomba.
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Outros olhos


*Eu vi dentro dos meus olhos outros olhos. Eles estavam lacrimejados.
Aqueles olhos tinham neblina e estavam fatigados dos dias.
Aquela carne se mostrou frágil perante mim.
O meu espírito não se conteve. A minha face transfigurou-se em formas geométricas e vi o quanto a vida é dura para os que vivem nesse mundo a espera de um ouvido.
Queria um ouvido, mas as pessoas a sua volta não queriam emprestá-lo.
Antes abriam a boca para a peçonha das palavras.
E depois caem fora.




* Ronaldo Pereira, 051103. PORTO LITERÁRIO, ANO II – N.º 56 – DE 23 OUTUBRO/ 2003.

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