18 de jun de 2017

Isso não é um filme americano

Lourenço Cazarré
Nesta entrevista, que se encontra no final do livro Isso não é um filme americano, Lourenço Cazarré aborda males da sociedade brasileira que estão bem enraizados e que veio com toda a força nestes últimos dias. Males como a cultura da violência, desemprego, interferência da mídia na vida dos cidadãos e o desejo de vingança. O autor fala um pouco desses temas na entrevista que segue: 

A violência, tema do livro, está no centro das discussões sobre o Brasil de hoje. O que você quer dizer com a expressão "cultura da violência"?


Numa sociedade em que impera a cultura da violência, as pessoas resolvem seus conflitos aos murros, na facada, à bala. É isso que se vê em muitos filmes norte-americanos. A cultura da violência impera, por exemplo, nos desenhos animados que nossas crianças assistem. Neles, as agressões são ininterruptas e gratuitas; a morte é banalizada, vulgarizada. No Brasil, a violência se expande porque - entre várias outras causas - não temos um bom sistema  judiciário, nem uma política eficiente. Acho que já ultrapassamos, há muito, o limite do suportável. existe hoje, entre os brasileiros, a consciência de que estamos vivendo uma verdadeira guerra civil, com milhares de mortos por ano. A formação desta consciência pode ser o primeiro para a diminuição do problema. A sociedade precisa se organizar para exigir dos administradores públicos que enfrentem as muitas causas da violência.

Existe um personagem do livro, o policial Fujiwara, que acha que os criminosos deveriam ser executados. Você pensa que a pena de morte é uma solução para o problema da criminalidade?

Tenho uns trinta argumentos contra a pena de morte. Fico aqui com apenas quatro: a vida humana é um valor que tem de ser preservado sempre; temos os inevitáveis erros judiciários, que condenarão inocentes; a pena de morte é uma vingança do Estado contra um homem que cometeu um crime, e com vingança não se faz justiça; finalmente, está provado que pena de morte não reduz a criminalidade.
Mas, quando criei Fujuwara, não levei minhas idéias em conta. Como milhões de brasileiros acuados pela violência, ele acha que matar bandidos é uma solução.

Outro tema abordado no seu livro é o papel dos meios de comunicação na sociedade moderna. A atuação da imprensa é decisiva na história. Como você acha que a mídia interfere na vida das pessoas?

A imprensa interfere, o tempo todo, na nossa vida. No carro, ouvimos rádio. Em casa, vemos tevê. No trabalho, olhamos a internet. Nas bancas, centenas de revistas nos dizem o que devemos comer e vestir e até o tipo de ginástica que temos de praticar. A vida moderna, superagitada, enfraqueceu os nossos laços de família e com os amigos. Pouco falamos de nossas vidas, acabamos discutindo mais os personagens de telenovela. Ora, como é praticamente impossível escapar dessa influência sufocante, devemos tentar escolher os melhores veículos. Se pudesse indicar um remédio para reduzir esse mal, eu diria: leiam livros, leiam os grandes mestres da literatura.

CAZARRÉ, Lourenço. Isso não é um filme americano.  São Paulo: Ática, 2002.
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13 de jun de 2017

Não sei o que fazer do que vivi

Clarice Lispector
"Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não saber como viver, vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização, e teria a segurança de me aventurar, porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. A isso prefiro chamar desorganização pois não quero me confirmar no que vivi - na confirmação de mim eu perderia o mundo como eu o tinha, e sei que não tenho capacidade para outro". 

Lispctor, Clarice. Paixão Segundo G.H, Record.
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21 de mai de 2017

Em que classe de autor você se enquadra?


Também se pode dizer que há três tipos de autores: em primeiro lugar, aqueles que escrevem sem pensar. Escrevem a partir da memória, de reminiscências, ou diretamente a partir de livros alheios. Essa classe é a mais numerosa. Em segundo lugar, há os que pensam enquanto escrevem. Eles pensam justamente para escrever. São bastante numerosos. Em terceiro lugar, há os que pensaram antes de se pôr a escrever. Escrevem apenas porque pensaram. São raros.
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SCHONPENHAUER, Artur. A Arte de Escrever. Porto Alegre: L&PM, 2009. p. 57
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13 de mai de 2017

Projeto Arte da Palavra

Oscar Nakasato e Ron Perlim
Estive na Uneal (Universadidade Estadual de Alagoas), em Arapiraca. Participei do projeto Arte da Palavra – Rede Sesc de Leituras, Circuito de Autores com Oscar Nakasato (PR) e Manto Costa (RJ) para uma roda de conversas.

Oscar Nakasato trouxe o tema da imigração japonesa em seu livro Nihonjin, premiado pelo Jabuti de 2012.

Manto Costa em seu livro de contos Circo de Pulgas, vencedor do Edital da Biblioteca Nacional, trouxe a questão do negro na literatura e a sua invisibilidade.

No decorrer da palestra muitas indagações foram feitas, os temas se entrelaçaram por alguns instantes, predominando o papel do negro na sociedade, as várias formas de preconceitos os quais estão submetidos.
Manto Costa e Ron Perlim

A cultura japonesa, representada por Nakasato ficou de lado, não por preconceito; mas pela intensidade e a presença do debate que a questão afrodescendente suscitou.









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1 de mai de 2017

Os especialistas em suicídio



Tenho lido com certo desconforto “especialistas” que aparecem nas redes criticando de forma agressiva e desumana pessoas que cometeram suicídio ou estão depressivas.

Pessoas que se comportam dessa forma são insensíveis, tolas, prepotentes. Não desenvolveram a empatia, nem fizeram leituras aprofundadas dessa melancólica condição humana.

Ninguém é um suicida de um dia para o outro. Tudo tem uma origem, um meio e um fim. As causas que levam uma pessoa ao suicídio são complexas, envolvem muitos aspectos da história psicossocial dela.

Quando você ouvir ou ler coisas depreciativas tratando desse assunto, não seja um ventríloquo, nem dê importância para elas. O melhor caminho é compreender. E só se compreende estudando, perguntando a quem de fato se dedica ao tema, tem anos de experiência.

Procure se livrar, também, da espiritualização vista como castigo divino ou maldição para os radicais. Depressão, suicídio são males da alma relacionado a fatores externos e para alguns, deficiência química.

Eu, que não sou especialista, nem me atrevo a ser nas redes; li a Teoria da Inteligência Multifocal do Dr. Augusto Cury e ampliei o meu entendimento sobre o suicida. As pessoas que se acham, que se sentem uma fortaleza, que vociferam sobre isso; deveriam pousar suas línguas, seus pensamentos. Refletir sempre é bom para a alma e o corpo.

Não seja mais um na seara da tolice, da intolerância na busca fremente para ser visto. Pense que o outro a ser criticado, violentado pode ser você outro dia. 

Se pensarmos na vida como um intervalo de tempo, veremos que não há nada mais tosco, atrasado e doentio que cultivar a indiferença, o desdém, o ódio.

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22 de abr de 2017

Qualquer um aprende a escrever


Eu me recordo das primeiras percepções que tive da vida e tentava pô-las para fora, fosse na oralidade ou na escrita. Mas a minha pobreza vocabular me impedia de colocar as palavras nos lugares certos.
Isso me incomodava, me constrangia. Me vi tateando no mundo das letras, das leituras da vida, que muitas vezes não foram fáceis.
O escritor nascia dentro de mim e eu nem me dava conta disso. Então, me veio às primeiras tentativas, pobres, mas veio e eu as consegui materializá-las. Muitas delas estão registradas em cadernos escolares.
Aquele menino que não sabia reescrever as suas sensações foi-se pouco a pouco se libertando nos cadernos, onde é possível observar a quantidade de matéria bruta neles contida esperando ser lapidada. Aí, quando me deparo com pessoas que ainda acredita e teima que escrever “é um dom”, percebo quanto é inútil essa espiritualização da escrita. São pessoas que não leram a epístola de Paulo aos Romanos, nem compreenderam a própria motivação da escrita, nem a função social que ela exerce sobre as pessoas.
Só os imaturos insistem nessa ideia e isso pode ser facilmente desmistificada por simples observações daquilo que se passa em nossas cabeças e fora dela. Você já parou para vigiar a si próprio? Já percebeu que a nossa cabeça estar sempre produzindo personagens e enredos, os mais variados possíveis?
Pois é!
As pessoas inventam os mais diversos enredos que a mente é capaz de produzir, que gostaríamos que se tornassem reais ou não, através dos sentidos e da percepção. O que falta em muita é a riqueza vocabular, a prática da leitura, a prática da escrita e a capacidade de expressar com precisão aquilo que se quer dizer.
Com esses elementos, criam-se as mais diversas personagens e determinadas situações possíveis. Sabemos que somos assim e o nosso mundo e o de fora nos povoa. Eu saio do mundo externo e fico comigo, eu e os personagens que às vezes não quero. Depois, saio de mim materializando enredos.
Na verdade, o que falta na maioria das pessoas é o domínio das palavras, a compreensão delas e a função social que exercem. Escrever é prática, é se reconhecer no outro e nos vários aspectos da vida. Qualquer um aprende a escrever. Agora, se terá vocação para ser escritor, é outra história. E nunca confundir vocação com graça divina.


© obvious: http://obviousmag.org/ronperlim/2017/qualquer-um-aprende-a-escrever.html#ixzz4ek2JprDf 
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