12/09/2014

Lilu
Keinha mora numa casa simples e modesta. Ela é dona de Kika, Lilu e Tininha.Tininha é a sua primogênita. Tem pelo branco com tons pretos intensificados na ponta da cauda. Lilu é um poodle que adora pão com queijo. Kika é paciente, dengosa e remelenta.
Keinha não esconde que Tina é seu xodó, apesar de saber que ela é uma gata ranzinza. Mesmo assim, vive lhe dando dengo, conversando sempre com ela. Costuma pegá-la no colo e aperta-la com carinho. Keinha não se importa de ficar com a roupa cheia de pelos, nem a pele. Quando Tina se posiciona como uma deusa egípcia, Keinha fica admirada observando aqueles olhos azuis e amendoados.
Lilu, que de besta não tem nada, saltou no colo dela e resolveu disputar o quinhão de amor que lhe pertencia, enchendo-a de lambidas nas bochechas e orelhas. Tina não gostou disso. Ronronou para ele e, no colo dela, estava feita a velha e milenar intriga do gato e do cachorro. Latido de um lado, ronronar do outro. Tina saltou do braço do sofá e foi para a cozinha. Lilu saiu latino. Depois voltou e ficou esparramado no meio da casa com a língua de fora como se estivesse rindo dela.
Para roubar a atenção de Keinha, ele correu para dentro do quarto, pegou a meia que estava no tênis e saiu correndo pela casa e a colocou no tapete que fica debaixo da cadeira de balanço. Quando ela tentou pegar dele a meia, ele saiu correndo pela casa dando drible nela. Corria de um lado e de outro, até se cansar. Cansado, ele largou a meia no meio da casa.  
Não demorou muito. Estavam juntas Kika e Tina. Tina esparramou-se no meio do corredor e cochilava. Lilu se aproximou dela e a incomodava com seus latidos estridentes. Ela se acorda e caminha numa postura de tigresa, mas atenta aos movimentos dele. Quando menos se espera, ouve-se: caiiiin.... caiiin.... caiiiin....

Keinha saiu alvoroçada da cozinha, pegou Lilu no colo, acariciou ele e se voltou para Tina dizendo: Menina, não pode fazer isso com seu irmãzinho não! Tina, desconfiada, olha para ela com seus olhos azuis, entra no quarto, se deita na cama, lambe-se e cochila. 

26/07/2014


Hoje eu ri. Mas a noite não é minha.
Foi dela.

Quando a vi, meu corpo de gás se inquietou. Teria tantas coisas para dizer a ela. A voz, no entanto, se embargou. Sem solução, chupei acerola e procurei nas sementes um sabor para mim.

03.06.99

11/06/2014

“Por que meu Deus, eu tenho que sofrer tanto assim nessa vida? Fui um bom filho. Sempre cumpri com os afazeres que o meu pai mandava e minha mãe. Por que hoje passo por tanto aperto? Sou um homem já idoso. O cansaço tá comigo e não me larga. Não tenho prazer nenhum na vida. Será que tô pagando pelos meus pecados, sofrendo e gastando o resto dos meus dias num barquinho; pegando uma bobagem aqui outro ali, sol, chuva, chuva, sol pra vê se eu arrumo um bocado e uns trocados? Não tenho nenhuma aposentadura. Se não fosse a ajuda do Governo e dos meus filhos que faz um bico aqui outro ali o que seria de mim? O que ganhei nesta vida? Só doença. Só fiz trabalhar feito um condenado. Pra quê? Não sei mais olhar pra os meus filhos. Nunca dei nada a eles, além de sofrimento e apertos. A minha mulher anda me rejeitando. Só anda com a cara feia. Quando eu vou querer um negocinho com ela, ela me dá às costas. Será que ela tá me traindo?”.

Esses conflitos perturbavam Marlon. Sem olhar para a mulher, pegou o boné e saiu. Para piorar a situação, encontrou Cícero na rua e aceitou o convite deste para ir ao Bar do Primeiro Gole. Por lá conheceu outras histórias iguais ou semelhantes as suas e se acostumou aquele ambiente. Não havia um dia sequer que não chegasse cheirando a pinga. E, o negocinho que ele tanto queria, não teve mais como reclamá-lo. Teria que se contentar com a masturbação.

Vencido, percebeu que nada era como antes. Cabisbaixo, pôs os pés fora do batente, reviu amigos, foi ao bar e gastou todo o dinheiro do aluguel que furtou. Passou a manhã e tarde nesta vida. Ao por do sol, resolveu se banhar no rio São Francisco. 

Ao mergulhar, ouvia uma voz serena e suave chamar por seu nome. Sem perceber a correnteza, ele foi à procura dela e afogou-se numa panela d’água. O corpo nunca foi encontrado. 

24/05/2014

Tudo se iniciou no Bar da Galega. Cátia e Frederico escutavam sertanejo por lá. Riam, beijavam-se e bebiam. Sandro entrou, observou as pessoas, cumprimentou alguns conhecidos e olhou de soslaio para ela. Frederico não gostou do modo como eles se olharam. Amarrou a cara na mesa e bebia com ímpeto.

Passados alguns minutos, ele chamou Cátia de safada, vagabunda e deu um tapa na face dela. Sandro, sem saber os motivos, foi desapartar a briga. Raivoso, Frederico o empurrou, acusando-o de fretar com a mulher dele. Sandro perguntou se ele estava louco, discutiram e os fregueses do bar desapartaram eles. Nisso, Cátia saiu em lágrimas. Inconformado, Frederico foi atrás dela, dizendo:

— Prá onde você vai, sua cachorra. Quando chegar em casa, você me paga. Vagabunda. Só vive dando ousadia a todo mundo que ver pela frente. De hoje não passa. Você me paga.

Ele conseguiu alcançá-la. Pegou-a pelos cabelos, deu-lhe umas bofetadas e saiu rua a cima. Tinha gente que fingia não ver, outras se revoltavam; mas não faziam nada.

Ao chegarem em casa, ele não a poupou. Deu-lhe socos e pontapés, deixando-a indefesa no chão. Possuído pela cólera, foi a cozinha, pegou o facão e desferiu vários golpes sobre ela, dizendo:
— Já faz um tempo que eu vinha olhando para seus pés. Quer me fazer de besta? Você agora vai me trair no inferno, sua vadia.

Morta a vítima, precisava esconder o cadáver. Foi ao quintal, fez uma cova rasa e jogou o corpo nela. Feito isso, tomou banho, mudou de roupa, pegou dinheiro que costumava guardar para esse fim e pensou: “Não vou ser pego por assassinar aquela cachorra”. Quando pôs os pés fora do batente, deu-se de cara com a polícia de arma em punho pedindo para ele não reagir.




17/05/2014

Ela estava sentada no batente da porta. Face voltada para a calçada e entre os dedos o cigarro.
O cigarro, quando posto entre os lábios, estremecia. Nela havia uma solidão e o seu mundo estava desarranjado. A mente muitas coisas fazia, participava no cubículo do seu ser.
Passavam-se as horas.
Passavam pessoas. Só não passava aquela angústia, aquela dor, a última que alguém pode sentir nesta vida.
Só o cricrilar fazia-se presente no fechar e abrir dos dias.
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