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30 de out. de 2019

Quem eram os tipógrafos

A arte da impressão envolvia uma série de conhecimentos diferentes: mecânica para as prensas, fundição para as ligas, fabricação de papéis, formulação das tintas, técnicas de encadernação, conhecimento de diagramação, arte, além de muita cultura, conhecimento de outras línguas e escritas. Por tudo isso, os impressores, calígrafos e escribas era pessoas muito especiais e de grande importância na sociedade europeia. Constituíam uma elite de intelectuais que trabalhavam com as tecnologias mais modernas da época e não paravam de inventar máquinas, materiais e processos de fabricação. Mas também eram mestres da estética, pois o desenho das letras exige vastos conhecimentos de arte, desenho, geometria e estética. Para finalizar, nossos heróis eram pessoas de grande cultura, pois falavam, escreviam e criavam letras em várias línguas e escritas, não raro idiomas extintos. Por tudo isso, muitas vezes até as leis eram “adulteradas” em benefício dos artistas da letra.
A história de Francesco Griffo é um exemplo da importância dos tipógrafos na sociedade renascentista. Conta-se que Griffo desapareceu de circulação após ter matado seu genro em uma discussão familiar. Se a lei fosse aplicada, Griffo teria sido condenado à forca, por assassinado. Mas inexplicavelmente depois do sumiço de Griffo, muitas das fontes desenhadas por ele continuaram a aparecer no mercado. Uma das versões contadas é que, pela sua importância, Griffo não foi condenado à forca. Diz-se que seu nome foi mudado e ele continuou a viver na mesma casa, trabalhando em paz por muitos e muitos anos. Mas trabalhando em quê? Griffo, grifo, grifado. Pelo nome já deu para ver que a letra grifada ou itálica foi inventada por ele. Ou letra cursiva – cursiv, como chamam os alemães. Grifo não só inventou as primeiras letras itálicas como também entalhou os primeiros tipos itálicos desenhados por Aldus Manutius que, juntamente com Ludovico degli Arrighi da Vicenza (Vicentino), formavam o trio de mestres que lançaram as itálicas mais conhecidas.

HORCADES, Carlos M. A Evolução da Escrita: História ilustrada. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora Senac Rio, 2007. pp. 56-57.
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22 de out. de 2019

Velas Náufragas

Diego Mendes Sousa
A obra "Velas náufragas" (Editora Penalux, 2019) de Diego Mendes Sousa é um epilírico dividida em duas partes: "Alma litorânea" e "Coração costeiro". Herdeira da "Mensagem" do poeta português Fernando Pessoa, "Velas náufragas" é uma arrebatada devoção ao mar e à natureza. A poesia de Diego Mendes Sousa é
vertical e instaura as palavras com a força do sentimento, que guarda também a memória e a infância. O poeta piauiense canta a terra natal, Parnaíba, santuário do Delta do Rio Parnaíba, e inventa um universo paralelo chamado Altaíba, com "seres aladinos", como quer a magia e o testamento desse notável poeta. Extremamente simbólica e barroca, apesar de os versos serem livres, brancos e em desordem aparente, a poesia crescida na visão peculiar de Diego Mendes Sousa ressucita a metáfora do tempo e a profusão dos sonhos, pois os seus versos são doídos e são anímicos. São também sonoros e imagéticos. Poesia cuja grandeza está na universalidade de ser telúrica e espantosamente inovadora. Os cantos e as líricas de "Velas náufragas" tomam, de imediato, o seu leitor de assalto, porque a sua linguagem é de raiz, provocante, bela e inusitada; pura invenção interior e espelho de uma alma que "possui terra dentro", como ressalta o Imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), Carlos Nejar, na leitura de contracapa do livro "Velas náufragas".

Deguste devargazinho este poema do Diego como se estive às margens do algum rio ou n'alguma praia:

Ser Dor Mar
Cosmonave de um coração costeiro
que navega na preamar da dor
na maré do amor
no mar do ser
meu alterego
a dor-mar
a domar
os sargaços
de um sal salgado
de um sol solstício
de uma lua lunática
que passa na alma
de enseada
Meu coração aberto
nas praias do sonho
litoral de aberturas
ao mundo

SOUSA, Diego Mendes. "Ser dor mar". In:_____. "Opus II: Coração Costeiro". In:_____. Velas náufragas. Guaratinguetá, SP.: Penalux, 2019.

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6 de abr. de 2019

Cuide dos pais antes que seja tarde

Carpinejar

Não quero mais ter razão na vida, só quero ter amor.
Eu teimava com meus pais, adorava ganhar uma discussão deles, me vangloriava de ser moderno, transgressor e rebelde, plantava sempre assuntos polêmicos como pena de morte e aborto nas rodas de almoço e jantar, táticas para denunciar o conservadorismo dos dois. Batia a porta, fechava a cara, gritava com um sindicalista lutando por melhores condições dentro de casa. E eles pediam que eu tivesse calma, que não faltasse com a educação, que não levantasse da mesa sem terminar a refeição, pois não adiantava reclamar da injustiça do mundo se não limpava o meu prato.
No fundo, eles me aceitavam do jeito que era, eu que jamais os aceitei como eles eram. Eu era o intransigente. Possuído pelos argumentos, não percebia um detalhe esclarecedor: se eu podia pensar diferente era porque meus pais me deram liberdade. Eles me permitiram crescer com os meus ideais. Por que não tolero as suas convicções distintas?
Perdi muito tempo pela vaidade das ideias. Perdi muito tempo do afeto paterno e materno. O que importa é estar junto para o que der e vier. Família não é para concordar, mas para apoiar qualquer que seja o caminho adotado.
Fui descobrindo que não estava sendo um bom filho. Até em um bom pai, um bom marido, um bom amigo, mas filho, não. Deixava os meus pais por último para telefonar e visitar. Eles podiam esperar. Será?
Acreditamos que os pais são eternos, imutáveis, que estarão próximos quando surgir a necessidade. Mas eles adoecem e morrem. É uma fatalidade inevitável, não há como parar a idade, recuar o fim.
Se é certo que os pais um dia vão adoecer e partir, por que não organizamos a nossa vida para acolhê-los? Por que não assumimos sua gestação? Por que não reduzimos o ritmo da carreira para darmos sentido para os seus últimos dias?
Não há como subornar o limite físico, mas é possível mudar o limite psicológico e sentimental. Pois há filhos que abortam seus pais dentro do coração, e os enterram precocemente, antes mesmo do velório. Abandonam os pais no asilo. Largam os pais para a temeridade violenta da solidão.
Fundamos a cumplicidade com os pais por um equívoco: a necessidade. Não deveríamos procurá-los só quando precisamos. É transformar o amor em interesse, é converter a ternura em assistencialismo. São os nossos infinitos provedores financeiros e emocionais, nosso SOS, nossa ligação direta com o céu. Jamais invertemos a perspectiva e trocamos de lugar: o que eles desejam?
Filhos demoram para a empatia. Caminhamos com um ano, falamos com até dois anos, levamos décadas para avançar na generosidade.
Meus pais foram envelhecendo, foram se fragilizando, foram precisando mais de mim. E como não precisava tanto deles, ocupado com o meu trabalho e as minhas relações, tornei-me ausente. Um ausente egoísta, que empurrava os problemas para os irmãos e não pretendia se incomodar com a velhice e a saúde dos meus guardiões.
Saudade que não é praticada vira ressentimento. Palavra que não é dita se isola em orgulho. Hoje eu vejo o tamanho do meu despreparo.
(…)
CARPINEJAR, Fabrício. Cuide dos pais antes que seja tarde.10ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2018.pp. 5-8. 
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11 de mar. de 2019

Pássaros do entardecer


Hoje estive com Saracura, da Academia Sergipana de Letras, para discutirmos sobre o seu novo livro, "Pássaros do Entardecer" (título provisório). Um cheio de belas histórias dos migrantes itabaianenses, simbolizado pelo "caixão de Europas". Uma leitura humorada e ao mesmo tempo, séria. Recomendo!

Saracura e a família Marron

Revendo trechos do livro "Pássaros do Entardecer".
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26 de jun. de 2018

A maior tragédia do homem moderno

Paulo Freire


Uma das grandes, se não a maior, tragédia do homem moderno, está em que é hoje dominado pela força dos mitos e comandado pela publicidade organizada, ideológica ou não, e por isso vem renunciando cada vez, sem o saber, à sua capacidade de decidir. Vem sendo expulso da órbita das decisões. As tarefas de seu tempo não são captadas pelo homem simples, mas a ele apresentadas por uma “elite” que as interpreta e lhas entrega em forma de receita, de prescrição a ser seguida. E, quando julga que se salva seguindo as prescrições, afoga-se no anonimato nivelador da massificação, sem esperança e sem fé, domesticado e acomodado: já não é sujeito. Rebaixa-se a puro objeto.



FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade, pág. 51. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 2000.

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2 de mai. de 2018

Duvide. Critique. Determine.


Todo ser humano (...) deveria aprender a fazer higiene mental tal como faz a higiene bucal. Como? Todos os dias, em silêncio mental, deveria aplicar a técnica DCD (Duvidar, Criticar e Determinar).

Deveria duvidar de tudo que o controla, pois aquilo em que crê a controla. Duvidar do controle do medo, da autopunição, do sentimento de incapacidade, de não dar conta de tanta responsabilidade, de que seus filhos não desenvolverão uma personalidade saudável. Deveria ainda, criticar sua baixa autoestima, sua fragilidade, seus pensamentos asfixiantes, o conformismo e as falsas crenças. Deveria também, para completar a técnica DCD, decidir a cada momento ser livre, seguro, leve, relaxado, gestor de sua mente.

A técnica DCD pode ser feita espontaneamente todos os dias, por três ou quatro minutos a cada vez. O ideal é que seja realizada antes de sair de casa e logo ao deitar na cama. Iniciar e finalizar o dia com higiene mental relaxa, acalma, debela nossos predadores mentais, reedita nossa história.

Se todos os dias as crianças, os jovens e os adultos em todas as nações fizessem essa técnica disciplinadamente, evitaríamos centenas de milhares de suicídios e milhões de outros transtornos emocionais por ano. A técnica DCD é revolucionária.


Fonte: CURY, Augusto. 20 regras de ouro para educar filhos e alunos: como formar mentes brilhantes na era da ansiedade. 1 ed. São Paulo: Planeta, 2017. pp. 160-161. 
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14 de abr. de 2018

Fonte original de saber

"Cada ser humano é um eixo de interações de ensinar-aprender. Assim, qualquer que seja, cada pessoa é em si mesma uma fonte original de saber e de sensibilidade. Em cada momento de nossas vidas estamos sempre ensinando algo a quem nos ensina e estamos aprendendo alguma coisa junto a quem ensinamos algo. Ao interagir com ela própria, com a vida e o mundo e, mais ainda, com círculos de outros atores culturais de seus círculos de vida, cada pessoa aprende e reaprende. E, assim, cada mulher ou homem é um sujeito social de um modo ou de outro culturalmente socializado e é, portanto, uma experiência de sua própria cultura.
SILVA, René Marc da Costa. Cultura Popular e Educação: Salto para o Futuro. Tv Escola. SEED. MEC. Brasília, 2008. p. 33
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30 de nov. de 2017

Livro O povo das águas


Vá ao site da Editora Penalux. Baixe o primeiro capítulo do livro O povo das águas (amostra grátis) e conheça o mundo fantástico dos mitos e lendas do São Francisco. Saiba como eles se mobilizaram em defesa do Velho Chico. Você adentrará numa história nunca contada!
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9 de out. de 2017

Eles eram muito cavalos

Luiz Ruffato
No seu primeiro romance “Eles Eram Muito Cavalos”, você de alguma forma tentou trazer para o público, uma São Paulo que muitos não querem ver ou sua intenção quando escrevia a obra era outra?

São Paulo é o sexto maior aglomerado urbano do planeta, com cerca de 20 milhões de habitantes. Uma metrópole onde a segunda maior frota de helicópteros particulares do mundo sobrevoa ônibus, trens e metrôs que desovam trabalhadores em estações superlotadas; traficantes ricos instalados em suas mansões leem nos jornais notícias sobre traficantes pobres perseguidos pela polícia corrupta e violenta; políticos roubam a nível municipal, estadual e federal; as vitrines dos restaurantes chiques refletem os esfomeados, os esfarrapados; rios apodrecem em esgoto, lama, veneno; favelas enlaçam prédios futuristas; universidades de excelência alimentam a próxima elite política e econômica, enquanto na periferia, escolas com professores mal remunerados, mal formados e mal protegidos geram os novos assalariados; a mais avançada tecnologia médica da América Latina assiste, impassível, à fila dos condenados à morte: homens vítimas da violência, mulheres vítimas de complicações do parto, homens e mulheres vítimas da tuberculose, crianças vítimas da diarreia; muros escondem a vida miúda que escorre lá fora. Como transpor o caos dessa cidade para as páginas de um livro? Penso que o ficcionista deveria ser assim uma espécie de físico que ausculta a Natureza para tentar compreender o mecanismo de funcionamento do Universo.
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5 de set. de 2017

A escrita exige uma entrega sem fissuras

Paul Auster


“Às vezes me pergunto por que passei a vida trancado em um quarto escrevendo quando do lado de fora o mundo está cheio de possibilidades. A escrita exige uma entrega sem fissuras, abrir-se a todas as formas possíveis de dor, de alegria, a todas as emoções que é possível sentir. Fazer isso bem requer coragem moral. Nenhuma outra profissão exige que a pessoa entregue o ser, a alma, o coração e a cabeça sem saber se haverá uma recompensa no final”.


AUSTER, Paul.Não sei se tenho forças para escrever outro romance. https://brasil.elpais.com/brasil/2017/08/29/cultura/1504021967_363735.html. Acesso em 05/09/2017.
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18 de jun. de 2017

Isso não é um filme americano


Nesta entrevista, que se encontra no final do livro Isso não é um filme americano, Lourenço Cazarré aborda males da sociedade brasileira que estão bem enraizados e que veio com toda a força nestes últimos dias. Males como a cultura da violência, desemprego, interferência da mídia na vida dos cidadãos e o desejo de vingança. O autor fala um pouco desses temas na entrevista que segue: 

A violência, tema do livro, está no centro das discussões sobre o Brasil de hoje. O que você quer dizer com a expressão "cultura da violência"?


Numa sociedade em que impera a cultura da violência, as pessoas resolvem seus conflitos aos murros, na facada, à bala. É isso que se vê em muitos filmes norte-americanos. A cultura da violência impera, por exemplo, nos desenhos animados que nossas crianças assistem. Neles, as agressões são ininterruptas e gratuitas; a morte é banalizada, vulgarizada. No Brasil, a violência se expande porque - entre várias outras causas - não temos um bom sistema  judiciário, nem uma política eficiente. Acho que já ultrapassamos, há muito, o limite do suportável. existe hoje, entre os brasileiros, a consciência de que estamos vivendo uma verdadeira guerra civil, com milhares de mortos por ano. A formação desta consciência pode ser o primeiro para a diminuição do problema. A sociedade precisa se organizar para exigir dos administradores públicos que enfrentem as muitas causas da violência.

Existe um personagem do livro, o policial Fujiwara, que acha que os criminosos deveriam ser executados. Você pensa que a pena de morte é uma solução para o problema da criminalidade?

Tenho uns trinta argumentos contra a pena de morte. Fico aqui com apenas quatro: a vida humana é um valor que tem de ser preservado sempre; temos os inevitáveis erros judiciários, que condenarão inocentes; a pena de morte é uma vingança do Estado contra um homem que cometeu um crime, e com vingança não se faz justiça; finalmente, está provado que pena de morte não reduz a criminalidade.
Mas, quando criei Fujuwara, não levei minhas idéias em conta. Como milhões de brasileiros acuados pela violência, ele acha que matar bandidos é uma solução.

Outro tema abordado no seu livro é o papel dos meios de comunicação na sociedade moderna. A atuação da imprensa é decisiva na história. Como você acha que a mídia interfere na vida das pessoas?

A imprensa interfere, o tempo todo, na nossa vida. No carro, ouvimos rádio. Em casa, vemos tevê. No trabalho, olhamos a internet. Nas bancas, centenas de revistas nos dizem o que devemos comer e vestir e até o tipo de ginástica que temos de praticar. A vida moderna, superagitada, enfraqueceu os nossos laços de família e com os amigos. Pouco falamos de nossas vidas, acabamos discutindo mais os personagens de telenovela. Ora, como é praticamente impossível escapar dessa influência sufocante, devemos tentar escolher os melhores veículos. Se pudesse indicar um remédio para reduzir esse mal, eu diria: leiam livros, leiam os grandes mestres da literatura.

CAZARRÉ, Lourenço. Isso não é um filme americano.  São Paulo: Ática, 2002.
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26 de fev. de 2017

O curioso abaporu


Essa estranha figura é o Abaporu, o mais importante quadro já produzido no Brasil. Tarsila do Amaral pintou-o como presente de aniversário a Oswald de Andrade, seu marido na época. Quando ele viu a tela, assustou-se e chamou o amigo Raul Bopp para tentar decifrá-la. Intrigados, concordaram em que representava algo excepcional. Tarsila, apelando para os rudimentos de tupi-guarani que conhecia, batizou-a de abaporu - aba, "homem", "índio"; poru, "homem comedor de carne humana", "antropófago", "canibal".

O quadro inspirou a criativa cabeça de Oswald. levando-o a escrever seu "Manifesto Antropofágico", berço de um movimento que, segundo ele, "deglutiria" a cultura europeia, transformando-a em algo bem brasileiro. Embora radical, a nova corrente teve sua importância pelo que representava em termos de exacerbado nacionalismo. A tela é, até hoje, a mais cara já vendida no Brasil (US$ 1,5 milhão), e foi comprada por um colecionador argentino.

Mas qual o significado do quadro? Difícil dizer, mas na opinião de certos círculos, o homem avantajado com a cabeça pequena seria o brasileiro desmiolado. Quanto as pés e às mãos, enormes, era como Tarsila via em nosso povo sofridos trabalhadores. O simbolizaria a penosa rotina do homem do campo, dando duro debaixo de sol inclemente (grifo meu). Ainda hoje a polêmica obra tem avivado acaloradas discussões.

Língua Portuguesa. Ano 4 - Número 59 - setembro de 2010. p. 64
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21 de jan. de 2017

Ver com os olhos livres


Em 1924 o inquietante Oswald de Andrade cravou no peito de parte da vampiresca elite intelectual e econômica brasileira - habituada a apenas sugar o sangue literário advindo da Europa e, depois, homorragicamente, expelir pedantes perdigotos - uma estaca certeira: o Manifesto da poesia pau-Brasil. Nesse inteligente panfleto bradou: "Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres".

Ver com olhos livres! No original do manifesto está em itálico, é a única frase destacada assim pelo próprio autor. É uma invocação, um grito, uma palavra de ordem. A defesa intransigente da possibilidade de olhar não reprimido, não constrangido pelo óbvio, um olhar que consiga transbordar e derramar-se para fora do o limita.

CORTELLA, Mario Sergio. Não se desespere!: provocações filosóficas. 7 ed. - Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. pp.71-72
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7 de jan. de 2017

Lendo que se aprende


O pequeno Santos Dumont adorava os livros de Júlio Verne. Era um romancista fabuloso. Como tinha imaginação!

Júlio Verne contava histórias fantásticas. Para o mundo daquele tempo eram mais assombrosas ainda que as aventuras de Batman e Robin. Façam só uma idéia: os livros de Júlio Verne narravam viagens no fundo do mar e viagens pelo espaço sem fim.

As pessoas mais velhas, que também gostavam de ler Júlio Verne, achavam aquelas idéias absurdas e impraticáveis. O menino Santos Dumont não acreditava em coisas impraticáveis.


BARBOSA, Francisco de Assis. Santos Dumont inventor. Rio de Janeiro: J. Olympio, Brasília, INL, 1974.
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23 de out. de 2016

Uma banda escrava

— O major Ursulino de Goiana fizera a casa de purgar no alto, para ver os negros subindo a ladeira com a caçamba de mel quente na cabeça. Tombavam cana com a corrente tinindo nos pés. Uma vez um negro dos Picos chegou na casa-grande do major, todo de bota e de gravata. Vinha conversar com o senhor de engenho. Subiu as escadas do sobrado oferecendo cigarros. Estava ali para prevenir das destruições que o gado do engenho fizera na cana dos Picos. Ele era o feitor de lá. O seu senhor pedira para levar este recado. O major calou-se, afrontado. Mandou comprar o negro no outro engenho. Mas o negro só tinha uma banda escrava. Pertencendo a duas pessoas numa partilha, um dos herdeiros libertara a sua parte. Então o major comprou a metade do escravo. E trouxe o atrevido para a sua bagaceira. E mandou chicoteá-lo no carro, a cipó de couro cru, somente do lado que lhe pertencia. 

REGO, José Lins. Menino de Engenho. Rio de Janeiro: J. Olympio, 2003 – Literatura em Minha Casa; v. 3. p. 77.

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19 de ago. de 2016

Revista Obvious


A Obvious é uma revista eletrônica que publica artigos, resenhas, crônicas e contos escritos em língua portuguesa nas categorias de arte, cinema, literatura, fotografia, músicas...
Abrange os países como Brasil, Portugal, Angola, Moçambique e outros. Sua página no Facebook tem mais de um milhão de curtidas. Os textos estão bem-dispostos na página, facilitando a navegação.
A parti de hoje (19/08/2016) farei parte do maior projeto colaborativo de língua portuguesa na internet. Meu espaço na Obvious pode ser acessado através deste link: http://obviousmag.org/ronperlim. Para conhece-lo, acesse o texto Sem hora para chegar.

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8 de set. de 2015

Violência doméstica

 
A violência doméstica é o que mais faz as crianças procurarem a rua. Tive muitos amigos que viveram essa situação. Elas apanham e querem ficar longe de casa. Começaram a alternar a escola com a rua. Depois abandonam a escola e ficam só na rua. São pressas fáceis, ainda mais porque a ausência da figura paterna é muito grande.

JÚNIOR, Otávio. O livreiro do Alemão. São Paulo: Guia dos Curiosos Comunicações, 2011. p. 31.
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20 de ago. de 2015

Existe literatura feminina?


Ana Martins Marques concedeu entrevista ao Suplemento Pernambuco. Em uma das indagações, ela opina sobre a literatura feminina. Confira!

Vou te encaminhar uma pergunta que me fizeram em uma recente mesa com outros escritores (todos homens): existe literatura feminina? E mais: existe literatura feminista? E além: a militância em uma causa é essencial à literatura?

Pessoalmente sempre me incomodou que a recepção da literatura escrita por mulheres ficasse frequentemente atrelada à questão do “feminino”, que essa fosse quase sempre a questão de início, o que nunca acontece em relação à literatura escrita por homens. Nunca vi nenhum homem ter que responder se, afinal, existe ou não existe “literatura masculina”. O fato de um escritor ser homem não é considerado uma idiossincrasia, uma singularidade, e a literatura escrita por homens nunca ou quase nunca é lida como “literatura masculina” (ela é lida como “universal”, embora “masculino” e “masculinidade” sejam posições tão construídas quanto “feminino” e “feminilidade” e embora obviamente seja possível detectar marcas de uma “experiência masculina” em textos escritos por homens). Para mim a escrita literária é um lugar de deslocamento, de invenção, de alteridade; me interessa pensar a literatura como esse lugar instável em que as identidades são colocadas em xeque, ou são expostas em toda a sua força de metamorfose – um lugar em que a identidade não se “expressa”, mas se “inventa”, se “joga” –, e sobretudo acredito que o poder e a radicalidade da literatura dependem de que ela não seja redutível a um discurso, seja sociológico, seja filosófico ou moral; de que ela não seja lida como mero veículo ou suporte de um discurso prévio, por mais bem-intencionado que ele seja. Isso obviamente não me impede de notar o quanto o sistema literário, apesar da ampliação expressiva da presença das mulheres, ainda se mantém em muitos aspectos predominantemente masculino. Publicar é fazer uma intervenção no espaço público, é tornar público, e o espaço público foi por muito tempo reservado aos homens e ainda é em grande parte masculino, embora isso esteja felizmente mudando. Então eu tenho em relação a essa questão uma posição um pouco ambivalente (e talvez propositalmente e necessariamente ambivalente): me interessa afastar certos rótulos rápidos e a postulação de posições identitárias rígidas ou de uma “essencialidade” feminina que se manifestaria nos textos escritos por mulheres, e ao mesmo tempo assumir uma atenção crítica em relação às questões de gênero no espaço literário, que inclui não somente os textos propriamente ditos, mas as instâncias de legitimação, as editoras, o jornalismo cultural, as escolas, a universidade, a historiografia e a crítica literárias, os festivais, as premiações.


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Travessia de abismos


CONVITE

O poeta Cleberton Santos e a Editora Via Litterarum convidam você para o lançamento-recital do livro “Travessia de abismos”.

Participação especial do músico feirense Tito Pereira.

Dia: 04 de setembro de 2015

Horário: 19:00

Local: Radiola Lanchonete Cultural

(próxima ao Mercantil na Av. Maria Quitéria – Feira de Santana)

(Entrada livre)


SOBRE O LIVRO “TRAVESSIA DE ABISMOS”



Livro: “Travessia de abismos” (poemas)

Autor: Cleberton Santos

Prefácio: María Pugliese (Argentina)

Posfácio: José Geraldo Neres (São Paulo)

Orelha: Ísis Moraes, Gabriel Gomes (Bahia)

Ilustração da capa: Nanja Brasileiro (Feira de Santana)

Fotografia: Emanuel Fonseca (Bahia)

Editora: Via Litterarum (Ibicaraí-Bahia)

Dedicado ao poeta Reynaldo Valinho Alvarez & Maria José de Sant’Anna Alvarez


O novo livro do poeta Cleberton Santos apresenta 60 poemas de tonalidade filosófica que refletem sobre a travessia da existência humana e sua profunda relação com a criação literária. O poder da linguagem humana em sua fonte mais profunda: o mistério da palavra poética. Com o projeto editorial da Editora Via Litterarum, o livro tem uma belíssima capa ilustrada pela artista plástica feirense Nanja Brasileiro, um posfácio em prosa poética do escritor paulista José Geraldo Neres e um prefácio da professora, escritora e tradutora argentina María Pugliese.

Cleberton Santos é poeta, crítico literário e professor do IFBA. Mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS. Autor dos livros “Ópera urbana” (poesia, 2000), “Lucidez silenciosa” (poesia, 2005) “Cantares de roda” (poesia, 2011), “Aromas de Fêmea” (poesia, 2013), "Estante Viva” (crítica literária, 2013) e "Travessia de abismos" (poesia, 2015). Tem artigos e poemas publicados em várias antologias e jornais do Brasil e do exterior. Edita o blog http://clebertonsantos.blogspot.com.br


Radiola Lanchonete Cultural



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22 de nov. de 2014

Ficção em tópicos

O Ficção em Tópicos é um site destinado para autores jovens e para aqueles que também escrevem, mas que ainda não se ateve a importância das técnicas que são úteis para quem lida com a palavra.

Ele é mantido por Diego Schutt que é publicitário, escritor e especialista em storytelling e criação de universos de ficção.

Ao navegar pelo site, você encontrará dicas sobre como iniciar uma história, construir  personagens, estruturas de enredos, cursos e serviços prestados por Diego e muito mais.

Há, também, o e-book Palavras de Mestre disponível para download. O livro reúne conselhos, dicas de escritores consagrados como Lia Luft, Eliana Brum etc.


Vale a pena fazer uma visita, remar por lá, descobrir novas ideias e sugestões reservados para você que quer adentrar no mundo dos livros e da ficção.
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