20 de jan de 2011

No alto do Cariri

O carro de som convocava, em nome do candidato, eleitores para mais um roteiro eleitoral. As caras saiam estampando adesivos nos peitos e bandeiras, seguindo para o lugar onde costumavam se reunir. 
No posto, os caminhões, caminhonetas, vans, ônibus, micro-ônibus e motos iam se amotoando para receber ordens de gasolina. Enquanto eram abastecidos, havia bebida, euforia, batuque, aperto de mãos, vitória certa. Abastecidos, partiram pela BR-101. Das janelas dos ônibus, micro-ônibus, carros populares, caminhões e caminhonetas, eles carregavam estandartes com alegria, regojizo, paixão que, para mais tarde, tornar-se-iam um tormento, uma frustração.
Chegaram ao seu destino. Os eleitores desceram, foram por uma senda, atravessaram um riacho de águas da cor da terra, subiram uma ladeira empolgados e eufóricos com a campanha, entraram pela única cancela do povoado; espalhando-se pela pequena rua de barro.
No lado direito da rua, a uns cinco metros; havia uma casa de taipa cercada por estacas e arames farpados. Pedi ao dono se podia urinar. Ele disse que sim e foi cortês comigo. Adentrei na saleta e em sua parede me deparei com um monte de santos. Fui pelo corredor e vi apenas um fogãozinho à lenha, a cama coberta com um lençol de retalhos e alguns badulaques. Como não havia sanitário, urinei sob um pé de mangueira. Ao retornar, dei fé de um poço artesiano e por cima dele havia umas peneiras e nelas, traíras, carás...
 Saí, agradeci, alcancei os demais e percebi glutões, falácias pálidas e magérrimas. Aquela casa de taipa se contrastava com o verde, a brisa, o céu, as intenções dos candidatos. Enquanto caminhava com a turba, tinha uma certeza única: as eleições iriam passar, mas as cercas e casas que formavam a rua continuariam a mesma, assim como os calções; precisando de remendos.

Colégio, 28.07.00

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