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14 de fev. de 2016

A de sessenta

Eram duas senhoras. Uma aparentava sessenta; a outro, oitenta e cinco. Elas estavam a caminho do sanitário. Uma tinha pressa, a outra caminhava devagar. Pelos trajes, eram de posses.

Ao se aproximarem do sanitário, a de sessenta olhou para a outra raivosa e lhe disse: “Vou jogar você no lixo, certo!”, adiantando os passos. Nesse instante, uma bela jovem passava. Ao ouvir aquilo, voltou-se para a de sessenta e retrucou, sorridente: “Mulher, não faça isso não!”. A de sessenta respondeu: “Quer ela pra você?”.

A jovem, sem pestanejar, replicou-lhe: “Quero!”.

Pega de surpresa, a de sessenta observava raivosa para a jovem.
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12 de jul. de 2015

Céu de caibros


O rádio toca. As pessoas conversam distraidamente. Uma lagartixa tomou para si a parede e se confundiu com ela, hipnotizando um mosquito. Lá fora os carros passam com estupidez. É Domingo.

A cozinheira está pondo o jantar. Todos se reúnem em torno da mesa. Valores góticos e contemporâneos se colidem, seguidos de ofensas. Do lado do pote uma formiga bebe água. O nariz do gato é róseo. Em meio à confusão, ele fica grilado em nós.

Sem causa, elas brigam, irritam-se. As formigas se cumprimentam. A aranha lança sua rede. Pescará o quê? Um mosquito, uma mosca perdida na noite. Não sei. Sei que a rede posta entre um caibro e uma ripa pesca os desencontros que saiam de cada língua.

Um barulho freia os ânimos. Os olhos diminuíram de raiva. Todos foram à porta. Era uma carreata politica descendo pela avenida. Voltaram. Ficaram soltos na sala.

Em seguida, cada qual saiu aos seus hábitos. Mônica foi para a cozinha. Papai foi assistir ao jornal. Eu liguei o som do quarto e por lá mesmo me entreti até o sono.
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16 de mai. de 2015

Pés e pneus

A brisa. A árvore. Os pardais. Pés e pneus chegam. Esperam de pé e de pneu. Vozes se cruzam. Gargalhadas. Murmúrio. A sirene toca. O portão se abre. As bolsas saem. Crianças são tomadas pelas mãos. Crianças riem. Outras não. Adultos riem. Outros não. A briga. A brisa.
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12 de set. de 2014

Keinha e os bichos

Lilu
Sabe, lá em casa a gente cria duas gatas e um cãozinho como se fosse gente. As gatas se chamam Kika e Tina e o cãozinho, Lilu. Eles estão sempre por perto. Na verdade, quem cuida deles é Keinha.
Ela os conhece muito bem. Tininha, por exemplo, é ranzinza e ciumenta. Kika é carente e dengosa. Lilu adora pão com queijo, mas usa corticoide. Está sempre com eles no colo, mas não esconde que Tina é seu xodó. Keinha não se importa de ficar com a roupa cheia de pelos, nem a pele. Sempre conversa com eles. São seus serumaninhos.
Teve um dia que ela estava com Tina no colo, apertando-a com afeto. Lilu não gostou daquilo, aí, saltou no colo dela. Estava disposto para disputar o quinhão de amor que lhe pertencia, enchendo-a de lambidas. Tina não gostou dessa ideia. Ronronou para ele. Lilu rosnou. Para acabar com a arenga, Keinha lhes disse:
— Parem com isso. Vocês são irmãozinhos. E irmãozinhos não brigam, tentando reaproximá-los. Tina não quis nem saber. Saltou do braço do sofá e foi direto para a cozinha, aproximou-se de Kika, enchendo-a de lambidas.
Lilu queria mais atenção. Para isso, entrou no quarto, pegou a meia no tênis e saiu correndo pela casa, colocando-a debaixo da cadeira de balanço, esperando por Keinha. Ela foi pegar a meia, mas foi driblada por ele. Corria de um lado e de outro, até se cansar.
Cansado, ele largou a meia no meio da casa, esparramando-se no chão, atento aos movimentos de Kika e Tina. Ele se aproximou delas com seus latidos estridentes. Tininha, com seus olhos amendoados e azuis, olha para ele friamente. Quando menos se espera, ouve-se: caiiiin.... caiiin.... caiiiin....
Keinha saiu do computador. Queria saber o que aconteceu. Chegando lá, viu o focinho de Lilu sangrando. Pegou-o no colo, acariciou ele, se voltou para Tina dizendo:
 Menina, não pode fazer isso com seu irmãozinho não! 
Tina, desconfiada, olha para ela com seus olhos azuis, dá de dorso, entra no quarto, se deita na cama, lambe-se e cochila.


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11 de jun. de 2014

O primeiro gole


Por que, meu Deus, eu tenho que sofrer tanto assim nessa vida? Fui um bom filho. Sempre cumpri com os afazeres que o meu pai mandava e minha mãe. Por que hoje passo por tanto aperto? Sou um homem já idoso. O cansaço tá comigo e não me larga. Não tenho prazer nenhum na vida. Será que tô pagando pelos meus pecados, sofrendo e gastando o resto dos meus dias num barquinho; pegando uma bobagem aqui outro ali, sol, chuva, chuva, sol pra vê se eu arrumo um bocado e uns trocados? Não tenho nenhuma aposentadura. Se não fosse a ajuda do Governo e dos meus filhos que faz um bico aqui outro ali o que seria de mim? O que ganhei nesta vida? Só doença. Só fiz trabalhar feito um condenado. Pra quê? Não sei mais olhar pra os meus filhos. Nunca dei nada a eles, além de sofrimento e apertos. A minha mulher anda me rejeitando. Só anda com a cara feia. Quando eu vou querer um negocinho com ela, ela me dá às costas. Será que ela tá me traindo?”.
 
Esses conflitos perturbavam Artur. Sem olhar para a mulher, pegou o boné e saiu. Para piorar a situação, encontrou Cícero na rua e aceitou o convite deste para ir ao Bar do Primeiro Gole. Por lá conheceu outras histórias iguais ou semelhantes as suas e se acostumou aquele ambiente. Não havia um dia sequer que não chegasse cheirando a pinga. E, o negocinho que ele tanto queria, não teve mais como reclamá-lo. Teria que se contentar com a masturbação.

Vencido, percebeu que nada era como antes. Cabisbaixo, pôs os pés fora do batente, reviu amigos, foi ao bar e gastou todo o dinheiro do aluguel que furtou. Passou a manhã e a tarde nesta vida. Ao por do sol, resolveu se banhar no rio São Francisco.

Ao mergulhar, ouvia uma voz serena e suave chamar por seu nome. Sem perceber a correnteza, ele foi à procura dela e afogou-se numa panela d’água. O corpo nunca foi encontrado.
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24 de mai. de 2014

Foi só um olhar

Tudo se iniciou no Bar da Galega. Cátia e Frederico escutavam sertanejo por lá. Riam, beijavam-se e bebiam. Sandro entrou, observou as pessoas, cumprimentou alguns conhecidos e olhou de soslaio para ela. Frederico não gostou do modo como eles se olharam. Amarrou a cara na mesa e bebia com ímpeto.

Passados alguns minutos, ele chamou Cátia de safada, vagabunda e deu um tapa na face dela. Sandro, sem saber os motivos, foi desapartar a briga. Raivoso, Frederico o empurrou, acusando-o de flertar com a mulher dele. Sandro perguntou se ele estava louco, discutiram e os fregueses do bar desapartaram eles. Nisso, Cátia saiu em lágrimas. Inconformado, Frederico foi atrás dela, dizendo:

— Prá onde você vai, sua cachorra. Quando chegar em casa, você me paga. Vagabunda. Só vive dando ousadia a todo mundo que ver pela frente. De hoje não passa. Você me paga.

Ele conseguiu alcançá-la. Pegou-a pelos cabelos, deu-lhe umas bofetadas e saiu rua a cima. Tinha gente que fingia não ver, outras se revoltavam; mas não faziam nada.

Ao chegarem em casa, ele não a poupou. Deu-lhe socos e pontapés, deixando-a indefesa no chão. Possuído pela cólera, foi a cozinha, pegou o facão e desferiu vários golpes sobre ela, dizendo:
— Já faz um tempo que eu vinha olhando para seus pés. Quer me fazer de besta? Você agora vai me trair no inferno, sua vadia.

Morta a vítima, precisava esconder o cadáver. Foi ao quintal, fez uma cova rasa e jogou o corpo nela. Feito isso, tomou banho, mudou de roupa, pegou dinheiro que costumava guardar para esse fim e pensou: “Não vou ser pego por assassinar aquela cachorra”. Quando pôs os pés fora do batente, deu-se de cara com a polícia de arma em punho pedindo para ele não reagir.




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17 de mai. de 2014

Última dor da existência

Ela estava sentada no batente da porta. Face voltada para a calçada e entre os dedos o cigarro.
O cigarro, quando posto entre os lábios, estremecia. Nela havia solidão e o seu mundo estava desarranjado. A mente muitas coisas fazia, participava no cubículo do seu ser.
Passavam-se as horas.
Passavam pessoas. Só não passava aquela angústia, aquela dor, a última que alguém pode sentir nesta vida.
Só o cricrilar fazia-se presente no fechar e abrir dos dias.
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21 de abr. de 2014

A minha gata

Kika
A minha gata vive atrás de mim, toda dengosa. Mas o dengo dela tem explicação: é a fome. A minha outra gata afirma que não é nada disso, mas amor.

Acontece que a minha gata faminta quando está com o bucho cheio, me trai. Imagine: ser traído por um bucho cheio! E essa traição arranca risos da outra gata.
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9 de fev. de 2014

O Rio de assoreamentos

Muitos foram os textos publicados. Alguns técnicos outros não. Há, também, os textos inéditos, baços nos olhos e na língua do povo simples que vive do Velho Chico e dele depende.
 
Não serei mais um a escrever um texto contendo dados de uma instituição ou baseando-se em algum estudioso. Não há muita necessidade de conhecimento científico para compreender que o Chico, com a sua pouca água, estar se tornando um miserável nacional; agravando mais ainda a vida dos ribeirinhos.
 
Este texto possui a melancolia, o pesar e a dor de todos os cidadãos ribeirinhos e aqueles que possuem consciência ambiental. No entanto, darei ênfase no trajeto  da cidade de São Brás até a divisa do estado de Alagoas com Sergipe por meio da ponte rodoferroviária. Nesse trecho, nota-se com bastante amargura que a Transposição sem revitalização é uma insanidade política e grosseira. Um feito megalomaníaco, típico de pessoas sem escrúpulo e que fazem de tudo para saciar os seus umbigos.
 
Todas às vezes que vou a cidade de Propriá, seja de lancha ou de automóvel, os meus olhos se enchem de melancolia. Diante das minhas íris percebo ilhas que não fazem parte da minha infância e outras que surgem no corpo do rio como o câncer. Sinto um aperto dentro de mim e imagino que posso alcançar os mais pobres suplicando um copo d'água, os canalhas da política tirando proveito de uma situação miserável e o caos da dor.
 
É lamentável presenciarmos a grande, enorme croa que se formou sob a ponte Propriá-Colégio sem que a indignação tomasse posse de nossas almas. Quantas vezes não ouço dos pescadores quando estes se referem ao passado de muitos peixes, da fartura e que; nos dias presentes, lhes faltam a esperança porque a força do Rio está fraca. Também fazem lembrar das grandes enchentes que inundavam as ruas da minha pequena Colégio.
 
Os tempos para o velho Chico mudaram para pior. Como a maioria dos idosos, o Chico esta sendo violentado pela ganância e estupidez de homens tolos e insensatos que não medem esforços para realizar seus projetos pessoais, políticos e financeiros. Esses míseros que só se importam consigo.
 
Visitar o trecho de São Brás a ponte Propriá- Colégio, o visitante entenderá com maior clareza o que essas palavras querem dizer; até porque será visto em várias partes desse trecho enormes coroas e a formação de outras, dividindo o que antes era indivisível.
 
O assoreamento, esta maldita doença fluvial, pouco a pouco sepulta o Velho Chico e com ele as carrancas, os nêgos e mães d´água, os peixes e os seus pescadores, os banhos e os banhistas, as lanchas e os lancheiros. Levará para  a sepultura as várias e muitas estórias dos seus amantes e frequentadores, ficando apenas as lembranças de suas enchentes, do banho suave e gostoso de verão que só o ribeirinho sabe saborear, desfrutar e valorizar.
 
Se os ribeirinhos tem orgulho de dizer que o Chico é o “Rio da Unidade Nacional”, eles têm agora pesar em lhe chamar de “Rio dos Assoreamentos” porque eles (os assoreamentos) surgem como o câncer.
Texto publicado na Tribuna da Praia em 18/03/2008.
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7 de mai. de 2013

Mundo Circular

Carlito os viu passar. Deixou o balcão, as garrafas falantes nas mesas e acenou com a mão para eles. Queria ser o primeiro a ter certeza dos boatos circulares das praças e bares. Ao se aproximar dos conhecidos, perguntou-lhes:


— Seu Artur, é verdade que ontem à noite, quando vocês pescavam, um casal de Nego d'água atacou vocês dois? Tá uma confusão danada nas ruas. O povo tá com tanto medo que nem banho que tomar no [1]Rio.

— Olhe seu Carlito, não sei disso não. O povo conversa muito. A gente não foi atacado por nenhuma criatura das águas. O que aconteceu foi isso: a gente saiu da croa para pescar. De repente, um toró caiu sobre a gente, acompanhado de uma ventania danada. Como o barquinho tava precisando de reforma, não aguentou com os sopapos do vento. Ele se partiu ao meio e a gente quase morreu. Só foi isso. Não teve Nego d'água nenhum.

Quando Carlito resolveu lhe fazer outra pergunta, o celular de Artur o interrompeu. Ao atender o telefone, ele ouvia o desespero da esposa. O pai dela morrera em seus braços. Despediu-se de Carlito e com pressa saiu acompanhado de Carlos.

Nisso, Carlito retornou ao bar. Nele, relatou para as mesas o que acabara de acontecer. Elas ficaram compungidas e o mundo circular continuou tico a tico nas ruas, nas praçs da pequena[2]Colégio.




[1]Refere-se ao Rio São Francisco
[2]Refere-se a cidade de Porto Real do Colégio - Alagoas
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17 de mar. de 2013

Prefiro garotas off-line


O sorriso era solto e os lábios carnudos. Isso  realçava a beleza exótica dela. Apesar de divorciada, seus olhos não eram tristes, nem lamurientos. Transpareceu alívio, pois, seu ex era muito ciumento e não queria ser mais uma na lista da Proteção Preventiva
 
A trepidez da lancha não impedia o nosso diálogo. Ela levantou-se do assento de madeira, pediu para o condutor da lancha parar no primeiro ponto de desembarque, sentou-se e disse:

— Não posso passar por aqui sem ir à casa da minha amiga. A gente se conhece desde a escola e somos boas amigas.

— Faz bem, disse eu. Preservar os verdadeiros amigos é coisa boa porque eles são poucos e raros. Boa sorte em sua amizade.

Ela me agradeceu, pegou endereço do Face, deixou-me aquele sorriso largo e se foi. A lancha seguiu seu destino e a trepidez dela não impedia os meus pensamentos, nem a doce lembrança que ela deixou naquela manhã.

Se não a conhecesse pessoalmente jamais me deliciaria naqueles lábios, nas maçãs que me fez lembrar Clarice e do busto esbanjando sensualidade. Nada disso seria possível se a conhecesse em alguma rede social.

E concluí: nada substitui a vida off-line.
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22 de dez. de 2012

A pescaria


— Artur, vamos tentar hoje de novo?

— Para quê? Para gastar o nosso tempo! Você não tá vendo que esse Rio não dá mais nada não? Quando a gente sai, só pega uns tilapes que não dá nem prá um frito! Por onde se pende só se vê mato e areia. Parece que o Rio tá morrendo e ninguém liga. É croa daqui é croa dali. O que foi que a gente pegou ontem, hem? Me diga vá! Três tilapes que não deu cinco quilos.

Alberto silenciou por alguns instantes, compreendendo com tristeza as aflições do amigo. Mas insistiu, dizendo:

— Amanhã é dia de feira. Eu sei que o que a gente pegou foi muito pouco, mas pode ser que a gente dê sorte hoje à noite. Bora. A gente nunca sabe e amanhã é outro dia!

— Vou não perder meu tempo, como ontem. Vá você!

— Bom! Tô indo. Se você mudar de ideia, eu tarei na casa de mamãe. Até mais!

— Até e boa sorte!

Artur permaneceu debruçado sobre o cais e pensava: Por que meu Deus, eu tenho que sofrer tanto assim nessa vida? Fui um bom filho. Sempre cumpri com os afazeres que o meu pai mandava e minha mãe. Por que hoje passo por tanto aperto? Sou um homem já idoso. O cansaço tá comigo e não me larga. Não tenho prazer nenhum na vida. Será que eu tô pagando pelos meus pecados, sofrendo e gastando o resto dos meus dias num barquinho; pegando uma bobagem aqui outro ali, sol, chuva, chuva, sol pra vê se eu arrumo um bocado e uns trocados? Não tenho nenhuma aposentadura. Se não fosse a ajuda do Governo e dos meus filhos que me sustenta, fazendo um bico aqui outro ali o que seria de mim? O que ganhei nesta vida? Só doença. Só fiz trabalhar feito um condenado. Pra quê? Não sei mais olhar pra os meus filhos. Nunca dei nada a eles, além de sofrimento e apertos. A minha mulher anda me rejeitando. Só anda com a cara feia. Quando eu vou querer um negocinho com ela, ela me dá às costas. Será que ela tá me traindo?

Nas longas e infiéis imaginações, dava a pobre mulher um macho. Com essa cisma na cabeça, pensava em matá-la se fosse verdade o que ele estava pensando. Quando chegava em casa que a via pálida e cansada de tanto fazer conserto de roupas, arrependia-se das suas pífias e doentias ideias que o atormentava e o perseguia o tempo todo.


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10 de nov. de 2012

As lavadeiras

Eu estava no terreiro brincando com Valente. Vovó apareceu no batente da porta e me chamou. Fui ao encontro dela e ele me acompanhou. Vovó pôs a mão dentro do bolso direito do vestido, tirou um tostão e me pediu para comprar sabão branco e sabão da terra. Eu fiquei curioso para saber qual era a diferença entre um e outro, mas quando retornei da casa de dona Firmina, entreguei os sabões, ganhei o troco; me entreti com Valente, deixando a aquela curiosidade de lado.

Mas tarde, alguém apareceu na porta da frente chamando por vovó. Ela acenou para mim e pediu que eu observasse quem era. Depois de ter prestado atenção, de lá mesmo disse que era Marli, a lavadeira. Vovó pediu que ela entrasse, indo pra cozinha. Eu acompanhei ela. As suas mãos eram engiadas e a maioria das unhas tinha caído. Conversaram bastante tempo. Depois foi embora. Cheguei para vovó e perguntei para ela:
Vó, por que as mãos e as unhas de Marli são daquele jeito. Tive pena dela!
Porque ela lava pra ganhar.
Não entendi direito isso.
É por causa daqueles sabão que dona Firmina faz. Marli ganha por lavagem de roupa. Como ela lava todo dia, aí prejudica.
Vó, o que será que tem nesses sabões?
Ah, meu filho, não sei! Só você indo perguntar a dona Firmina. Só ela pode responder isso a você porque ela é quem faz os sabão, lá na casa dela.
Dona Firmina morava na mesma rua que a gente. Pensei em ir lá, mas desisti porque ela vivia com a cara amarrada. Então, esperei que vovó pedisse que eu fosse comprar sabão novamente. Depois de uma semana, eu fui comprar. Da porta, disse:
Dona Firmina, ô dona Firmina! Quero comprar sabão!
Entre meu filho, pode entrar. Tô aqui na cozinha ocupada.
Entrei, fui aonde ela estava, comprei um tostão de sabão. Ela embrulhou no papel e me entregou. Olhei para ela e disse:
Dona Firmina, como é que se faz Sabão?
Ela me olhou por alguns instantes, me deu as costas e pediu que eu me aproximasse. Próximo aos latões, ela disse:
Para fazer o sabão branco, primeiro coloca sebo de boi e água dentro de latões de querosene de vinte litros. Quando o sebo derreter, é só colocar soda caustica e esperar por duas horas. Quando tiver pronto, espera esfriar, pega o arame e faz as barras.
Depois me mostrou como era feito o sabão da terra. Para fazê-lo, tinha que colocar pouca soda cáustica, acrescentar cinza e cal. A cinza era para dar um colorido diferente as barras de sabão e a cal para limpar as borras da cinza quando estava fervendo.
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21 de out. de 2012

O teclado


Estou diante do monitor. Olho para o teclado e vejo nele um monte de símbolos e me faltam palavras. A impressora espera alguma folha, “doida” para imprimir. Procuro palavras no meio de tantas, e não as acho. Se for buscá-las em dicionário, não servirão para um idílio ou dor. A minha carne  cansou-se de tudo, até de mim. Vozes vibram no ar. Palavras se entrelaçam no abraço da comunicação. Algo pousou em mim. O que é, não sei. O mundo gira em torno deste teclado. O mundo parado, inerte, que não quer morrer. Apenas está num estado de movimento, mexendo nas teclas sem saber para onde ir.

 Cadernos, 08 junho 2001
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20 de jul. de 2012

A alma e as ruas

Ontem o meu coração estava nas minhas tripas e uma sensação ruim me acompanhou. As luzes dos postes não me traziam nenhuma novidade. Em mim, várias faces que não me definia. Vi-me perdido nas ruas e o tédio me afagava. Estava só, num estado de graça e angústia. 

No bar, o copo de cerveja na minha frente, gelado, suando, não me desmanchava. O queixo tremeu, a pele tornou-se diferente. As vozes iam, viam e não me interessavam.
Levantei-me e sem rumo e sem leme fui andando no meio das intempéries, levado pelas havaianas. Senti uma vontade de nascer de novo. Perguntava aos céus o que eu estava fazendo ali. Como resposta nenhuma veio, senti-me solto, jogado no mundo como se estivesse pagando uma pena.

Dentro de mim vozes entravam de formas diferentes, formavam fatos e atos. Para quem ou para o quê, não sabia. Sei que aquele dia não me foi diferente, pois sentia a sequência de anteriores que se repetiam com dramas e sustos repentinos. Ia, ia sem perder a direção. 

As ruas nem largas, nem estreitas me espreitavam sem vaivém, sozinhas no meio do caos. Uma sombra deslocada da minha carne rugiu forte e as meninas massificadas passaram alegres, sorridentes.   
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1 de jul. de 2012

Historinha

O menino pedia para a mãe por uma historinha. Impaciente, olhando de um lado para o outro como se um mico pagasse, disse a alguém que a acompanhava:

— Todo dia é isso: este menino inventa alguma coisa. Agora quer uma historinha. (Meneando a cabeça).

A reclamação dela não conseguiu vencer a curiosidade dele. Dirigiu-se a um revisteiro e decepcionou-se, pois, as historinhas que ele queria não estavam ali. A mãe, aborrecida, pegou-lhe pelo braço, dirigiu-se ao caixa de atendimento, pagou a conta e se foi.

E aquele pequeno leitor será  interrompido por quem historinhas deveria lhe dar. 
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12 de mai. de 2012

O pescado



Estávamos na lancha. Ao meu lado, Mário pescava. Eu topei em seu ombro direito. Então, ele abriu os olhos esbugalhados para mim. Perguntei-lhe:

 Quanto custa o quilo do peixe? Sem compreender, respondeu:

 Qual? A tilápia, o tambaqui, o piau...?

Norma, que diante de mim se encontrava, caiu; mas de gargalhada. Eu ri também junto com ela. Mário ficou meio constrangido, percebeu o gracejo e disse:

 Você e suas frases tiradas do baú!

Ainda rindo, retomei o diálogo, dizendo-lhe:

— Se fosse do baú, ela não estaria impregnada em nosso corpo. Mário, quando o cesto estiver cheio, você me diz quanto custa o pescado da sua pescaria.
E atravessávamos o rio na trepidez da lancha e das gargalhadas.



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22 de abr. de 2012

Com os covos na mão


Marulhava as águas sobre as pedras. Nelas, um hóspede inesperado ancorou o barco. Espreitou de um lado, do outro para ter certeza que estava a sós. Ele e os covos, ele e o marulhar das águas numa noite densa e fria.
As pupilas se dilataram, o coração pulsou com mais força, a pressa apareceu e na ânsia, via tudo a sua volta com desconfiança. Dentro da madruga só os olhos brilhavam atentos, espreitando e estreitando os intentos que emergiam dos circuitos elétricos vindos do cérebro.
Avistou de longe um tronco de uma árvore rio abaixo, assustou-se pensando que era uma canoa. O susto passou, mas ele ficou com a desconfiança no peito e os covos na mão.
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20 de jan. de 2012

Eu não fiz com o dedo

— Amiga, não sei o que fazer. Tô grávida, meus pais não sabem e tô desesperada. Me der uma luz!
— Não sei como dar luz a uma grávida. A única coisa que sei é que ela brilhará daqui a nove meses. (risos)
— Deixe de brincadeira. Tô falando sério! Não sei o que fazer.
— Já falou para ele?
— Ainda não! Tô com medo dele me rejeitar e eu ser mais uma mãe solteira.
— Amiga, se ligue! Essa criança não é só sua. Se ele não quiser assumir, você vai e denuncia na Justiça e Pronto. Vai deixar de graça, é?
— Não amiga! Tôu tão confusa e com medo. Os homens são estranhos. Diz que gosta, quer ficar com a gente e quando acontece isso, eles fogem como diabo da cruz. Ainda dizem que a gente é complicada.
— Amiga, deixe de bobagem. Você fez com o dedo, por acaso?
— Não!
— Então! Tente conversar com ele. Ele não diz que gosta de você. Que sempre estar com você em tudo que é festa?
— É!
— Então! Vou telefonar para ele agora.
— Não sei.
— Ligo ou não ligo. Dicida logo isso e acabe com essa agonia.
— Ligue.
Paulinha discou o número e disse-lhe que Martinha o aguardava na lanchonete do Bira. Antes de ele chegar, Martinha estava apreensiva, ansiosa. Dentro de sua cabeça os fatos já estavam concretizados: ele ficaria desesperado, alegando que era jovem demais para assumir tal responsabilidade, que ela teria que abortar; custe o que custar. E se ela não fizesse isso, ele a deixaria. Enquanto ele não chegava, esse era o seu espinho na carne.
Quando Barnabé chegou, beijou a face de Paulinha e em seguida deu uma bituca em Martinha. Nervosa e motivada pela amiga, não fez arrodeio. Foi direto ao ponto:
— Estou grávida!
Ficou sério por alguns instantes. Depois riu, deu-lhe um beijo cálido, riram e comemoram por ali.


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23 de dez. de 2011

Galrão

Eram sete horas da manhã. Desci a rampa do porto, entrei na lancha e sentei. De onde estava, via o céu nublado e nele um arco-íris enfeitando a manhã.

Enquanto folheava a Gramática, uma mulher conversava o tempo todo como se tivesse necessidade de fazer aquilo durante toda a viagem. Com o cigarro entre os dedos e os lábios, chamava a minha atenção. Olhei algumas vezes para ela, para a pose que só os fumantes têm, dei uns sorrisos contidos e retornei para a Gramática, deliciando-me com os verbos de ligação.

E porali fiquei alternando de um estado para outro, sem me incomodar com a trepidez da lancha, nem com a tagarelice dela.
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