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Mostrando postagens com o rótulo Crônica

Malditas picuinhas

Ele estava na praça, concertando uma estante de armazenamento; dessas que se usa nas pequenas lojas para entulhar roupas e livros de forma imprópria. Aproximei-me, cumprimentei-o e pausei por alguns instantes; o necessário para ouvir dele que um suposto amigo havia delatado-o a um político sem mandato, mas com chances de se eleger na próxima eleição. Mesmo com aquela mágoa no peito, falou-me que aquele político o tratara como antes, sem cara amuada; que passou por ele e acenou com a mão, demonstrando na sua falácia satisfação, pois, os gestos do político lhe conferiam algum prestígio, assim pensava ele com um riso sarcástico. Ao retomar a sua mágoa, tratou com desdém o suposto delator, esbravejando adjetivos vulgares a mãe deste, pleno de certeza que ainda tinha “moral” com aquele candidato.   Eu não o fitava por muito tempo porque ele insistia naquele conflito, na condição de vítima, na existência de um suposto delator, pois, desconfiava de quem por ele passava e não lhe saudava. Per

Deus não é religioso

Muita gente vive com Deus na ponta da língua. Isso não é uma novidade. Apenas uma rotina. Mas vez outra me deparo com essas pessoas e as diferentes formas de elas “entender” a palavra de Deus. E, nesses montículos insipientes de pessoas, noto que Deus está na língua e não no coração. Deus não pode ser confundido com religião. Não se pode externar as doutrinas dessa ou daquela religião e impô-las como únicas e verdadeiras. Todo conhecimento, seja científico ou não, deve ser questionado. O que mais me aborrece são aquelas discussões religiosas bestializadas que para nada servem; e servem: para o aborrecimento e a indiferença.   O que percebo é que Deus tornou-se um hábito na língua e uma prática religiosa. Por isso, me defino um homem sem religião . Um homem sem religião não é um homem sem Deus, como pensam os alienados; porque Deus não é religião . Um homem sem religião não é um homem à toa, como pensam aqueles que são contrariados; porque a Bíblia é o único guia a ser seguid

Tucanada raivosa

Os raivosos do PSBD alegam a vantagem de Dilma sobre Serra atribuindo-a aos 12,5 milhões de família cadastradas no Bolsa Família. Eles afirmam que esse programa estimula a preguiça e que é uma forma legal de compra de voto, caracterizando-a como assistencialista. O problema é que a tucanada se esqueceu ou finge ter esquecido que foi o governo do PSDB que implantou os programas sociais (Bolsa Escola, Bolsa Alimentação, Auxílio gás e Cartão Alimentação) . São tão pueris na questão do Bolsa Família que acham que todos os cadastrados no programa votam exclusivamente em Dilma e somente nela. Não levam em conta que dos 12,5 milhões de famílias há crianças, pré-adolescentes (que não votam) e adolescentes (voto facultativo). Inconformados com a realidade eleitoral, os raivosos tucanos estão engordando os e-mails dos eleitores com informações distorcidas da biografia da presidenciável, contextualizando-a no atual conceito de terrorismo, de assassina de criancinhas (questão do aborto); sendo est

Mazela eleitoral

Muita gente acha que as leis existentes deveriam ser mais rigorosas, pois, acreditam que esse rigor resolveria o problema da impunidade neste país. E reclamam delas e dos políticos.  Acham que a Justiça Eleitoral deveria proibir o uso de dinheiro em campanhas, pois, ela sabe que esse dinheiro se destina a mercantilização do voto; que o dinheiro deveria ser usado simplesmente para manter um banco de dados contendo informações pessoais e jurídicas da vida de todos os candidatos envolvidos em um processo eleitoral para que os eleitores pudessem escolher pesquisando a vida pregressa de cada um deles. Entendo que essa olhadela no sistema político reflete que: falta filosofia, faltam reflexões, falta senso crítico. Mesmo que fosse proibido o uso de dinheiro em campanhas, ele não faltaria no bolso dos candidatos, pois, há quem os financie; melhor dizendo: comprem favores pessoais, agiotem e isso ocorre há anos. O problema das eleições deste país não são as calúnias, as baixarias, as fraudes,

Ruas vazias e solitárias

Vestiu a bermuda surrada e nem se deu conta. A mãe balbuciou alguma coisa, mas ele meneou a cabeça e saiu. Lá fora, as ruas estavam vazias e solitárias para os seus pés. Durante o trajeto, pensava:  — Amei-a sem limites. Doei-me sem interesses pessoais.  Ocupei-me com os problemas dela, vivendo-os como se fossem meus. Mas, o que me restou? Restou-me a humilhação, o cansaço e a chacota. Além disso, mamãe fica no pé, azucrinando a minha cabeça para eu não cair mais numa daquelas. Caminhando pelas ruas daquela pequena cidade não surgiu um ouvido, uma língua, um olhar terno, meigo que lhe servisse de bálsamo. A alma, movendo-se de amor e para o amor, encharcava-se de angústia. Muitas vezes sentia-se perdido e tinha a sensação de estranhamento de si e das coisas. Alguém o chama. Ele ergue a cabeça, reconhece a turma que estava na porta de um mercadinho e se dirige para lá. Ali, a mesmice parara e nela sua integridade fora violada, sua solidão, seu solteirismo posto em dúvida. En

Possuídos pela barganha

É com pesar e intensa melancolia que noto as pessoas possuídas pelo convencimento passivo diante das várias situações políticas. O período eleitoral é uma oportunidade para a barganha e elas não se envergonham em dizê-la.  Tão convencidas estão que não pensam nas maldades que praticam quando de suas casas saem para votar em políticos com vidas pregressas maculadas. Esquecem-se que as leis são criadas por políticos que compraram mandatos. Há os tolos que acham que, se não comer naquela ocasião, não irá mais receber um suposto benefício. Esquecem-se que a individualização do voto priva os benefícios coletivos, tais como: segurança, educação, saúde, transporte público, dentre outros; tão explícitos no sensacionalismo da mídia que reflete a má escolha dos empregados eletivos.   Essas escolhas ruins fazem pais e mães perderem filhos para as malditas balas achadas, para o tráfico de drogas, para os homicidas, os maníacos, os leitos dos hospitais e das unidades de saúde sucateados. Isso oco

Correndo do amor

Sentada no banco da praça e de cabeça baixa, soluçava. O soluço era resultado de uma paixão inacabada que a punha numa situação dolorosa. As lágrimas desciam impetuosas pela face e a mente se metia em confusões, as malditas confusões.   A única coisa que conseguiu naquele momento foi desejar alguém por perto, algum amigo para lhe afagar, doar uma palavra de carinho, conforto. Mas as lágrimas, as infelizes lágrimas era quem lhe faziam companhia. Ah, que triste companhia que alguém pode ter num momento como este! Sentiu uma mão tocar seu ombro. Assustou-se! Sem olhar para trás, nem pensar duas vezes, levantou-se com pressa e saiu correndo. Corria, corria e já não sabia por que corria. O homem que a tocara sentou-se no banco esperando-a porque sabia que ela voltaria no meio da noite. Então ele riu para si, ria para o silêncio, ria apenas. PORTO LITERÁRIO, ANO II – N.º 54 – DE 06 OUTUBRO - 2003.

Círculo da morte

Um bem-te-vi estava entre galhos. Anunciava que viu, mas não dizia o quê. Os galhos balançavam, as folhas farfalhavam com as malinações do vento (Bento). A relva estava verde e o sol espalhava-se sobre ela em gotas de orvalho. Um pardal pipila e voa, sendo substituído por um voo circular sob nuvens branquérrimas e um céu anil. Então as minhas pálpebras se quebraram nesse dia.

Fundo de quintal

Procurava um amigo e o encontrei numa escola dialogando com colegas de trabalho. Dei bom dia, ofereci amendoim que carrega em uma das mãos, sentando-se em seguida numa dessas cadeiras escolar abandonada. Em silêncio, ouvia quando um deles acusava a Câmara de ter vivido um caso de mancebia na gestão anterior, alegando que: “quando os vereadores são do mesmo grupo político do prefeito, não há administração; mas esculhambação em conluio com a Justiça”. Outro, mais reflexivo falou: “a oposição é muito útil para a democracia”, calando-se. O diálogo entre eles continuava, tornando-se quase conversa. Cada um expunha suas ideias e opiniões sobre o atual sistema político, apontando com os dez dedos das mãos para os políticos; demonstrando uma opinião formada pela mídia. Permanecendo como estava nada dizia; até porque aquele diálogo-conversa me causava angústia, já que os ouvidos nunca se cansam nem se fartam os olhos. Observei o entendimento superficial que alguns deles faziam daquele assunto,

A espera de um candidato

Mauro estava de pé. Com o celular abaixo do queixo, fazendo gestos como se estivesse num palanque ou tribuna. Era branco, cabelos lisos e sedosos. Carregava no rosto vestígios da adolescência. Eram espinhas fossilizadas. Calçava tênis e vestia jeans. Falava de promessas e algumas pessoas o rodeavam, enchendo o coração e as cáries de alegria - Um menino passou de lado, catando as latas de refrigerante e cervejas que nós havíamos bebido. O vento fazia pequenos redemoinhos de poeira, fazendo os cílios se encontrarem para proteger às córneas. Zuuuuummm...  Uma carreta passou pela BR e Mauro falava, falava na ponta dos pés, voltando-se para uma plateia magérrima. Alguém passou, pôs a mão no meu ombro. Eu o respondi com um sorriso contido. Biro se aproximou, estendeu aquela mão grande e fria. Demorou um pouco e depois saiu à cachorro.  Saímos.  Dentro do carro Ademir falava com gosto e alegria, contente de coisas pálidas. O rosto dele era redondo, nariz afilado, bojudo e usava óculos. Chegam

Receitas A4

Euforia, paixão, gritos estrídulos moviam-se no calor das passeatas de rua em rua. As bandeiras são verdadeiros estandartes. Os eleitores quando se deparam com pessoas de outro grupo, as recepcionam com vaias e os mais afoitos com gestos obscenos. O líder nada faz, mas demonstra certo sarcasmo. Passada essa fase de comícios e pede-pede de votos, chega a semana da eleição. Os grupos se reúnem para traçar os pontos estratégicos do comércio eleitoral. Os líderes convocam os cabos eleitorais, discutem o que deve ser feito e começam agir, geralmente na calada da noite feito ladrão. Mas são os últimos três dias da eleição que as coisas acontecem e esquenta. As pernas dos eleitores são substituídas pelo frenesi dos pneus. São uns atrás dos outros para “impedir” a compra e troca de votos.   No dia as coisas aparentemente são calmas. A polícia, o MP (quando não escolhem um grupo) ficam na espreita tentando muitas vezes impedir a famosa boca-de-urna. Mas o vício é miserável e muitas vezes difíc

Dia, depois noite

É dia. Levadas pelo vento, elas se mesclam ao anil do céu. O sol, por sua vez, esbanja-se pelas ruas, calçadas. Depois vem a noite, sem nuvem alguma; mas carregada de estrelas. Mas de repente as nuvens mudam de cor, os trovões surgem, os relampagos fazem faltar energia, Mimi foge para debaixo da cama e Zeinha se assusta, dizendo que o coração palpita na boca.

Reeducação política

O problema da política não estar nos políticos, mas no modo de se fazer política, de se pensar a política e de escolha política. Neste país, faz-se política de várias maneiras: pela aparência, pela picuinha, pelos interesses pessoais e egoístas, pelo comércio eleitoral, pela mídia, pela mentira, pela fofoca, pela antipatia etc. Explico: conversava outro dia sobre a eleição presidencial. Ouvi o nome de Dilma ligado ao de Lula, o de Serra ao de FHC. Os simpatizantes do primeiro argumentavam a crise superada, a não dependência do FMI, as não privatizações, os inúmeros concursos públicos etc. e os do segundo diziam que o Plano Real foi criação dos tucanos, o Bolsa Família (Uma mentira, porque o Bolsa Família é a reunião do Vale Gás, Bolsa Escola e Vale Transporte criados no governo de FHC), o não reajuste das aposentadorias (O fator previdenciário foi criado no governo FHC), que o governo Lula já pegou a casa arrumada e outras bobagens. Quando os ânimos se apaziguaram, eu olhei para os meu

Multiplicando os pães

A multiplicação dos pães continua, a exemplo de dona Lucádia que divide R$ 510,00 para a farmácia, o mercadinho, à água, o botijão, a energia e os netos.   Isso acontece todo dia cinco de cada mês. Os filhos dela chegam acompanhados dos seus filhos. Ela, dona Lucádia, observa para os rostos pequenos das crianças e se compadece. Afinal de contas, são filhos dos seus filhos. Contrita, ela os acolhe solidariamente com a solidariedade que só às mães possuem. E é assim: em alguma parte deste país a multiplicação dos R$ 510,00 acontece miraculosamente para uma multidão de netos, de filhos, genros, noras; sem rumo, sem remo.

Miolo, que não é de pote

No fundo da consciência, onde se esconde a traça dos pensamentos; onde fica retido o mofo de armário e se esconde a hipocrisia, chora uma criança perdida de medo, em meio a uma luz baça e comprida. No fundo da consciência muita coisa acontece sem que ninguém veja. Lá, no miolo insondável o mundo gira elétrico, a mente flui como num eclipse.

Andando de lancha

Vinha tranquilamente pela Fernandes de Lima, na minha pequena Colégio. Encontrei alguns amigos sob a copa de um pé-de-matafome próximo ao porto das lanchas. Eles conversavam sobre o descaso das administrações das cidadezinhas e para justificarem os erros dessa ou daquela administração, melhor dizendo, da corrupção citaram esta frase desbotada: “O erro vem lá de cima”. Em seguida deram por exemplo Arruda (que não serve para remédio), o mensalão, o Congresso e outras coisas. Eu calado estava, calado permaneci. A lancha começou a buzinar. Dei até logo, desci a rampa do porto, entrei em uma delas. A pouca distância uma música dita de “Axé” tomava conta daquele espaço. Mas apesar do sol escaldante, a brisa tocava com suavidade a minha pele, fazendo-me pensar a respeito do sistema político, principalmente nas cidadezinhas. O vai e vem de mandatos não se renovam. As praças continuam as mesmas. Servidores não são valorizados. Quando o gestor é cínico, os médicos atendem os pacientes, transcrev

O livro

Houve um tempo em que eu reclinava a minha cabeça sobre ti. Nos momentos de frio, você cobria com as suas páginas sábias e ardentes meu peito. Quando tinha sede, bebia da sua fonte e dela me banhava para me purificar das impurezas do coração. Com os mais puros e singelos fonemas, vestia a minha nudez. As tuas páginas registram o embrião do mundo e dos homens. Mesmo assim, elas se entrelaçam e neste labirinto as interrogações surgem. Apesar desses minotauros , eu as degusto tranquilamente sob uma árvore. Você é o único de braços abertos no móvel de casa. Meus Cadernos, 1997.

Oscilação

O vaivém retido nos meus olhos me põe em estado de estátua. Minha aparência de dentro me dá uma face de vários ontens, consumindo-me inteiro. Ondas se levantam e me sacodem a beira de minhas pálpebras cansadas. Ondas que não vem do mar, mas de mim. Meu corpo não se importa com a agitação das bocas, das palavras, das pernas exaustas e urbanas... Alguma coisa mexe, se aloja, faz ninho. Minhas são as horas cheias de calma num balanço das ondas… Meus ouvidos são do ser vestido de carne que ouve apenas os sussurros oniscientes.  Essa manhã não estou para o mundo. Lima, Ronaldo Pereira de. Agonia Urbana. Rio de Janeiro, RJ, 1ª ed., CBJE, 2008.

Pequeno, mas maior que o mundo

Eu estava deitado no meu silêncio e uma súbita amiga quebrara-o, assim como eram quebradas as suas lágrimas. Ao vê-la, emudeci, vivi e senti a morte com repugnância e mal-estar.   As lágrimas dela tinham uma nobre explicação: seu filhinho, absolutamente seu; saído de suas entranhas e quentes estava adoentado. A sensibilidade daquela pobre mãe invadiu os meus tímpanos, explodindo sob os caibros o desespero, o desequilíbrio, a necessidade. Com veemência que só as mães possuem nesses momentos, ela se dirigiu a outra mãe e disse:   — Mulé, me empreste dinheiro para eu comprar remédio pró meu filho. Já fui pró SESP e lá não tem não. Procurei o prefeito e ele nem me deu atenção. Se eu não comprar remédio pró meu filho, ele pode morrer. Ele não pode ficar sem esse remédio. Lhe peço pelo amor que você tem a Deus e a seus filhos que me empreste (Os olhos dela eram duas fontes de amor, carinho, cuidado…). — É uma pena mulé, mas não tenho. Se tivesse, taria em suas mãos (Minha mãe se

Voto não é mercadoria

Eu sou do tipo que condeno o comércio eleitoral por entender que só causa malefícios a população e procria falsários, larápios, gatunos. Essa de culpar o povo porque ele vende o seu “poder” é uma ladainha da imprensa, dos incautos e dos politiqueiros cansados com a sua própria prática estúpida que os impedem de cumprir o dever de “representar o povo”. O que ocorreu e ocorre é que o voto perdeu a sua função política, social, ética, moral; tornando-se um bem material, comercializável, pechinchado; o que nos causa vergonha. Para compreender com maior clareza, faz-se necessário voltar nossos olhos para a fonte primária, isto é, os municípios. Tudo tem início nos municípios, por meio de cabos eleitorais e vereadores. Esses profissionais do comércio eleitoral entendem que o voto é matéria-prima negociável, lucrativa, devendo ser repassada para frente no tempo certo e na hora certa. Essa negociação se intensifica nos períodos eleitorais, tornando-se uma mercadoria mais cara. O que na verdade