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Mostrando postagens com o rótulo Prosa poética

A Oswald redescoberto

— O Brasil foi descoberto ou descobrido? — Não. Ele foi achado! — Despido? — Rapaz, ele foi vestido. — O Brasil quando foi achado, estava pelado. — Não tinha frio, nem resfriado. — Mas quando vestiram-no, sentiu frio e resfriado. LIMA , Ronaldo Pereira de. Agonia Urbana. Litteris Ed.: Quártica, Rio de Janeiro, 2009.

Biritando com Baco

No copo é colocada a loira q ue reunia n a mesa algumas pessoas. Mas meu copo esquecido e la não enchia, a penas me excluía a pesar de biritar com Baco. Eu estava bem trajado, mas d esempregado e o que vale é o alto q ue não tinha Baco me olhava. A loira sumia n o meu copo rasgado. Que mexia com o corpo d escoberto a dureza de excluído, i ncluído todo dia.

João sem São

É tempo de João, de prece e de Gonzaga. É tempo de bomba, chuvinhas, milho assado. É tempo de cavalgada, de rostos pintados, de arrasta-pés. È tempo de fumaça, de olhos ardentes, de poluição. É tempo de cheirar a fumaça, de beijar na fumaça, de beber na fumaça. Esse é um dos tempos no tempo.

Desencontro

A menina não saiu no meio da noite. Ela fugiu com o sonho na boca e não voltou mais. Encheu a boca de orvalho e foi de cara nua… A menina que parecia solta, foi levada pelo encanto de sua sombra ao pé de um poste. A rua, naquela noite, não a quis mais. Amanhã é outro programa.

Ao meu corpo que foi de pó

Foi a palavra na ponta dos dedos. Foi a briga do peito, a espada das incertezas... Foi o esqueleto na ponta dos pés, as mãos tocando as árvores, a fruta que o intervalo chamou. Foi a serpente de cima de uma árvore, a luz que surgiu, os olhos que se abriram. Uma coisa nova surgiu, na calma e na alma.O céu parou, o livro se abriu, as portas se fecharam e um novo mundo surgiu.

A vela

A vela só é vela enquanto não acesa. Depois de acesa, o pavio alimenta a flâmula. Depois, logo depois, o pavio se vira e apaga-se; as trevas recaem como no último fôlego e a chama sai sem pressa numa fumaça. Ela se foi e outra se acendeu.

Um após outro

Um dia chama outro, puxa outro, engravida E pari a velhice. Um dia abraça outro, estende a mão para outro Mas se encolhe sem a outra. Um dia beija outro, morre sem o outro Morre sendo dia .

Horasão

Nesse exato momento a horasão do relógio não impede que alguém passe à noite com o estômago vazio. Nesse instante de segundos, alguém está no relento namorando o frio colchão da rua. Nesse exato momento o relógio não se cansa das preces. Preces de morte, de loucura, de estrelas fugitivas... Nesse instante alguém não percebe a folha caindo, nem uma criança, um velhinho ou uma perdida bala. Nesses momentos, instantes nus de uma horasão sem cor; o fiel cristão do tempo, da vida ora alegre, ora triste. Hora tão banal, hora tão medíocre. E a horasão do relógio não recomendou a alma do morto a Deus. Meus cadernos, 1997.

Sobre a exclusão

Se nos teus pés falta chinelo é porque alguém está calçado nele. Se na mesa falta pão é porque alguém o comeu. Se no teu corpo falta roupa é porque alguém está vestido nela. Se não tens lazer é porque alguém ocupa o teu espaço. Se no bolso falta dinheiro é porque alguém o retém para si. Se no teu quarto falta remédio é porque alguém tomou para si. Se te falta alegria, prazer; é porque fostes roubado... Só o que não te falta é a velhice e ninguém quer tomá-la para si.

Céu de caibros

Estamos sujeitos as ideias. (Não é o da gramática) Olho no teto e vejo telhas (Meu céu), Caibros, ripas, linhas, fios E um vaga-lume que depende de mim para brilhar. Olho o céu. Ideias diferentes, do além. Então, começo a descobrir o mundo que está tão perto de mim. O mundo suspenso, abafado e úmido. Então vamos dormir — Que calor! Amanhã é outro dia!