O vendedor de cocadas

Deparei-me com o vendedor de cocadas outro dia desses, quando andava tranquilamente pelas ruas daquela cidadezinha. Ele tinha aproximadamente um metro e setenta e cinco de altura, olhos esbugalhados, vestido à Caruaru, meio bojudo, sorriso largo, calçado com chinelo de dedo. Ele empurrava um carrinho de mão, dizendo: “Oi a cocada!”. Seu vozeirão chamava a atenção de quem por perto passava.

Lembrei-me dele nos arrastões, da enorme bandeira que carregava estampando o número do candidato, dos dias de embriaguez, da euforia e cansaço dos comícios, das piadas, picuinhas tão comuns nas pequenas cidades que para nada servem.

Lembrei-me, também, do dia cinco de outubro do ano passado. Neste dia, quando o resultado de boca de urna saiu, uma turba de pernas, risos, lágrimas, abraços, invadiram a avenida onde se localizava o maior colégio eleitoral daquela cidade. Alguém filmava aquele calor, aquela euforia. O vendedor de cocadas se aproximou do cinegrafista amador e disse: “Minha cidade agora saiu do buraco. Pode filmar. Filme!”. E saiu saltitante.

Diante dessa lembrança, pensei: “Passou a politicanagem. Ficaram os ressentimentos, as mágoas, as brigas. Sei de uma verdade: governo vai, governo vem. Permanecem as pessoas, os eleitores, as intrigas, a corrupção, a irresponsabilidade. E a vida do vendedor de cocadas e de tantos outros permanecem a mesma: sem esperança, saúde, educação, lazer, trabalho e moradia”.

Ele continuou a labutar sob o sol seu pão e eu segui meu rumo, na ruma das incertezas.

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