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20 de ago de 2010

Biritando com Baco

No copo é colocada a loira que reunia na mesa algumas pessoas.
Mas meu copo esquecido ela não enchia, apenas me excluía apesar de biritar com Baco.
Eu estava bem trajado, mas desempregado e o que vale é o alto que não tinha
Baco me olhava.
A loira sumia no meu copo rasgado.
Que mexia com o corpo descoberto a dureza de excluído, incluído todo dia.
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23 de jun de 2010

João sem São

É tempo de João, de prece e de Gonzaga.

É tempo de bomba, chuvinhas, milho assado.

É tempo de cavalgada, de rostos pintados, de arrasta-pés.

È tempo de fumaça, de olhos ardentes, de poluição.

É tempo de cheirar a fumaça, de beijar na fumaça, de beber na fumaça.

Esse é um dos tempos no tempo.
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10 de jun de 2010

Desencontro

A menina não saiu no meio da noite.

Ela fugiu com o sonho na boca e não voltou mais.

Encheu a boca de orvalho e foi de cara nua…

A menina que parecia solta, foi levada pelo encanto de sua sombra ao pé de um poste.

A rua, naquela noite, não a quis mais.

Amanhã é outro programa.
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26 de mai de 2010

Ao meu corpo que foi de pó

Foi a palavra na ponta dos dedos.

Foi a briga do peito, a espada das incertezas...

Foi o esqueleto na ponta dos pés, as mãos tocando as árvores, a fruta que o intervalo chamou.

Foi a serpente de cima de uma árvore, a luz que surgiu, os olhos que se abriram.

Uma coisa nova surgiu, na calma e na alma.O céu parou, o livro se abriu, as portas se fecharam e um novo mundo surgiu.
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8 de mai de 2010

A vela


A vela só é vela enquanto não acesa.

Depois de acesa, o pavio alimenta a flâmula.

Depois, logo depois, o pavio se vira e apaga-se; as trevas recaem como no último fôlego e a chama sai sem pressa numa fumaça.

Ela se foi e outra se acendeu.
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Um após outro


Um dia chama outro, puxa outro, engravida
E pari a velhice.
Um dia abraça outro, estende a mão para outro
Mas se encolhe sem a outra.
Um dia beija outro, morre sem o outro
Morre sendo dia
.
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17 de mar de 2010

Horasão


Nesse exato momento a horasão do relógio não impede que alguém passe à noite com o estômago vazio.

Nesse instante de segundos, alguém está no relento namorando o frio colchão da rua.

Nesse exato momento o relógio não se cansa das preces. Preces de morte, de loucura, de estrelas fugitivas...

Nesse instante alguém não percebe a folha caindo, nem uma criança, um velhinho ou uma perdida bala.

Nesses momentos, instantes nus de uma horasão sem cor; o fiel cristão do tempo, da vida ora alegre, ora triste.

Hora tão banal, hora tão medíocre.

E a horasão do relógio não recomendou a alma do morto a Deus.

Meus cadernos, 1997.
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25 de dez de 2009

Sobre a exclusão













Se nos teus pés falta chinelo é porque alguém está calçado nele.

Se na mesa falta pão é porque alguém o comeu.

Se no teu corpo falta roupa é porque alguém está vestido nela.

Se não tens lazer é porque alguém ocupa o teu espaço.

Se no bolso falta dinheiro é porque alguém o retém para si.

Se no teu quarto falta remédio é porque alguém tomou para si.

Se te falta alegria, prazer; é porque fostes roubado...

Só o que não te falta é a velhice e ninguém quer tomá-la para si.
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17 de dez de 2009

Céu de caibros


Estamos sujeitos as ideias.

(Não é o da gramática)

Olho no teto e vejo telhas (Meu céu),

Caibros, ripas, linhas, fios

E um vaga-lume que depende de mim para brilhar.

Olho o céu.

Ideias diferentes, do além.

Então, começo a descobrir o mundo que está tão perto de mim.

O mundo suspenso, abafado e úmido.

Então vamos dormir

— Que calor!

Amanhã é outro dia!
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