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20 de jul de 2012

A alma e as ruas

Ontem o meu coração estava nas minhas tripas e uma sensação ruim me acompanhou. As luzes dos postes não me traziam nenhuma novidade. Em mim, várias faces que não me definia. Vi-me perdido nas ruas e o tédio me afagava. Estava só, num estado de graça e angústia. 

No bar, o copo de cerveja na minha frente, gelado, suando, não me desmanchava. O queixo tremeu, a pele tornou-se diferente. As vozes iam, viam e não me interessavam.
Levantei-me e sem rumo e sem leme fui andando no meio das intempéries, levado pelas havaianas. Senti uma vontade de nascer de novo. Perguntava aos céus o que eu estava fazendo ali. Como resposta nenhuma veio, senti-me solto, jogado no mundo como se estivesse pagando uma pena.

Dentro de mim vozes entravam de formas diferentes, formavam fatos e atos. Para quem ou para o quê, não sabia. Sei que aquele dia não me foi diferente, pois sentia a sequência de anteriores que se repetiam com dramas e sustos repentinos. Ia, ia sem perder a direção. 

As ruas nem largas, nem estreitas me espreitavam sem vaivém, sozinhas no meio do caos. Uma sombra deslocada da minha carne rugiu forte e as meninas massificadas passaram alegres, sorridentes.   
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1 de jul de 2012

Historinha

O menino pedia para a mãe por uma historinha. Impaciente, olhando de um lado para o outro como se um mico pagasse, disse a alguém que a acompanhava:

— Todo dia é isso: este menino inventa alguma coisa. Agora quer uma historinha. (Meneando a cabeça).

A reclamação dela não conseguiu vencer a curiosidade dele. Dirigiu-se a um revisteiro e decepcionou-se, pois, as historinhas que ele queria não estavam ali. A mãe, aborrecida, pegou-lhe pelo braço, dirigiu-se ao caixa de atendimento, pagou a conta e se foi.

E aquele pequeno leitor será  interrompido por quem historinhas deveria lhe dar. 
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12 de mai de 2012

O pescado



Estávamos na lancha. Ao meu lado, Mário pescava. Eu topei em seu ombro direito. Então, ele abriu os olhos esbugalhados para mim. Perguntei-lhe:

 Quanto custa o quilo do peixe? Sem compreender, respondeu:

 Qual? A tilápia, o tambaqui, o piau...?

Norma, que diante de mim se encontrava, caiu; mas de gargalhada. Eu ri também junto com ela. Mário ficou meio constrangido, percebeu o gracejo e disse:

 Você e suas frases tiradas do baú!

Ainda rindo, retomei o diálogo, dizendo-lhe:

— Se fosse do baú, ela não estaria impregnada em nosso corpo. Mário, quando o cesto estiver cheio, você me diz quanto custa o pescado da sua pescaria.
E atravessávamos o rio na trepidez da lancha e das gargalhadas.



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22 de abr de 2012

Com os covos na mão


Marulhava as águas sobre as pedras. Nelas, um hóspede inesperado ancorou o barco. Espreitou de um lado, do outro para ter certeza que estava a sós. Ele e os covos, ele e o marulhar das águas numa noite densa e fria.
As pupilas se dilataram, o coração pulsou com mais força, a pressa apareceu e na ânsia, via tudo a sua volta com desconfiança. Dentro da madruga só os olhos brilhavam atentos, espreitando e estreitando os intentos que emergiam dos circuitos elétricos vindos do cérebro.
Avistou de longe um tronco de uma árvore rio abaixo, assustou-se pensando que era uma canoa. O susto passou, mas ele ficou com a desconfiança no peito e os covos na mão.
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20 de jan de 2012

Eu não fiz com o dedo

— Amiga, não sei o que fazer. Tô grávida, meus pais não sabem e tô desesperada. Me der uma luz!
— Não sei como dar luz a uma grávida. A única coisa que sei é que ela brilhará daqui a nove meses. (risos)
— Deixe de brincadeira. Tô falando sério! Não sei o que fazer.
— Já falou para ele?
— Ainda não! Tô com medo dele me rejeitar e eu ser mais uma mãe solteira.
— Amiga, se ligue! Essa criança não é só sua. Se ele não quiser assumir, você vai e denuncia na Justiça e Pronto. Vai deixar de graça, é?
— Não amiga! Tôu tão confusa e com medo. Os homens são estranhos. Diz que gosta, quer ficar com a gente e quando acontece isso, eles fogem como diabo da cruz. Ainda dizem que a gente é complicada.
— Amiga, deixe de bobagem. Você fez com o dedo, por acaso?
— Não!
— Então! Tente conversar com ele. Ele não diz que gosta de você. Que sempre estar com você em tudo que é festa?
— É!
— Então! Vou telefonar para ele agora.
— Não sei.
— Ligo ou não ligo. Dicida logo isso e acabe com essa agonia.
— Ligue.
Paulinha discou o número e disse-lhe que Martinha o aguardava na lanchonete do Bira. Antes de ele chegar, Martinha estava apreensiva, ansiosa. Dentro de sua cabeça os fatos já estavam concretizados: ele ficaria desesperado, alegando que era jovem demais para assumir tal responsabilidade, que ela teria que abortar; custe o que custar. E se ela não fizesse isso, ele a deixaria. Enquanto ele não chegava, esse era o seu espinho na carne.
Quando Barnabé chegou, beijou a face de Paulinha e em seguida deu uma bituca em Martinha. Nervosa e motivada pela amiga, não fez arrodeio. Foi direto ao ponto:
— Estou grávida!
Ficou sério por alguns instantes. Depois riu, deu-lhe um beijo cálido, riram e comemoram por ali.


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23 de dez de 2011

Galrão

Eram sete horas da manhã. Desci a rampa do porto, entrei na lancha e sentei. De onde estava, via o céu nublado e nele um arco-íris enfeitando a manhã.

Enquanto folheava a Gramática, uma mulher conversava o tempo todo como se tivesse necessidade de fazer aquilo durante toda a viagem. Com o cigarro entre os dedos e os lábios, chamava a minha atenção. Olhei algumas vezes para ela, para a pose que só os fumantes têm, dei uns sorrisos contidos e retornei para a Gramática, deliciando-me com os verbos de ligação.

E porali fiquei alternando de um estado para outro, sem me incomodar com a trepidez da lancha, nem com a tagarelice dela.
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7 de nov de 2011

A pressa e a prece

Olhou para o relógio azul de ponteiros vermelhos e números pretos que estava na parede branca da casa. Quando se deu conta, as horasões contínuas estreitaram seu tempo, fazendo-a apressar o coração, os passos e a ansiedade.
— Já vai mulé? Tá cedo!
— Tenho que ir. Tenho umas coisas para cuidar.
— Obrigado pela visita. Quando vem passar um final de semana com a gente?
— Qualquer dia desses. Quando sobrar um tempinho eu apareço.
— Minha amiga, não se torne uma xepa. Para que tanta correria. A vida estar passando e é tão curta. Sua correria vale a pena? Pense um pouco nisso.
— Não se preocupe. Próximo ano estarei mais aliviada. Se Deus permitir, a gente ainda vai se ver muitas vezes, colocar os assuntos em dia e relembrar as nossas andanças de solteirice. 
 — Tchau!
 — Tchau!
E  o relógio simplesmente continuou com o seu tique-taque e Maria fechou a porta pela última vez para a amiga, lembrando-se da pessoa alegre que era, mas sempre apressada, tomando aquele café ligeiro.

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17 de set de 2011

Na boquinha da garrafa

Eram três os que na lancha entraram. O primeiro carregava bolsas plásticas contendo quinquilharias, o segundo trazia na mão esquerda uma garrafa de pinga e o último trazia moedas em uma das mãos. Sentaram-se no banco de madeira.

Conversavam algumas coisas, balbuciavam outras, entre risos e irritação. O homem que segurava as moedas se dirigiu para o mais jovem do grupo. Alterado, disse-lhe:

—O que você tá dizendo, seu porra? Caralho!

— Nada não. Tá doido é?

Aquele que segurava a garrafa interferiu, dizendo:

— Vamo pará com essa arenga besta. Seus dois bestas! Vamo toma é mé.

Pegou a garrafa, tomou um gole, passando-a de mão em mão; retornando as suas conversas com frases e gestos curtos. Somente a garrafa, com sua boca circular e áspera, aceitava aqueles beijos bacanais.

O restante dos passageiros deixou as estripulias deles prá lá, voltando-se cada um para seus estados de espírito.

Os rostos eram tão diferentes, as histórias psicossociais, os sofrimentos escondidos no mais secreto do coração, no mais profundo miolo do pote onde ninguém consegue penetrar.

E eu estava incluído neles também. Os via, não com os olhos que lacrimejam, mas com aqueles que não se veem.
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24 de ago de 2011

As casas se tornaram éclogas

Estava no quintal observando a vida e a sua variada existência. Observava também as coisas inanimadas corroídas pelo tempo que tudo envelhece, que a todos conduz a morte.


As nuvens se tornaram plúmbeas, tirando-me de Sofia. Entrei em casa, olhei de soslaio para mamãe que consertava uma toalha de redendê; dirigindo-se à sala de visitas.

O céu estremeceu espalhando o medo nas ruas, as pessoas se recolheram para as suas casas, Mimi correu para debaixo da cama, mamãe foi às pressas tirar as roupas do varal, faltou energia e eu fiquei vendo o mundo da janela.

Depois de alguns minutos a energia voltou somente em uma das fases. Na quadra em que morava só um poste estava acesso parecendo palco de teatro em meia-luz. Envolto dela, as gotas, os besouros rodopiavam.

Estiou.

Fui à porta, pus a mão na maçaneta e um vento frio possuiu a minha pele. Pouco a pouco as coisas normalizaram: os narizes apontaram nas soleiras, os assentos nas praças tinham novidades de uma árvore que fora partida por um relâmpago, que há muito não se via um toró assim, que algumas ruas ficaram alagadas...

Da porta disse:

— Mãe, vou ali!

— Ali aonde, meu filho? Mal acabou de chover e você vai sair?

— Vou Ali!

E saí sem hora certa para voltar.
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7 de jul de 2011

O sorriso de Nizinho

O pré-púbere o acompanhava. Ao perceber, adiantou o par de tênis e a ansiedade acelerou no peito. Olhava de um lado e de outro, tendo a impressão que aquela criança se aproximava. A criança insistia em persegui-lo, dizendo:

— Por que o senhor tá em silêncio e tão apressado? Eu preciso falar com o senhor. De hoje que chamo você. Ah! O senhor não quer falar com eu, né ? Então, pare agora; se não eu atiro!

O homem parou ofegante, as pernas tremiam, o suor e a palidez apoderou-se de sua face. Volveu-se para a criança e foi recebido com um riso. Sem pestanejar, disse-lhe:

— Quando o senhor saiu da padaria deixou cair isso. Aí eu vim as pressas para devolver ao senhor.
O homem ficou pasmo, permanecendo em silêncio.
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5 de jul de 2011

Largue o meu pé

Érico não costumava ouvir a mãe. Preferia a língua dos assentos das praças. Só que aquele jeito levado dele irritava a sua mãe que todos os dias chamava-o para ir à escola. Era assim:

— Ô Érico, meu filho, não vai hoje prá escola não? Só que tá nais bancada. Vá tomá banho, vá. Já tá na hora de ir prá escola, menino!

Ele deixou os colegas no assento, entrou irritado, volveu-se ela e disse::

— Como é que a senhora fala desse jeito comigo, na frente de meus amigos. Ficaram tudo mangando de mim.Tá bom deu não ir prá escola nenhuma.

Ela o olhou cuidadosamente e disse:

— Se você não tem o que querer. Enquanto você viver debaixo da minha vista, terá que me obedecer. Se não, arrume as suas coisas e vá embora. Você já tá bem crescidinho. A vida é quem ensina.

E deu-lhe as costas, indo à cozinha.Ele nada disse. Pegou a bolsa e foi à escola, não por vontade livre, mas pela imposição da mãe.

As ruas, naquele dia, estavam pálidas e tudo o que nelas haviam. Somente a revolta, o tédio, as frustrações o acompanhava. Para ele a escola nada significava. No trajeto se encontrou com Mota, seu vizinho, que também não era muito de estudar. Aproximou-se do amigo, pôs o braço em seu ombro e com um riso libidinoso, iniciou este diálogo:

— Érico, nóis vai hoje [1]gaziar. Vamo procurá as meninas e namorá com elas. Vamo?

— É Mota, vamo mermo! Depois a gente toma uma. Já tôu mesmo com raiva.

— Vamo lá. Fernanda tá com uma blusinha! Só você vendo.

E se foram corando as ruas e esbanjando a libido.

[1] Matar aula.
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18 de jun de 2011

A serva


Quando percorreu as linhas horizontais do bilhete, notou a deficiência da grafia, da ortografia, do ensino fundamental. Eram dizeres rústicos, pueris, seguidos de entusiasmo e contentamento. Tratava-se de mais uma na infinita lista da libido.

Nele estava pedidos de desculpas, lamentações de um encontro realizado amargo; simplicidade amarela. A esperança não adornou mais o eu, murchou, caiu. Sentimento de culpa, pedido de entendimento. As palavras não explicavam o código. Uma saudação carinhosa.

Ela dizia: “ (...) eu gostaria...o que eu...eu jamais vou esquecer...quando eu chegar (...)”. Estas eram as palavras de quem desconhecia seus próprios sentimentos, utilizando de vocábulos espontâneos; emergido do íntimo.

Apesar de as palavras serem escritas com tinta azul, eram tortas, tontas, avermelhadas que expunha o ser vestido de carne no papel, vindo com ímpeto de dentro para dentro... Uma pintura na íris.

— Você está partida em pedaços. Tenho nas mãos os sentimentos e a linha para coser a roupa das lágrimas. Um hálito suave ameniza a perda. As cicatrizes trarão aos olhos as lembranças.

Mas o insistia: “(...) te adoro...muito bom...encontra com você... o que cinto... não...escrever...gosto de você...demais...tchau...beijo....abraço....ass...” esqueceste do “S” e fizeste cinto, que te aperta de uma só vez, várias... o teu nome é um sigilo cardíaco nas asas do pássaro e na liberdade do vento.

Guardarei com afeto natural o teu estado de emoção. Olharei as linhas verde das folhas e verei escrito nada a teu respeito. Este é o meu sigilo verde, mudo.
Outubro de 1997.
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3 de abr de 2011

A espectadora


            Carregava no corpo o cansaço que se acumulou durante seus setenta e cinco anos. Anos estes nada fáceis: sofreu passivamente com os insultos das raparigas, dos bafos incontáveis de cachaça e com os partos complicados.

O corpo, acomodado, não recepcionava as novas tecnologias como muitos da sua idade. Feito uma gata, esparramava-se no sofá, cochilava; depois vai para a cama, fica por lá algum tempo e senta-se numa confortável cadeira. De lá ocupavam os dedos com as bolinhas do terço, mas os olhos estavam voltados para os movimentos da rua.
A reza acabou. Os olhos deixaram à rua e os filhos apareceram em sua mente; um por um. Eles eram a sua mais séria preocupação.  Intrigas, fofocas, ciúmes, calúnias. Mesmo assim conviviam indiferentes e hipócritas. Esses fatos a entristeciam a ponto de suplicar no silêncio a morte. Uma lágrima envelhecida umedecia os sulcos da face.
Ela pensava: Eu os pari. Cuidei deles com amor, carinho. Fiz de tudo para eles estudarem, arranjar emprego. Quando o pai era vivo, todos vinham para as festas que ele fazia. Hoje, sumiram. Às vezes é que aparecem. E quando aparecem é para mim fazer raiva. Eu deveria na minha velhice ter era paz, sossego e não tanto sofrimento.
Esses eram os pensamentos que lhe causavam angústia, pois, via-os tomar cada um o rumo de sua natureza. Lamentava o seu estado deplorável. Faltava-lhe vigor para interferir como dantes, deixando o simples lugar de espectadora e interferindo em suas vidas, seus destinos. Hoje, ela não passava de uma simples espectadora das preocupações que seus filhos lhe causavam.
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22 de jan de 2011

O troco

Esquentou, durante toda a manhã, a cabeça por causa da miserável burocracia pública; aborrecendo-se principalmente com as infelizes informações desencontradas que o punha em um estado de nervos paranóico.

Após toda essa coisa medíocre, seguiu para uma agência bancária. Nela, esperou na fila com o estômago doendo, a alma e os pés. Somente uma daquelas figuras envelhecida, ouvindo em um celular e cantando aquelas músicas de camelôs piratas o fez rir.

Ao chegar sua vez de ser atendido, a bancária nem olhou em sua face. Pediu-lhe o boleto, pôs na máquina para fazer a leitura do código de barras, disse-lhe o valor (que ele já sabia) e o esperou pagar. Com o dinheiro em mãos, calou-se, deu a ele o comprovante de pagamento e chamou o próximo cliente. Sem sair da fila, disse:

— Moça, o troco!

— Só são R$ 0,20.

— Moça, meu troco. Já paguei impostos demais nessa repartição e nem água tem para beber. Quero o meu troco!

— Mas eu não tenho aqui!

— Mas eu quero o meu troco!

A bancária, que se chamava Léia, amarrou a cara, voltou-se para a sua colega e a pediu emprestado os centavos. Algumas pessoas olharam para eles, outras sussurraram. 

Ele, no entanto, saiu com esta reflexão: “Ela queria se apropriar do meu dinheiro como se tivesse pago a minha conta. Acha que o setor público nos prestam simples favores, fazendo de desentendida. Eu poderia até deixar o troco, mas ela se apropriou da minha vontade de decidir, sem ao menos perguntar se eu poderia deixar ou não os centavos.”
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25 de nov de 2010

Mendigo na feira



Estávamos em um bar rindo e olhando as garotas passarem. Um mendigo passou, mas ele resolveu dar meia-volta e parou diante de nós. Meio capenga, movia-se ao som da música nos fazendo rir. Ele pediu uma dose de cachaça e ficou porali.

O dono do bar amarrou logo a cara em alguma parte do bar onde era impossível de ser visto.  Ele se aproximou, pegou-lhe pelo braço e o pôs para fora feito cão sarnento.

No outro lado da rua as bolsas iam e viam. O pirata, com seu som estridente, tocava uma brega. Movido pela música, o mendigo dançava com uma parceira invisível, fora de ritmo; expondo um riso cariado. Algumas pessoas riram, outras o desprezavam, enxotando-o. 

Depois das risadas e do desdém, a esmola veio de costume: magra, áspera, fria, vazia; tornada apenas um hábito por causa das ideias cristãs. E ele seguia seu caminho abraçado com Dionísio, escárnio e ruindade.


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7 de nov de 2010

Deus não é religioso

Muita gente vive com Deus na ponta da língua. Isso não é uma novidade. Apenas uma rotina. Mas vez outra me deparo com essas pessoas e as diferentes formas de elas “entender” a palavra de Deus. E, nesses montículos insipientes de pessoas, noto que Deus está na língua e não no coração.
Deus não pode ser confundido com religião. Não se pode externar as doutrinas dessa ou daquela religião e impô-las como únicas e verdadeiras. Todo conhecimento, seja científico ou não, deve ser questionado. O que mais me aborrece são aquelas discusões religiosas bestializadas que para nada servem; e servem: para o aborrecimento e a indiferença.
 
O que percebo é que Deus tornou-se um hábito na língua e uma prática religiosa. Por isso, me defino um homem sem religião. Um homem sem religião não é um homem sem Deus, como pensam os alienados; porque Deus não é religião. Um homem sem religião não é um homem à toa, como pensam aqueles que são contrariados; porque a Bíblia é o único guia a ser seguido.
 
Portanto, não se fiem em doutrinas, costumes, rituais, tradições e outras tolices religiosas, [i]por que disse o apóstolo da incircuncisão: “E ainda que distribuísse todos os meus bens para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria”.
Taí o recado do apóstolo para aqueles que preferem religião ao amor.

[i] BÍBLIA SAGRADA. Epístola de Paulo aos Coríntios, capítluo 13:3.
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5 de set de 2010

Ruas vazias e solitárias


Vestiu a bermuda surrada e nem se deu conta. A mãe balbuciou alguma coisa, mas ele meneou a cabeça e saiu. Lá fora, as ruas estavam vazias e solitárias para os seus pés. Durante o trajeto, pensava: 
— Amei-a sem limites. Doei-me sem interesses pessoais. Ocupei-me com os problemas dela, vivendo-os como se fossem meus. Mas, o que me restou? Restou-me a humilhação, o cansaço e a chacota. Além disso, mamãe fica no pé, azucrinando a minha cabeça para eu não cair mais numa daquelas.
Caminhando pelas ruas daquela pequena cidade não surgiu um ouvido, uma língua, um olhar terno, meigo que lhe servisse de bálsamo. A alma, movendo-se de amor e para o amor, encharcava-se de angústia. Muitas vezes sentia-se perdido e tinha a sensação de estranhamento de si e das coisas.
Alguém o chama. Ele ergue a cabeça, reconhece a turma que estava na porta de um mercadinho e se dirige para lá. Ali, a mesmice parara e nela sua integridade fora violada, sua solidão, seu solteirismo posto em dúvida. Então, na sua serena aparência, elástica compreensão, saiu tranquilamente com o olhar voltado para o chão, a procura de algo que os seus interlocutores não veem.
Convencido de que aquelas pessoas eram tolas, mas nem por isso as julgavam, pensou:
— A vida neste lugar tornou-se um ciclo: a violação da vida alheia, da solidão, da opinião política; além dos gracejos inconvenientes, recheados de críticas e desdém na variedade de risos. Eles são bobos. Não entendem a vida. Prendem-se demais em coisas fúteis, medíocres. São tontos! Não percebem, não vivem e; vivem dos outros, para os outros. Não ousam nem explorar as profundezas das ideias, dos pensamentos, das emoções. A maioria deles vivem no abismo, na escuridão das suas próprias angústias.
Houve um tempo que essas manias dos seus conhecidos o perturbavam, deixando-o sem direção, sem rumo e muitas vezes, quando deles se afastavam, os olhos rasos de lágrimas. Só que ele esvaziou tudo isso de si quando percebeu a tolice de cada um deles e a não culpabilidade. Afinal, era apenas uma reprodução de hábitos; maldosos, mas um hábito.
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23 de jul de 2010

Correndo do amor

Sentada no banco da praça e de cabeça baixa, soluçava. O soluço era resultado de uma paixão inacabada que a punha numa situação dolorosa. As lágrimas desciam impetuosas pela face e a mente se metia em confusões, as malditas confusões.
 
A única coisa que conseguiu naquele momento foi desejar alguém por perto, algum amigo para lhe afagar, doar uma palavra de carinho, conforto. Mas as lágrimas, as infelizes lágrimas era quem lhe faziam companhia. Ah, que triste companhia que alguém pode ter num momento como este!
Sentiu uma mão tocar seu ombro. Assustou-se! Sem olhar para trás, nem pensar duas vezes, levantou-se com pressa e saiu correndo. Corria, corria e já não sabia por que corria. O homem que a tocara sentou-se no banco esperando-a porque sabia que ela voltaria no meio da noite. Então ele riu para si, ria para o silêncio, ria apenas.


PORTO LITERÁRIO, ANO II – N.º 54 – DE 06 OUTUBRO - 2003.
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21 de jul de 2010

Círculo da morte

Um bem-te-vi estava entre galhos. Anunciava que viu, mas não dizia o quê. Os galhos balançavam, as folhas farfalhavam com as malinações do vento (Bento). A relva estava verde e o sol espalhava-se sobre ela em gotas de orvalho. Um pardal pipila e voa, sendo substituído por um voo circular sob nuvens branquérrimas e um céu anil. Então as minhas pálpebras se quebraram nesse dia.
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14 de mai de 2010

Dia, depois noite

É dia.

Levadas pelo vento, elas se mesclam ao anil do céu. O sol, por sua vez, esbanja-se pelas ruas, calçadas. Depois vem a noite, sem nuvem alguma; mas carregada de estrelas.

Mas de repente as nuvens mudam de cor, os trovões surgem, os relampagos fazem faltar energia, Mimi foge para debaixo da cama e Zeinha se assusta, dizendo que o coração palpita na boca.
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