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11 de abr de 2010

Miolo, que não é de pote


No fundo da consciência, onde se esconde a traça dos pensamentos; onde fica retido o mofo de armário e se esconde a hipocrisia, chora uma criança perdida de medo, em meio a uma luz baça e comprida.

No fundo da consciência muita coisa acontece sem que ninguém veja. Lá, no miolo insondável o mundo gira elétrico, a mente flui como num eclipse.


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4 de abr de 2010

Andando de lancha

Vinha tranquilamente pela Fernandes de Lima, na minha pequena Colégio. Encontrei alguns amigos sob a copa de um pé-de-matafome próximo ao porto das lanchas. Eles conversavam sobre o descaso das administrações das cidadezinhas e para justificarem os erros dessa ou daquela administração, melhor dizendo, da corrupção citaram esta frase desbotada: “O erro vem lá de cima”. Em seguida deram por exemplo Arruda (que não serve para remédio), o mensalão, o Congresso e outras coisas. Eu calado estava, calado permaneci.
A lancha começou a buzinar. Dei até logo, desci a rampa do porto, entrei em uma delas. A pouca distância uma música dita de “Axé” tomava conta daquele espaço. Mas apesar do sol escaldante, a brisa tocava com suavidade a minha pele, fazendo-me pensar a respeito do sistema político, principalmente nas cidadezinhas.
O vai e vem de mandatos não se renovam. As praças continuam as mesmas. Servidores não são valorizados. Quando o gestor é cínico, os médicos atendem os pacientes, transcrevendo a receita em pedaços de folhas A4, as perspectivas dos jovens nem a dos adultos se renovam. As únicas coisas que permanecem são os sentimentos vis, torpes e fúteis dessas administrações, a ganância, o conluio com magistrados medíocres.
O tó, tó, tó da lancha não me roubava às ideias, as reflexões. Afinal de constas, este é um ano eleitoral e de canalhice; até porque os comerciantes deixarão as suas tribunas, fazendo as suas ínfimas visitas as cidadezinhas comprando cabos eleitorais e usando um artifício sem graça e pálido, que é a maldita das promessas.
A minha frente alguém esculhambava a administração local. Coisa que não serve. Imaginei: “Denunciar é um dever de todo cidadão e exigir da Câmara, apesar dos receios. O judiciário inspira dúvidas. A única e sábia solução é no período eleitoral. Aí, dar-se início a um fatigante, mesquinho comércio que mobiliza milhões e muita gente. É aí onde tudo vai se repetir: as reclamações do povo, as esculhambações, os jovens calados, os puxa-sacos vibrando.
Desci da lancha na cidade vizinha com uma certeza única que carrego faz anos: enquanto o voto for tratado como mercadoria, sempre teremos leis péssimas, o SUS um matadouro, um Judiciário “harmônico” e um povo sem esperança...
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24 de mar de 2010

O livro


Houve um tempo em que eu reclinava a minha cabeça sobre ti. Nos momentos de frio, você cobria com as suas páginas sábias e ardentes meu peito. Quando tinha sede, bebia da sua fonte e dela me banhava para me purificar das impurezas do coração. Com os mais puros e singelos fonemas, vestia a minha nudez. As tuas páginas registram o embrião do mundo e dos homens. Mesmo assim, elas se entrelaçam e neste labirinto as interrogações surgem. Apesar desses minotauros, eu as degusto tranquilamente sob uma árvore. Você é o único de braços abertos no móvel de casa.
Meus Cadernos, 1997.
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27 de fev de 2010

Oscilação


O vaivém retido nos meus olhos me põe em estado de estátua. Minha aparência de dentro me dá uma face de vários ontens, consumindo-me inteiro.

Ondas se levantam e me sacodem a beira de minhas pálpebras cansadas. Ondas que não vem do mar, mas de mim.

Meu corpo não se importa com a agitação das bocas, das palavras, das pernas exaustas e urbanas... Alguma coisa mexe, se aloja, faz ninho. Minhas são as horas cheias de calma num balanço das ondas…
Meus ouvidos são do ser vestido de carne que ouve apenas os sussurros oniscientes. 
Essa manhã não estou para o mundo.
Lima, Ronaldo Pereira de. Agonia Urbana. Rio de Janeiro, RJ, 1ª ed., CBJE, 2008.
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7 de fev de 2010

Pequeno, mas maior que o mundo


Eu estava deitado no meu silêncio e uma súbita amiga quebrara-o, assim como eram quebradas as suas lágrimas. Ao vê-la, emudeci, vivi e senti a morte com repugnância e mal-estar.
 
As lágrimas dela tinham uma nobre explicação: seu filhinho, absolutamente seu; saído de suas entranhas e quentes estava adoentado. A sensibilidade daquela pobre mãe invadiu os meus tímpanos, explodindo sob os caibros o desespero, o desequilíbrio, a necessidade. Com veemência que só as mães possuem nesses momentos, ela se dirigiu a outra mãe e disse:
 
— Mulé, me empreste dinheiro para eu comprar remédio pró meu filho. Já fui pró SESP e lá não tem não. Procurei o prefeito e ele nem me deu atenção. Se eu não comprar remédio pró meu filho, ele pode morrer. Ele não pode ficar sem esse remédio. Lhe peço pelo amor que você tem a Deus e a seus filhos que me empreste (Os olhos dela eram duas fontes de amor, carinho, cuidado…).

— É uma pena mulé, mas não tenho. Se tivesse, taria em suas mãos (Minha mãe se comoveu e as lágrimas dela se uniram as da amiga).

E o “não”, vindo da boca e das lágrimas da minha mãe nunca me saiu da cabeça, assim como aquela criança, o criminoso público, a falta de dinheiro. Naquele momento multiplicaram-se por dois o desespero, a angústia e o medo.
 
E foi ali, naqueles instantes que vi uma flor perdendo a beleza e cair de tanta dor. E o número pequeno (seis) foi maior que o mundo.
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9 de jan de 2010

Voto não é mercadoria

Eu sou do tipo que condeno o comércio eleitoral por entender que só causa malefícios a população e procria falsários, larápios, gatunos.

Essa de culpar o povo porque ele vende o seu “poder” é uma ladainha da imprensa, dos incautos e dos politiqueiros cansados com a sua própria prática estúpida que os impedem de cumprir o dever de “representar o povo”.

O que ocorreu e ocorre é que o voto perdeu a sua função política, social, ética, moral; tornando-se um bem material, comercializável, pechinchado; o que nos causa vergonha.

Para compreender com maior clareza, faz-se necessário voltar nossos olhos para a fonte primária, isto é, os municípios. Tudo tem início nos municípios, por meio de cabos eleitorais e vereadores. Esses profissionais do comércio eleitoral entendem que o voto é matéria-prima negociável, lucrativa, devendo ser repassada para frente no tempo certo e na hora certa.

Essa negociação se intensifica nos períodos eleitorais, tornando-se uma mercadoria mais cara.

O que na verdade ocorre é um comércio milionário, irresponsável, imoral; configurando-se no banditismo e em práticas ilícitas, caracterizadas pela corrupção e impunidade.

Não se pode culpar o povo por essas práticas mesquinhas, apesar de ele participar delas de forma inconsciente; porque esses politiqueiros entenderam que sem saúde, sem educação, sem emprego; as pessoas se tornam vulneráveis.

Por isso os cofres públicos são assaltados com a ponta da caneta e o povo é julgado por uma parte de si porque concede o “poder” aqueles políticos de ficha suja.

Voto não é mercadoria. É cidadania, dignidade.
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Não seja parceiro da corrupção

A política, feita corpo a corpo, contraria toda e qualquer compreensão sobre o eleitor, sua opinião sobre o voto e como ele encara a corrupção.

A política do corpo a corpo é aquela em que os candidatos deixam as tribunas e gabinetes e se defrontam com os eleitores. Neste confronto, tanto um como o outro, estão dispostos a negociarem. O primeiro sabe que a prática é criminosa, mas se não o fizer não obterá voto e o seu adversário político fará a negociação. O segundo, eivado de vícios, estará disposto a vender, a trocar o voto porque não possui perspectiva de vida, nem de melhorias para o seu município; porque vê os políticos enriquecerem, os corruptos impunes, a Justiça se omitir e a corrupção ser escancarada nos jornais e telejornais de todo o Brasil.

Infelizmente, a maioria dos eleitores não vota pela competência do candidato, pela responsabilidade, por mudanças sociais. Parte dessa maioria não busca saber nem sequer a vida pregressa do seu candidato e, a outra parte, dita mais “culta”; não lhe dedica nenhuma atenção, mesmo quando sabe que essa vida é maculada.

Esse comportamento é típico do eleitor brasileiro, especialmente nas pequenas cidades. Não há necessidade de ser um cientista político para entender isso. Os próprios eleitores se explicam, usando frases desta natureza: Todos calçam quarenta; O erro já vem lá de cima; Quem é que não pega no mel e não se lambuza; O Brasil não tem jeito não e outras tantas que expõem a opinião vinda, não só do povo simples; mais de muita gente que carrega nos dedos anéis universitário.
São opiniões de pessoas descrentes, desesperadas, que não acreditam em si, nos outros. Pessoas que votam baseados no toma lá dá cá de forma cínica e explícita.

Em relação a isso, basta observar o frenesi do escambo e do comércio eleitoral que antecede a semana da eleição. Nessa feira livre o comércio é intenso e há todo tipo de voto: voto fiado, voto de pirraça, voto de favores, voto comissionado e por aí vai.

A corrupção é uma prática tão comum na sociedade brasileira que ela é aceita em todas as camadas sociais. É aceita por comerciantes que investem em campanhas eleitorais para mais tarde emitirem notas frias, tornarem-se marajás; promotores e juízes que se trocam por automóveis de luxo, uísque caro, aluguéis, apartamentos e outras regalias; profissionais da educação que ao invés de combatê-la em sala de aula, sobem em palanques corruptos em busca de migalhas criando na consciência de seus alunos que a corrupção não é crime, que roubar os cofres públicos é dever de casa de todos os brasileiros que possuem a chance de exercer um mandato eletivo ou outro cargo envolvendo dinheiro.

Esses profissionais contribuem para o banditismo político, para o tráfico de drogas, os pedófilos, as gangues e toda espécie de criminoso, pois, são imorais e não se diferenciam deles. Voto, política; é coisa séria. Não se deve brincar com essas coisas.

Não seja parceiro da corrupção, achando que o dinheiro é do “Governo”, que “o Governo fabrica dinheiro”. Seja parceiro de uma nação que precisa crescer e criar seus filhos com dignidade e que esses políticos não passam de simples empregados eletivos e não comerciantes.

É preciso entender que o voto é um bem que não se vende e não se troca. Enquanto o voto for visto como mercadoria, teremos nas câmaras de vereadores, nas assembléias estaduais e no Congresso Nacional uma variedade de parlamentares que só contribuirão para o banditismo e para assaltar de mão armada, digo, de caneta armada os cofres públicos e tirar a própria vida de quem lhes concedeu o poder.
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10 de dez de 2009

Arruda, as cuecas e as meias

Os cientistas políticos tentam explicar o fenômeno da corrupção. Muitos culpam o sistema. O presidente da república defende a reforma eleitoral, dando ênfase ao financiamento de campanhas eleitorais com o dinheiro público. Sugestão que não resolve. A mídia, para ganhar mais dinheiro, faz sensacionalismo das cuecas e das meias.

No Congresso as opiniões se dividem. Instituições pedem o impeachment. A assembleia legislativa do Distrito Federal “estuda o caso”. A polícia, para manter a “ordem”, espanca e retira com violência os manifestantes. Imaturidade militar. A Polícia Federal confirma a veracidade dos vídeos. Meus colegas comentam com espanto: “Viu o jornal ontem? Que cabra mais ladrão! O patrimônio dele aumentou e muito. E a mulher? Você viu a mansão que ela ficou com a separação?”. E se prendiam a outros retalhos. Eu, no entanto, não fui pego de surpresa. Explico: Por que insiste Arruda em se manter no poder? Porque comprou o mandato. Por isso quer mantê-lo. Por isso entrou com mandato de segurança no STF. Enquanto o voto for mercantilizado, as palavras mensalão, propina, impunidade, pizza, cueca, meia; serão incluídas no cardápio de cada brasileiro quer queira ou não. E pode, a qualquer segundo, minuto, hora, surgir um novo arruda.
 
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30 de out de 2009

Os homens de bem e a política

A gente cresce ouvindo que “os homens de bem não devem se meter em política”. Que política é coisa de “cabra safado e corrupto”. De tanto ouvirmos essas expressões a gente se esquiva do sistema político e cometemos um grave erro.

A política não foi feita para os cabras safados, nem para os canalhas. A política foi feita para os homens que tem dignidade, responsabilidade. A gente precisa fazer a diferença entre o que é política e o que se pratica atualmente (costumo chamar de politicanagem).

A política constrói, educa, busca o desenvolvimento, a segurança pública, o bom sistema de saúde e outros serviços com probidade, ética, moralidade, impessoalidade e transparência.

A politicanagem estar bem definida na música Ladrão/Formigueiro, de Ivan Lins e Totonho Villeroy e nos últimos versos do poema de Brecht: O analfabeto político. Ela é a celebridade dos jornais televisivos, escritos, on-line e outros meios de comunicação. É tão cínica, tão covarde...

A prática da politicanagm unida à impunidade possui a consciência da maioria dos eleitores, tornando-os passivos. Essa possessão torna o cidadão frágil diante dos seus direitos, principalmente aquele que diz que “todo poder emana do povo”. Cabe aos homens de bem destruir essa miserável possessão, a exemplo da iniciativa do movimento do MCCE que altera a Lei Complementar 64/90; apesar de alguns dizerem que essa ação popular “não vai dar em nada”.

E é isso que o mau político quer que a gente pense. Não podemos ser covardes diante desses canalhas, nem permanecemos na opressão desse vil sistema. Porque aceitar esse fato é abrir espaço para uma sociedade mais violenta, mais egoísta, mais pobre, miserável e coisificada pintada pela mídia. Se a gente não entrar nessa briga, daremos espaço para que bandidos se candidatem; sejam eleitos e reeleitos.

Temos a obrigação de nos metermos na política ou correremos o risco de continuarmos a construir a sociedade da impunidade, de falsários, amoral, criminosa, doentia que surge todos os dias na língua de algum reporte ou em sua escrita.

Mudar é o verbo. Eis o desafio de cada um.
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1 de out de 2009

Base mal aliada

Toda eleição possui candidatos e uma base que os apóiam. E, na formação dessa base, há o povo arrastado em longos e cansativos comícios. Isso acontece porque o povo não sabe votar.

Não sabe votar porque não sabe a importância e a função social do voto. Não sabe dessa importância e função social porque não tem uma consciência crítica. Não possui uma consciência crítica porque não tem uma educação digna e adequada para as suas necessidades.

Quando o povo aprender a votar terá como princípio básico de sua consciência o conhecimento histórico, digo; vida pregressa dos candidatos e não precisarão acompanhá-los como fantoches de um grande e lucrativo comércio.

Comércio lucrativo porque há a participação direta de agiotas, de comerciantes, de cabos eleitorais com seu apóio “moral” e de uma parcela do Judiciário que se presta a esse tipo de canalhice. Esse apóio possui um valor financeiro no período eleitoral e pós eleitoral quando o seu candidato é eleito.

Enquanto o povo, que lucra com migalhas, sentirá na pele o mandato de um candidato quando precisar dos serviços públicos. Sentirá na pele o descaso da saúde, da educação, do social, da infra-estrutura e outros serviços.

É! O povo precisa “se ligar” neste grande e lucrativo comércio e tomar plena consciência que seu voto por migalhas lhe trará grandes e humilhantes constrangimentos.

Porque com tantos cifrões para se lambuzar, quem disse que eles pensarão que “todo poder emana do povo”; se esse poder não lhes foi confiados, mas comprados.
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16 de set de 2009

Senado do povo, como povo

Ouço quando os colegas opinam, melhor dizendo, repetem o que há nos recortes de jornais impressos, televisivos e revistas; mas sem nenhuma opinião crítica. E, a opinião que não são deles é que os políticos são um bando de gatunos e canalhas e aquele fuzuê não daria em nada.

Eu apenas os observo e penso: Os homens que ocupam os assentos do Senado foram eleitos pelos estados para representá-los. Vale lembrar que a maioria deles está em Brasília, vai à tribuna, elaboram belos discursos; apesar de não merecê-los. Estão naquela posição privilegiada não por mérito, mas porque comprou currais eleitorais.

Todos os brasileiros sabem que a briga no Senado é uma briga de interesses pessoais e jamais político. Se político fosse, tanto as representações contra Sarney seriam apuradas assim como a de Arthur Virgílio. Por meio de acordos que não são mais estranhos, mas tão íntimo entre eles é que elas (as representações) foram arquivadas. Aquela briga espelha a imaturidade política do eleitor brasileiro, a pandemia da corrupção e a imoralidade.

Penso que antes de repetir recortes dessa vergonha, imoralidade e podridão do Senado; é necessário que cada cidadão eleitor repense os seus valores éticos, morais. De nada vale criticar nas ruas, nas entrevistas, nas praças, em casa, no trabalho se, na hora de votar, a maioria vende e outra compra voto.

Cidadão que vende voto e que compra voto é amoral. Não tem o direito de criticar os políticos. Porque se eu vendo o voto para o corrupto, eu estou sendo corrupto, gatuno, larápio. Se eu transfiro o contrato constitucional elencado no art. 1º, V, § Único da CF que diz: "Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos, ou diretamente, nos termos desta Constituição"; como irei exigir deles a moralidade, a ética, a probidade, a impessoalidade das coisas públicas se esses princípios faltam em mim?

As eleições brasileiras, seja de competência da União, Estados e Municípios; são complexas porque envolve vários elementos: as escolas que não formam cidadãos para a vida política, mas para o mercado consumidor, aqueles que fizeram do voto um negócio milionário e um Judiciário dual, isto é, uma parte corrupta e apta que contribui para que o banditismo político eleja e se reelejam.

O voto, na situação atual histórica, nada mais é que uma simples mercadoria externada nas prateleiras dos celeiros municipais. Por isso o Senado é do povo, come povo.

Publicado no Recanto das Letras. (http://recantodasletras.uol.com.br/autores/ronlim)
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O vendedor de cocadas

Deparei-me com o vendedor de cocadas outro dia desses, quando andava tranquilamente pelas ruas daquela cidadezinha. Ele tinha aproximadamente um metro e setenta e cinco de altura, olhos esbugalhados, vestido à Caruaru, meio bojudo, sorriso largo, calçado com chinelo de dedo. Ele empurrava um carrinho de mão, dizendo: “Oi a cocada!”. Seu vozeirão chamava a atenção de quem por perto passava.

Lembrei-me dele nos arrastões, da enorme bandeira que carregava estampando o número do candidato, dos dias de embriaguez, da euforia e cansaço dos comícios, das piadas, picuinhas tão comuns nas pequenas cidades que para nada servem.

Lembrei-me, também, do dia cinco de outubro do ano passado. Neste dia, quando o resultado de boca de urna saiu, uma turba de pernas, risos, lágrimas, abraços, invadiram a avenida onde se localizava o maior colégio eleitoral daquela cidade. Alguém filmava aquele calor, aquela euforia. O vendedor de cocadas se aproximou do cinegrafista amador e disse: “Minha cidade agora saiu do buraco. Pode filmar. Filme!”. E saiu saltitante.

Diante dessa lembrança, pensei: “Passou a politicanagem. Ficaram os ressentimentos, as mágoas, as brigas. Sei de uma verdade: governo vai, governo vem. Permanecem as pessoas, os eleitores, as intrigas, a corrupção, a irresponsabilidade. E a vida do vendedor de cocadas e de tantos outros permanecem a mesma: sem esperança, saúde, educação, lazer, trabalho e moradia”.

Ele continuou a labutar sob o sol seu pão e eu segui meu rumo, na ruma das incertezas.
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25 de ago de 2009

Abandono e rejeição


Aos oito anos de idade Carla fora abandonada pela mãe, ficando na companhia de um pai epilético, alvoroçado e cachaceiro; apesar de trabalhador, além de uma irmã de quatro anos. A mãe era desses tipos de mulheres que entregou o corpo e a alma para as drogas, a prostituição, ao roubo. E era, também, dada aos bares.

Para Carla lhe sobraram apenas os afazeres de casa: cuidar da irmã caçula, cozinhar, preocupar-se com o pai, costurar e quando lhe sobrava tempo, ensopava a face com lágrimas miúdas. No seu peito juvenil se alojava a melancolia, o desespero.

Cheia de angústia, de dor; saiu outro dia de casa com um único pensamento: morrer. Esta foi a escolha que fizera para se livrar do peso que estava sobre sua vida. Na ausência do pai, pegou os comprimidos dele que combate a epilepsia e foi à escola. Estava pronta para tomá-los e dar fim a sua vida, mas a professora percebeu algo errado e interveio, tomando dela os comprimidos, abraçando-a. Carla apenas soluçava no ombro da professora.

Após dois anos, cinicamente a mãe retornou para casa e, o pai, covardemente a aceita e Carla; sentindo no peito as fisgadas da rejeição e abandono pede para o pai escolher entre ela e aquela mulher que se diz ser sua mãe. Ela perde a questão. Apela para a casa da avó que, por ruindade, não quer mais um fardo para sua vida. Sua avó é uma mulher passiva e lhe aconselha a aceitar a mãe. Em prantos, desabafando com a tia, escolhe como melhor solução a morte.

Outro dia fora à casa da avó para almoçar, pois, não queria partilhar àquela hora com o pai; muito menos com a mãe. A avó a recebeu nestes termos: “Já almocei e não tem mais comida. Por que você não volta para casa e come lá?”

Sem apoio moral da avó; saiu pelas ruas em um pranto silencioso e amargo.
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24 de nov de 2008

Farinha com água


Meio-dia. O mormaço entra pela porta escancarada, ficando retido nos cantos da casa. Olhos pequenos e pretos brilham de tristeza, desfalecidos. A mãe os olha com um nó na alma, impaciente. O marido vai para a saleta.

Os filhos sentados em uma mesa que fora do vizinho, com quatro cadeiras descadeiradas; esperam silenciosamente pela mãe. O silêncio negro da fome põe no rosto as formas geométricas da tristeza, do desalento.

Ela se afasta. Pega um bule, água na torneira, botijão prestes a acabar e leva-o ao fogo. À água ferve, borbulha. Ela tirou o bule do fogo e saiu colocando em cada prato (Nem tempero havia). O vapor subia prendendo aquela família no mormaço da dor, do desespero.

Em seguida ela, a mãe, pegou o resto de farinha azeda e dividiu em partes iguais. Uma xícara para cada filho. Os meninos mexiam a colher, tristonhos sem querer comerem. Mas uma força maior estava dentro deles, forte, robusta: A FOME.

Depois ela se ajuntou ao marido e a FOME.
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19 de set de 2008

O segredo escondido na prateleira


— Por favor, vá até a prateleira e me traga alguns fragmentos. Se por acaso você não os encontrar, procurai-os nos cantos da casa. E não demore. Obrigado!
 
No fundo escuro da prateleira uma criança chorava e ninguém ouvia seu pranto.
— Por que você está chorando?


— Porque estou com fome. Ninguém saciou minha fome.

Também chorei com ela porque estava com fome. E nós chorávamos e ninguém nos ouvia. Estávamos na parte mais escura da prateleira, onde costuma ficar a traça.


Então peguei linha, agulha e o cesto. Peguei algumas páginas e fiz pão, convidei-o para sentarmos em cadeiras de folhas. Começamos a comer, comer, comer...

 
Meus cadernos, 1998.
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24 de ago de 2008

Posta de peixe


Meio dia...

Ele chegou faminto do trabalho. Foi a cozinha, abriu a porta e a brisa o recebeu abafada. Meio metro da porta havia um estreito banheiro. A sua direita uma lavanderia. Ao pé dela, um gato vindo não sabia de onde com uma posta de peixe.

Aquele gato trouxera para o seu quintal um furto de uma cozinha, não sabendo de onde nem tendo idéia de onde. 

Deu dois passos. O gato, ao perceber que se aproximava, ergueu os olhos semicerrados e ronronou para ele. Talvez, no pensamento de gato, ele seria mais um felino faminto que disputava aquela posta.
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18 de ago de 2008

A existência que dói




Era visível no olho esquerdo uma remela esverdeada. A face, abatida, expunha a dor, a tristeza contida no peito. O lado direito perdera o movimento por causa de um derrame. Não costurava mais, não lavava a louça, nem punha na mesa o café para os filhos e para o esposo. Aquilo traspassava a sua alma e a reduzia a infelicidade. As lágrimas, companheiras de sempre, não mediam esforços para torná-la ridícula para os incompreensivos. E não eram só as lágrimas que entrou em sua vida, mas os antidepressivos, a impaciência e o murmúrio. Mas, em meio a essa "tempestade", sobrevivia com poucas e nobres lembranças que não voltam mais.

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8 de ago de 2008

Abrir e fechar o dia


Hoje fui acometido por uma insônia miserável. Volvia-se sobre o colchão e os meus olhos viam pontinhos luminosos na escuridão. Os grilos se foram, os pardais pipilavam e abriam o dia. Um montão deles era um coral. Eu não fiquei para trás, abri também o dia com as orelhas e da minha cama vi um dia diferente com nuvens espessas e paradas.

Os primeiros raios de ressaca surgindo com uma preguiça própria do céu. Olhos começaram a se abrir, mãos começaram a lavar os rostos. Os primeiros movimentos saem na rua, algumas portas se acordam e para a rua. Os pardais se espalham em vôos diferentes e buscam na variedade do cardápio o dia. Saem assim como o homem para a vida. Mas, eu fico coberto com o lençol e os  meus olhos estão pesados. Um friozinho está nos cantos do meu quarto, menino sapeca, sorrateiro.

LIMA, Ronaldo Pereira et all. Ritmo Vital: contos, poesias e crônicas. São Paulo, Edições AG, 2007.
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25 de jul de 2008

Céu plúmbeo


O céu estava plúmbeo. No outro lado do rio, uma nova croa apareceu; entristecendo os corações dos ribeirinhos. Uma canoa passou melancólica e solitária.

Desci a rampa do porto das lanchas. Dentro de uma delas, olhei no visor do celular. Estava atrasada cinco minutos. Foi dado partida no motor. A lancha saiu de ré, auxiliada por um caibro roliço.
Diante de mim, vestido à Caruaru, um jovem de uns vinte e cinco anos tentava nos esconder a face e os olhos sob a aba do boné branco. Era como se ele estivesse nos escondendo algo, receando que a gente desconfiasse ou descobrisse.

A brisa suave e fria batia nossas faces e as águas, as poucas e cansadas águas do pobre Chico receberam as primeiras gotas do céu. O vento, malinando sobre a face das águas, formavam pequenas marés. A lancha se balançou e uma senhora, no fundo, estava aflita. Próximo a ponte, apesar da distância, notávamos a imensa ilha com currais que servem para pequenas criações de gado bovino. Ilha esta que antes não existia, mas que agora faz parte da vida dos ribeirinhos. Os assoreamentos surgem como um câncer.

E a lancha, sem saber, transportava a tristeza dos meus olhos para o outro lado do rio, onde iríamos parar num outro porto que nos receberia com um bueiro de esgoto.
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22 de jul de 2008

Fragmentos

O rádio toca, os carros passam. Debaixo do teto as pessoas conversam, a lagartixa surge na parede branca e a cozinheira faz à comida...

 A família janta e as formigas bebem água.

Sem causa elas brigam, irritam-se. As formigas se cumprimentam.

Ah! Enquanto escrevo, uma formiga passa sobre as minhas palavras. O mosquito rouba o sangue. 

A pequena não sabe ler. Isso deve ser considerado.
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