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Aquela professora

Morria de dor de ouvido. Pálida, inquieta, não teve alguém que soubesse de alguma erva medicinal ou algum fitoterápico. Sem aguentar as dores, correu para os braços do vereador Abreu. Este, quando a viu, fez cara feia. Mesmo assim teve o prazer em ouvi-la dizer:

— Abreu, você pode me levar até a unidade de saúde. Tô apulso!

Ele, raivoso, olhou para a cara dela. O não chegou até a ponta da língua, recolhendo-se assim que pensou na quantidade de votos da família de Sandra.  A possibilidade de ela ficar lhe devendo favor era muito grande e um motivo para passar na cara, caso precisasse.

Abreu foi ao quarto, vestiu uma camisa, balbuciou alguma coisa para a mulher, que não estava de cara boa, e trouxe a professora para a cidade. Ao chegar, deixou-a para ser atendida e saiu insatisfeito. Poderia estar com a sua caçula nesse momento, pensou. Na rua, encontrou com uma conhecida e lhe disse:

— Você acredita que eu tive que sair de casa para trazer a professora Sandra para a unidade de saúde? Dei quinhentos reais aquela infeliz no período eleitoral e ela ainda vem me perturbar uma horas dessas. 

A conhecida, estarrecida, perguntou:

— Você deu quanto mesmo pra ela?

— Quinhentos reais. Uma pessoa que nem precisa. Agora me responda: tenho alguma obrigação com ela?

Ao que a conhecida respondeu de imediato:

— Claro que não! Quem já se viu uma coisa dessas?

— Sabe quanto foi a minha eleição? Noventa e seis mil reais. Um ou outro é que votou por amizade. Mas a maioria vendeu o voto. Até meus amigos de cachaça me pediram dinheiro pra votar em mim. É mole uma coisa dessas?

— Por isso, meu amigo, que eu não vendo o meu voto. Só assim, posso falar o que eu quero quando vocês fazem alguma coisa de errado, que prejudique o povo.

Abreu fingiu não ouvir o último travessão. Continuou a falar, a criticar os eleitores.

 


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