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11 de set de 2015

A bola



A bola rola fora do coração.
A bola boia no espaço. É levada pelo vento e se enrola.
Eu olho quando elas sobem vestidas de claridade. As bolhas. E se transfiguram em moscas volantes.
Bola. Bolha. Mosca. Acima da minha venta.

E fui outro. E fiquei cheio. E fui saco, mas não dos outros. 
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9 de jan de 2015

Pra você

 
 
Eu poderia dizer todas as coisas do mundo, vasculhar os dicionários e neles selecionar todos os vocábulos para expressar os meus sentimentos.
Eu poderia materializar a minha alma, o que ela viu vê e pensa a seu respeito.
Ah, quantas coisas eu não poderia te dizer!
Falando ou calado, beijando ou sorrindo, caminhando ou parado.
Se eu pudesse pegaria um raio do sol todas as manhãs e te daria de presente para ele brilhar na sua presença e expandir a sua beleza. Gosto de você e não me escondo. Vejo-a com bons olhos e a respeito. Sua simplicidade toca o meu peito como címbalo.
Não me calo para você, não me revolto e nem a desprezo porque não a tenho...
Ontem a lua estava folclórica e sob os seus raios estava a minha compreensão (uma fase do amor).
Não sei o que pensará a esse respeito. Se a flecha grega trespassou o coração para outra face, é uma pena! É um lamento nos ossos.
Quando alguém me pergunta se eu ando apaixonado, eu rio no canto da boca, proíbo a minha alma com psiu e me calo para o amor. Faço isso porque não sei como anda a minha esperança, pois, ela depende de você.
Por tudo isso não me negue o riso, o diálogo, a mão macia.
Não me prive de olhar de perto o teu rosto branco, belo nas veias da bomba.
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Outros olhos


*Eu vi dentro dos meus olhos outros olhos. Eles estavam lacrimejados.
Aqueles olhos tinham neblina e estavam fatigados dos dias.
Aquela carne se mostrou frágil perante mim.
O meu espírito não se conteve. A minha face transfigurou-se em formas geométricas e vi o quanto a vida é dura para os que vivem nesse mundo a espera de um ouvido.
Queria um ouvido, mas as pessoas a sua volta não queriam emprestá-lo.
Antes abriam a boca para a peçonha das palavras.
E depois caem fora.




* Ronaldo Pereira, 051103. PORTO LITERÁRIO, ANO II – N.º 56 – DE 23 OUTUBRO/ 2003.

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22 de out de 2014

Beijando a flor

Em frente da minha casa há um jardim.

Nele, um beija-flor beija as flores todas às tardes.
Todos os sábados, em frente da minha casa, uma garota colhe  flores.

Houve uma semana que ela, o beija-flor e as flores se encontraram.

O beija-flor percebeu que a garota tinha olhos lânguidos. Correu ao encontro dela e a beijou.

A garota riu, agradeceu.

Disse: você beija todos os dias a sua flor. Eu as colho para o meu amor — os olhos lacrimejaram.

E entendeu o beija-flor.

E assim, combinaram adornar o jardim.
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26 de jul de 2014

Sabor de acerola


Hoje eu ri. Mas a noite não é minha.
Foi dela.

Quando a vi, meu corpo se inquietou. Teria tantas coisas para dizer a ela. A voz, no entanto, se embargou. 
Sem solução, chupei acerola e procurei nas sementes um sabor para mim.

03.06.99
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25 de set de 2013

O vai, o vem

A brisa é suave. As pessoas não vão e não vem sem as preocupações das metrópoles.

Os pardais pipilam misturados aos roncos de alguns motores.

Vão, vem e não se sabe a importância de cada um, o sentido por aqui, a permanência passageira.

A brisa toca. Os pardais pipilam. As pessoas riem no vai, no vem de cada um.
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12 de jun de 2013

Malinações do vento

Ele vem tonto e com cara de bento.
Lá, em sua morada, o mundo não pára nem brinca.
Enfadado do cata-vento, saiu das hélices e foi parar nos galhos, nas ruas e nas saias.
De saia em saia, o malino menino sem aljava ou seta aprontava com as garotas.

Esse moleque aprontou com A menina de nariz arrebitado que logo surgiu com o bucho esticado.
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4 de dez de 2012

Um pouco do tempo


O tempo de doação e de anjo está se expirando.

O tempo de compreensão mais lúcida está se aproximando.

O tempo mal aproveitado e disperso está se organizando.

O tempo feito de dor e angústia está amadurecendo.

É o meu tempo, nada mais que meu tempo.
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11 de jun de 2012

Sem etiqueta

Esta roupa que uso não é minha. É da terra, da morte, da vida.
Esta roupa não está em nenhum manequim ou em alguma vitrine, por isso não posso comprar, por isso me constrange.
Ela está emprestada. E só posso devolvê-la apodrecida.
A ferrugem nasceu comigo atrapalhando o entendimento.
Por isso a roupa, que não é minha, continua apodrecendo na vitrine.

Cadernos, 03/12/97.
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25 de mai de 2012

Rascunho II

Sentado na cadeira, mudo. A tristeza, riacho nos sulcos da face, descia sem rumo.
Ondas se agitavam,
Limitando-se aos grãos.

Quando verem a máscara da tristeza, notai a expressão do eu em meio à pressão,
Sem fonemas, palavras, mas com rugas, cores
E milhões de células que o espírito fala,
Cola na cara.
Cadernos, 23/11/97.

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1 de mai de 2012

A estátua de carne

Eu me construo de mundos diferentes. 
E me encontro com breves explicações vagas, balbuciadas de várias bocas, contribuindo apenas para o caos. 
Eu – uma estátua de carne úmida – ouvia fonemas fracos como redemoinhos nos meus tímpanos.
Acontece que eu não queria sair. Eles insistiram até que roubaram a minha reflexão.


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14 de nov de 2011

Miserável foi o amor

Eu irei me recolher no meu próprio sofrimento

E me calar para o amor.

Não irei me refugiar no silêncio mais frio e baço dos teus olhos feito menino pidão

E procurar no chão por uma formiga.

Não irei me oprimir. Se o meu mundo estiver prestes a estourar, que estoure; mas sem mim.

Irei me encolher nas ideias para não mendigar nas úmidas ruas de inverno por esse infeliz amor.

Cadernos, 1999.
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26 de out de 2011

Mover e mover

Era café e leite no assento da praça

Com carícias e beijos afogueados

Sob o sol fatigante

Envolvidos e abafados no tempo.

Noutra parte o mundo se movia

Com as palavras, com os pés,

Com os gestos, a respiração, o riso

E o coração.

O mundo se movia nesta parte e noutra

Com o barulho, com os sons,

Com o vento, as folhas, as mãos

Na minha vista.
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10 de ago de 2011

Face dupla

Olhai a cara das palavras
e verás
que as suas letras
pulam, mudam de lugar

Penetre no mundo delas
dos sonhos
e verás a variedade das cores.

Mas cuidado porque existem palavras que encolhem
e outras esvaziam o coração
e outras são pedrinhas de areia na língua.

Existe, também, em cada palavra massa.
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28 de mai de 2011

Rascunho 1

Vai dos meus olhos e deles vêm a onda chamada amor
Quebrando-se delicadamente nos meus pés…
Acontece que Posêidon revoltado estar,
Agitando-se e agitando as ondas desse mar
E muitos  rostos púberes não sabem nada-r

Do frágil desamor
Do mártir úmido
De um coração incolor.

No peito está sepultada a bomba
em fibras pulsantes de uma Hiroshima…
Destruiu a luz, roubou a flor
e, por fim, matou a boba
no cogumelo atômico do amor.

Rascunhos, 1999.
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12 de abr de 2011

Retrato

Vi a minha face dentro do espelho.


Mas quando virei o rosto


Eu a perdi no esquecimento.


Passo por uma rua inclinada e a vejo numa soleira.


Dei-lhe um riso contido, mas ela não percebeu.


Sigo adiante e percebo meus pés pisarem fundo.


A minha face não sabe a hora de parar, nem deseja o asilo.


Ela só quer se rever no espelho



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9 de fev de 2011

O problema do amor

O problema do amor é que ele é concreto.
E por ser concreto é incompreendido.
O problema do amor é que ele é dual. Digo, não é único; torna-se único
É de carne e osso.
Não é só carne, só osso. São duas carnes, dois ossos.
Esse é problema do amor.

LIMA, Ronaldo Pereira de. Agonia Urbana. Rio de Janeiro: Litteris Ed: Quártica, 2009.

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23 de dez de 2010

Urbano coração

Agonia nos cantos da casa, nas esquinas das ruas, nos ângulos do mundo.

O mundo anda, corre, embriaga-se, cambalea no espaço sem rumo; 
humilhando corações humanos que não são mecânicos.

E os homens, meninos, saem pelados pelas ruas;
correm, cansam-se, morrem e explodem de pressão.

Por isso, chora, chora
Meu irmão no urbano coração.

Cadernos, 1996.
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9 de out de 2010

Os dias nunca se repetem

Eu sou nas coisas
E me debruço nas linhas tortas das mãos.
Eu sou no mais porvir, que é acordar com o mundo, tentando com toda força renascer; pôr 
uma película neste planeta para que o rumo incerto que ele tome seja melhor com os sóis.
Estou… ah!… ah!…
Os olhos pedem sono.
Vou dormir, pois, amanhã eu já não sou.

Caderno 6, dezembro de 2000.
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30 de ago de 2010

A Oswald redescoberto

— O Brasil foi descoberto ou descobrido?
— Não. Ele foi achado!
— Despido?
— Rapaz, ele foi vestido.— O Brasil quando foi achado, estava pelado.
— Não tinha frio, nem resfriado.
— Mas quando vestiram-no, sentiu frio e resfriado.

LIMA, Ronaldo Pereira de. Agonia Urbana. Litteris Ed.: Quártica, Rio de Janeiro, 2009.
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