17 de ago de 2017

Narrativas para contar e recontar


A palavra folclore foi criada por um arqueólogo inglês em 1846. É formada pela união de dois termos: folk, que significa povo, e lore que quer dizer sabedoria.
Folclore, portanto, tem um sentido amplo, que acolhe tudo aquilo que pode ser considerado expressão da “sabedoria do povo”, ou seja, as manifestações da alma popular, de sua cultura mais autêntica, de sua moral, de seu modo de ver o mundo, de encarar a vida e de lidar com a morte, suas crenças, tradições e conhecimentos.
São manifestações sem interferência da cultura erudita e que nascem espontaneamente no dia-a-dia das pessoas. Podem ser, também, representações de costumes passados de geração para geração, transmitidos desde as épocas mais remotas da constituição de uma nação, que sofreram influências culturais dos elementos humanos e formaram um determinado povo.
O artesanato, as festas, as músicas, as danças, as brincadeiras, as comidas e bebidas tradicionais, os cultos, as lendas, os mitos e os contos compõem esse grande conjunto de saber popular, o folclore, que acaba sendo um retrato, uma síntese da beleza e da capacidade criativa de um povo.
Se quisermos compreender uma sociedade, chegar à sua alma, às suas raízes mais profundas e autênticas, devemos conhecer o seu folclore.
As narrativas orais, disseminadas a partir dos ambientes familiares, figuram com uma das expressões mais vivas do folclore. Sem autoria determinada, são contos preservados e renovados, sobretudo nas conversas em família, em que os mais velhos passam aos mais jovens esses relatos cheios de imaginação e encantamento.
Os contos do folclore brasileiro, aqui reproduzidos e adaptados, são uma boa amostra desse imenso conjunto cultural que compõe o imaginário do nosso povo. trazem um sabor rico, denso e variado, que reúne olhares distintos, vindos de diversas partes do mundo. As narrativas recebem três fortes temperos dos homens que formaram o povo brasileiro: indígenas, africanos e europeus. A influência de cada povo fica clara na leitura. Os contos cujos personagens são bichos têm origem indígena ou africana, como “O Macaco e a boneca de piche”.
Contos com bichos, como “A Onça e o Gato” e “A Preguiça”, assim como “A lenda da Iara”, são indígenas. Alguma narrativas envolvendo escravos refletem, sem dúvida, o sentimento dos negros antes da Lei Áurea. Já os que falam de reis, príncipes, encantamentos e heróis possuem origem europeia.
Ao entrarmos em contato com as narrativas de nosso folclore, ficamos mais perto de nós mesmos. Podemos nos compreender melhor e apreciar a riqueza das origens de nossa cultura. São contos que divertem, entretêm, emocionam e ensinam muito sobre o que somos.
Com o passar do tempo, por força das circunstâncias da vida moderna, nós nos distanciamos cada vez mais do vigor dessa sabedoria original, tornando ainda mais importante um movimento de aproximação entre o homem contemporâneo e seu folclore.
Sílvio Romero, Mário de Andrade, Câmara Cascudo e Monteiro Lobato foram alguns dos pioneiros dessa revelação e da difusão do folclore brasileiro para o homem das cidades.


CARRASCO,Walcyr. Lendas e Fábulas do Folclore Brasileiro. Barueri, São Paulo: Manole, 2009.vol.1.

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