13 de mar de 2015

Pra que serve trabalhar tanto nesta vida


A cadeira rangia. Ela reclamava por conserto, deixando ele incomodado e mal-humorado. Dela, ouvia-se o último coaxar dos sapos vindos do quintal que dava numa lagoa.
Nisso, lembrou-se daquela criança que viveu vida dura nos canteiros, nos lotes de arroz e na pescaria. Percebeu que a sua migração para a cidade frustrou suas pespectivas de uma vida melhor.
Com a cabeça cheia, precisar sair. Ficar em casa só seria receber cobranças da mulher e dos fiadores. E para isso, ele não estava pronto.
Na rua, andava sem rumo; até se debruçar no cais de arrimo e dele observar um pé-de-matafome cheio de vagens verdes e avermelhadas pronto para pardais vindos de todas as partes.
Mas foi uma criança, às margens do rio, descalça, de short azul e sem camisa que chamou a sua atenção. Ela levava no ombro um jereré para pescar saburica em meio ao lodo, dejetos humanos, bolsas plásticas, garrafas descartáveis presas às orelhas-de-burro e caramujos em abundância nas partes rasas do Rio.
Aquela criança o fez lembrar de muitas coisas e pensar em outras que ele não desejaria. Saiu revoltado, foi ao bar de Lió, arrumou confusão por lá e voltou para casa, deitand-se no sofá.
No outro dia se levantou cedinho para pescar.
Ao retornar da pescaria, encontrou Alberto de cócoras jogando pedrinhas às margens do rio. Ancorou a canoa, aproximou-se dele, tocou-lhe o ombro e disse.
Algum problema, meu amigo? Tá todo desconsolado. O que foi?
Meu pai morreu!
Ô rapaz, que coisa. Meus sentimentos!
Essas foram as únicas palavras proferidas entre eles. E logo percebeu que o amigo precisava ficar só. Deu até logo e se foi carregando seus objetos de pesca. Na ida, enquanto subia os degraus do cais de arrimo, pensava na morte. Pensava porque sentia cansaço no corpo e na alma.
Ao chegou na porta de casa. Barão o recebeu com alegria pulando sobre ele. Artur simplesmente passou a mão sobre a cabeça dele e o acariciou. Entrou em casa.
No sofá, o filho do meio, pálido, não atentou para a chegada do pai. Estava entretido com uma revista. Não era só a revista que o entretinha; era a indiferença. Artur pôs o leme no quintal, jogou o saco que estava dentro do balaio no canto da parede e foi direto ao banheiro.
Enquanto a água fria tomava a forma do seu corpo, ele pensava na face de Alberto. Nunca vira o amigo tão abatido. A única coisa que podia fazer naquele momento era apoiá-lo. Vestiu-se, penteou o cabelo. Quando colocou os pés fora do batente, sua mulher o interpelou:
Já vai sair? Mal chegou da pescaria e já vai pra rua?
O pai de Alberto faleceu. Você não sabia?
Não, não tava sabendo, respondeu ela descabriada.
Ele tá lá na beira do Rio todo desconsolado. Vou lá dar uma mãozinha pra ele. Não sei que horas voltarei. E pare com essa mania de me censurar.
Ela calada estava, calada permaneceu; voltando-se para seus afazeres.
Alberto, com os olhos lagrimejantes, notou Artur se aproximar. Depois, lhe disse:
Prá que serve trabalhar tanto nesta vida. T’aí, meu pai; morreu e a gente nem o caixão tem pra enterrar ele. Eu e meus irmãos temos que pedir prós políticos, ficar devendo favor prá esse povo que só faz isso atrás do voto.
Sem ter o que dizer, Artur permaneceu ao lado do amigo silente, contemplando as águas serenas do Chico enquanto este se esvaziava. Ao perceber a fragilidade dele, pensava na maldade do mundo, sem compreender como alguém é capaz de se aproveitar de uma situação dolorosa como essa.

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