17 de mar de 2010

Horasão


Nesse exato momento a horasão do relógio não impede que alguém passe à noite com o estômago vazio.

Nesse instante de segundos, alguém está no relento namorando o frio colchão da rua.

Nesse exato momento o relógio não se cansa das preces. Preces de morte, de loucura, de estrelas fugitivas...

Nesse instante alguém não percebe a folha caindo, nem uma criança, um velhinho ou uma perdida bala.

Nesses momentos, instantes nus de uma horasão sem cor; o fiel cristão do tempo, da vida ora alegre, ora triste.

Hora tão banal, hora tão medíocre.

E a horasão do relógio não recomendou a alma do morto a Deus.

Meus cadernos, 1997.

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